O convite era para um jantar, de modo que me preocupei com tudo menos com comida a partir da hora do almoço. Saí do consultório no fim do expediente direto pra natação e da natação para a Barra Funda, com fome e ainda cheirando cloro. Da porta do apartamento, vi que na mesa não havia um único prato. Eram seis lugares e já tinha pelo menos uns oito. Passei pela sala pequenininha – sofá, aparador, televisão, duas poltronas – e me acomodei como foi possível nos banquinhos que surgiram a cada novo convidado. Não conhecia nem metade, um povo muito querido, muito falante e tudo mais. Com os banquinhos apareceram os copos e, vinho vai, vinho vem, nada de ninguém colocar uma garrafa d’água, um tremocinho que fosse em cima da mesa. E o álcool lá, fazendo buraco no estômago.
Quando eu era pequena, meu pai tinha muito a dizer sobre o meu estômago. Não quer comer, não tem problema. Agora veja, o povo pensa que o estômago é um trem obediente, que estica e encolhe no ritmo que a gente quer. Não é bem assim não, quando o bichinho começa a minguar, vai ficando feito casaco de couro velho que só se usa em viagem de inverno, sabe? Lembra do casaco de tio Nando, duro, estatelado, se desfazendo? Pronto, cada refeição que tu pula, teu estômago craquela um pouquinho, diminui um pouquinho. Depois não volta mais. Um dia, tu morre seca de fome porque não vai caber nem um feijão lá dentro.
Pois bem, devia ser pra lá de dez quando o anfitrião levantou anunciando que bora começar, melhor né?. Bora, pelo amor de deus. O pior é que ele não chamava para o jantar. Na minha cabecinha o encontro era comemoração do fim da gravação do disco do moço, mas fiquei sabendo ali que não. Estávamos reunidos para uma audição. Vá lá. Ai, que amor, tá massa, parabéns. Mas com o bora, emendou-se uma série de instruções. O ideal é não comentar durante as músicas, tem lápis e post-its pra todo mundo ir anotando. Se puderem atentem ao compasso, ao baixo na terceira e ao coro em todas, tô um pouquinho na dúvida quanto ao coro. O sambinha na faixa seis também. O que vocês acham do surdo? E claro, as letras, importante as letras. Ele esperava críticas de especialista. Serião.
Outra história sobre o meu pai: os D´Albuquerque escutam muito mal. Tio Nando mesmo está no aparelhinho desde os cinquenta, vovô João desligava o dele nos almoços de domingo pra se livrar dos netos, painho responde linda, linda pra quase tudo que eu digo, até quando é notícia ruim e eu já vou no 22 do volume da TV.
A vida do pré-mouco é ter permanentemente as duas mãos ocupadas por uma corda de cabo de guerra. Na ponta de quem puxa, o estou escutando e entendendo tudo. Na que está na mão do mundo, o nem uma coisa, nem outra. O objetivo é não deixar o lado oposto avançar além da metade. Matemática simples, com até 49% de conteúdo perdido se arrisca uma gestalt, passou disso, não dá. Se o caso é de conversa de dois, o portador do cabo olha bem olhadinho pra boca de quem fala. Com o tempo vai se aprendendo a tirar sentido do movimento dos lábios, dos olhos, dos gestos. Agora, se tem muita gente falando ao mesmo tempo, a corda periga ceder, aí tem que cuidar pra não perder o interesse. Todo mundo ri, você acompanha, todo mundo se espanta, você solta um minha gente, aí é lasca, não pode. Porque passou dos 51% avança rapidinho e quando você se dá conta está afogada nos sons do próprio corpo. Começa estalando os dedos, o pescoço, o ombro, as costas, só pela delícia de cada creque, as batidinhas nos dentes, os barulhos da barriga, o ar que entra e que sai. Piscou, já tá alheia a tudo e a todos ouvindo o coração bater como quem mergulha na piscina e esquece de voltar pra respirar.
Andamos até a sala e fomos nos arranjando, todos muito pertinho uns dos outros. Escolhi estrategicamente o braço do sofá na esquina do corredor caso fosse preciso levantar e fugir. O anfitrião se pôs a fechar primeiro a varanda, depois as janelas, transformando a sala em um uma touca de natação. Nós éramos os cabelos. Caminhou até o aparador, tentando não pisar nem no pé do povo do sofá, nem na mão do povo do chão, pegou o bloquinho amarelo de post-its, ligou o computador que passou a transmitir gráficos para a tv e soltou o segundo bora?. Depois do bora de resposta e do play, encostou no batente do corredor bloqueando a minha rota de fuga. Segurei a corda com força antes de qualquer nota, silêncio profundo.
Bloquinho nas mãos, inclusive eu, já tinha gente anotando no primeiro blem, blem, que saiu de um violão, uma guitarra, não sei precisar. A segunda música ia na metade quando lembrei da letra, importante, a letra. E o baixo? É na segunda ou na terceira? Como é mesmo o baixo? Minhas pernas longas ficando meio dormentes, cruzadas demais, tentando caber no sofá, a gotinha de suor no pescoço do moço sentado na minha frente, cara de mala, a veia saltada na testa do anfitrião, o da poltrona tocando uma bateria imaginária e a primeira estalada. Creque. Uns três olham pra trás. Desculpa. Minha mão cansada de puxar.
Entre a quarta e o próximo intervalo, nas minhas contas, passou uns quatro anos, uns quatro metros de corda, silêncio profundo. E só microssegundos para os outros nove dedos, o pescoço, o ombro, as costas. É que se estala um, tem que estalar o resto todo, e com urgência. Começou a quinta. Das letras, só peguei a rima de calmaria com bateria que achei besta, mas não sei se era ele que cantava ou se era o coro. Nem sei se cantaram de verdade ou se eu completei porque vi o cara da poltrona. E talvez tenha sido padaria, mas pode ser a fome.
A quinta não tinha instrumento, só a voz, super baixinha, uma coisa meio sussurrada, muito talentosa, muito moderna, que deus me perdoe, não aguento não. Foi bem na hora que as vogais esticaram que ouvi a minha expiração tão alongada quanto os as e us dos gemidos do moço. E pra ninguém ouvi-las, inspiração e expiração foram ficando cada vez mais curtas, e quanto mais curtas, mais altas e quanto mais altas, mais curtas. A pressão dando sinais de azul piscina. Acaba a quinta, alguém faz menção de aplauso, ele diz que não com a mão, eu lembro da corda. Tá pesada demais. Os dentes, de tanto batucarem, já vão pela metade.
Silêncio profundo. Quando a barriga dá o primeiro agudo, percebo como o anfitrião parece com tio Nando. É grave. O da poltrona igual a painho, gravíssimo. Os dois de maiô de couro. Cada um com um prato de feijão no colo. Meu estômago no centro da corda, pequenininho, craqueladinho, se equilibrando colado com a cola frágil de um post-it. E o coro insistindo na calmaria, na bateria e na padaria. O baixo altíssimo inspira e expira, inspira e expira.
Da varanda, vovô acena. Não entre não, eu digo só com o olho. Mas ele já nem escuta, nem enxerga, morreu faz uns vinte anos. Passa por uma nesga da porta e tenta tirar o aparelho, tudo grudado de cera, enfia no meu ouvido, tão enfiado que me alcança o corpo lá dentro, o aparelho, ele e o feijão disputando o espacinho minúsculo do meu estômago barítono. Ai, que dó. Tio Nando e painho mastigando alto, engolindo num gute, gute asqueroso, a boca cheia, perguntam, ouvisse o surdo, Roberta? Ouvisse? O da poltrona comendo post-it. O suado todo molhado de calor, por que não tira esse casaco? Chora cavaco, chora malaco, chora sovaco. O povo olhando pra frente, os grafiquinhos dançam nadando crawl, três, braçadas respira, três braçadas, respira, relaxa o pescoço, tira o ouvido da água, ativa o glúteo, pega no bumbum, pega no compasso. Minha barriga acompanha o coro e o couro, os dentes saltam em flecheiro, o feijão, o tremoço, olha o trem, moço, a letra, a letra, importa a letra é importante a letra. A letra é linda, é linda deixa ela entrar. O coro grita, o anfitrião desliga a TV, se volta pra plateia, o povo aplaude, ele agradece feito um pernalonga maestro, tu-du, tu-du, tu-du. Quem começa? Da ponta pro centro? Comenta, Roberta.

