Cachorrada

Os pelos escovados dos poodles balançavam na brisa do início da tarde. Era o intervalo entre os períodos e Talita , a titular de matemática pediu que a Pet Shop os entregasse na escola. Recebeu os dois e seguiu empunhando as guias como se ambos desfilassem para um concurso.

A rampa para a entrada do pátio, no entanto, não era uma passarela e o encontro com Emília não estava previsto. Tinha que subir as escadas para levar os bichos até a sala ambiente e o resto resolvia com os alunos. Os adolescentes amavam novidades e uns pontos a mais nas notas

Talita tinha cerca de um metro e oitenta, ombros e quadris largos. Era tão exuberante que nem precisava levantar a voz rouca para marcar território, mesmo assim, falava alto quando o assunto eram os seus dois poodles brancos. Falava e afofava os cabelos que se enroscavam nos anéis de pedra. Olhando bem, a professora guardava semelhanças com os cachorros bem cuidados. Foi divertido nos primeiros dias, mas depois de duas semanas, as histórias viraram ladainhas que afastaram os colegas. Nos intervalos, quando ela entrava na sala, alguns colegas saíam para o pátio ou para o banheiro.

Emília, a diretora, continuou sendo a única a ouvir as histórias. Ela também contava as suas. Tinha três vira-latas trazidos das feiras de adoção. Não era sempre que ela chegava na escola com pelos e marcas de patas, mas quando acontecia, gostava de exibir as manchas nas camisas soltas e nos jeans. Era o seu modo de demonstrar que o amor canino lhe bastava. Talita, embora se vestisse com calças de alfaiataria e blusas de linho ou seda, também costumava mostrar as marcas dos poodles. No caso, um ou outro furo de mordida nos seus sapatos baixos. Ela também achava que o amor canino lhe  era suficiente.

O encontro na subida para o pátio teve testemunhas e a diretora, não tinha como ceder.

– Dê um jeito nisso. Eles não podem ficar na classe.

Talita respondeu que deixaria os dois no carro porque não daria tempo de ir para casa e voltar para as aulas.

– Faça isso então – Emília falou tão alto quanto Talita contando as histórias dos poodles. Precisava ser ouvida pelos demais professores e por alguns pais que estavam por ali acompanhando os filhos.

A professora de matemática bem quis responder, mas seguiu direto para o estacionamento.  De alguma forma, a vista da sala de aula para os carros permitiria que controlasse o comportamento dos cães bem como a hora da diretora deixar a escola e ir para casa. Todos os dias, um pouco antes do intervalo.

Talita deu as três primeiras aulas de olho no seu carro sem que os estudantes notassem. Quando deixou os dois, garantiu umas frestas nas janelas. Eles latiram até ela chegar à entrada de volta ao pátio, mas se calaram assim que fechou a porta. Subiu para as aulas tranquila e ao mesmo tempo contrariada. Custava Emília ter permitido?

Pouco antes das dezesseis horas, cumprido o horário de trabalho, a diretora entrou no seu carro, acionou o controle para abrir o portão e saiu. Talita viu tudo da sua sala, aguardou o sinal para o intervalo e desceu para ver os cães.  Os vidros estavam babados e os dois dormiam. Os pelos ainda sem embaraços, escovados e brilhantes. Tão bonitos e limpos que precisou acordá-los para um passeio e um plano rápido de resgate nas sacolas retornáveis que guardava no porta-malas. Com o suborno de biscoitos, acomodou cada um numa delas. Agora era só subir as escadas.

Os alunos amavam os cãezinhos e uns pontos nas avaliações. Tudo certo, não fosse o encontro com a assistente de direção. De novo a mesma cena da entrada, de novo os cachorros no carro. Talita mal deu as últimas aulas. Viu a tarde cair e esconder a visão dos seus poodles no estofamento escuro.

 Assim que deu o sinal de saída, desceu correndo. Eles estavam bem. Em vez de voltar para casa, seguiu para a casa da diretora. Deixou os seus cachorros suportarem mais um tempo dentro do carro, tocou a campainha e foi recebida com festa pelos três vira latas. Quando Emília saiu na janela, Talita gritou que só acreditava no amor dos cães. A diretora não teve tempo de descer. A professora afofou os cabelos, ajeitou a blusa de seda , entrou no carro, beijou os cães e voltou para casa.

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