O deles

por Américo Paim

Pensei que seria bem fácil. Passei a noite toda ensaiando como chegar, o que falar. Era só parecer sério, fazer minha parte e pronto. A grana vinha em boa hora. As cobranças das dívidas estavam ameaçadoras. O trabalho era uma auditoria em um hotel, coisa que nunca fiz na vida. Na real, nem sabia o que era isso. Me arrumaram uma vaga na empresa só pra fazer o trampo. Eu só precisava passar um dia no hotel, ver um monte de coisa lá e assinar os tais relatórios, que já estavam prontos. Dr. Everaldo me explicou tudo direitinho. Confesso que, depois que entendi o que era, achei que o dinheiro tava pouco, mas fiquei calado. Minha situação não era das melhores e como eu pedi serviço ao doutor, não dava pra chiar.

Era pra estar no Hotel Alvorada de manhã cedo, só que Cotinha apareceu aqui em casa e aí a gente ficou fazendo coisa melhor. Só cheguei lá depois do almoço. Logo de cara, teve uma confusão. Um cara apareceu antes de mim e pensaram que era eu. Como não me atingiu, fiquei de boa. Tudo se ajeitou, eu acho. O gerente, o tal de Paulo Alberto, já tava me esperando e sabia de todo o acordo. Ele mesmo fez meu registro, me deu o nome que eu devia usar e mandou um funcionário me levar na suíte presidencial. Coisa chique. Quando o moço abriu a porta e eu já ia dar um trocado e dispensar, ele me surpreendeu.

– Me diga aí, Roberval, o dinheiro é bom?

– Como?

– O que vai receber, essa armação toda.

– Não sei do que está falando – já falei inseguro. E como sabe meu nome?

– Sei de tudo, véi.

– Olhe aqui a gorjeta e tome seu rumo.

– Não vim aqui pra ganhar merreca, não.

– Oxe, mais respeito…

– Olhe, quero falar de grana de verdade.

O sujeito tinha, no máximo, uns vinte e poucos. O olhar era seguro e ele cheirava a perfume que não era barato. Tinha uma cara arrumada, mas faltava um dente, que aparecia quando ele sorria irônico, o que rolava com frequência. Eu devia ter dispensado o sacana. A curiosidade foi maior e caí na rede.

– É o quê?

– Simples. Você veio fazer uma auditoria, certo?

– Isso.

– Porra niúma. Veio entregar um relatório pronto.

– Mas como…

– Repare. Num carece tanta pergunta. Só escute.

Tirou um papel do bolso e me mostrou. Estava escrito o valor que o doutor me prometeu. Nem um zero errado. Ele riu e me deu outro papel, com mais um número. Disse que era o que me pagariam pra fazer o que eles queriam e esquecer meu contrato com Dr. Everaldo. Era muito dinheiro.

– Véi do céu… tudo isso? – falei sem pensar.

– Se trabalhar certo e fizer o que vou lhe mandar.

– Explique aí.

– É só entregar um outro relatório.

– Como é isso?

– Primeiro, faça o arrodeio todo que combinou com seu chefe.

– Ah, isso eu já tô sabendo.

– Só não fale muito pra não sair merda.

– E depois?

– Não assine nada nem deixe ninguém gravar conversa.

– Certo.

– No final, volte para o quarto, enrole umas duas horas e mostre o documento combinado.

– O relatório que tá comigo?

– Isso… bom garoto.

– E depois?

– Aí você vaza e entrega na empresa de consultoria um outro relatório, o que eu vou lhe dar.

– Oxe, cê acha que os caras vão cair nessa?

– A empresa já é nossa, se consegue me acompanhar.

– Dr. Everaldo vai querer me matar!

– Não tem colhão pra isso.

– E por que você quer que eu faça esse serviço?

– Perguntador da porra… Um conselho: quem fala menos, vive mais.

– Que papo é esse, mermão?

– Estou lhe pagando. E demais. Não basta?

– Não. Ou explica ou nada feito – achei que tinha que me impor.

Ele deu sua risada mais escrota. Eu não entendi e fiquei com medo, não vou mentir. Abriu o paletó apenas para eu ver o trabuco na cintura e fechou de novo. Quase me caguei ali mesmo. Caminhou até a janela que dava para a rua. Eu segui o cara em silêncio, mesmo sem ele me pedir. Me senti meio idiota porque fiz isso. Parou em frente à cortina, que estava fechada e falou.

– É tudo uma fachada, percebe?

– O quê?

– Tem negócio depois disso.

– Tipo o quê?

– Você me cansa com tanta pergunta.

– Eu preciso saber.

– Quem se der melhor na auditoria, ganha a licitação pra construir mais três hotéis. Entendeu?

– Licita…

– Repare, faça a porra que eu tô mandando e pronto – não gostei do olhar dele quando falou isso.

– Não, melhor não. Como é que vou me explicar com Dr. Everaldo?

– Quem? Tá de brincadeira, né?

– Não, ele me contratou!

– Ele é um mané. Não manda nada aqui em Pedra Velha.

– É um homem poderoso!

– É menos que pulga de cachorro.

– E quem é seu patrão?

– Não se interesse pelo que pode não lhe fazer bem.

– Oxe, tá me ameaçando?

– Lhe dando a real. Vai fazer ou não? – senti impaciência nele.

– Sim, mas cadê o relatório?

– Comigo, nessa pasta.

– Ói, agora tô achando baixo o valor. Seu chefe vai ganhar que só a porra.

– Você também.

– Esse pouquinho?

– Não. Vai continuar vivo. Não é uma maravilha?

– Porra é essa?

– Você é mais idiota do que imaginei.

Enquanto eu tentava disfarçar a tremedeira, ele abriu a cortina e deixou a luz entrar. Olhou para a rua, virou para mim e mostrou a falha do dente.

– Sabe como eu consegui isso? – falou apontando.

– Beijo é que não foi.

– Engraçadinho você. E sem noção. Eu vacilei com uma tarefa.

– Deve ter sido uma broca lascada…

– Não. Arrancaram na tora, sem anestesia… Por isso me chamam Dentinho.

– Que carinhoso – nem sei por que falei essa merda…

Ele não sorriu e eu, que não tava feliz com o rumo da prosa, gelei. Ia argumentar alguma coisa que já nem lembro, quando ele foi mais rápido.

– Faça seu serviço direito.

– Si… sim…

– Chegue aqui na janela.

Fui com medo, mas nem pensei duas vezes e obedeci. Lá embaixo vi dois homens. Mesmo de longe pareciam muito grandes. Eles olhavam para a janela onde eu estava. Não me pareceram simpáticos. Era como se me esperassem. Dentinho então me disse:

– Cinco minutos depois que eu saísse da janela, você tinha que aparecer.

– Ou então?

– Eles iam subir.

– Por minha causa? – me senti idiota com essa pergunta.

– Olha como tá ficando sabido…

– Mas eu vou fazer o que pediu, vou fazer! Eu juro!

– Eu sei que vai. Só por causa disso eu posso cancelar o outro serviço.

– Qual?

– O deles.

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