O visitante (2)

Se Nietzsche matou Deus, o Sr. X matou o Cérebro. Qualquer pedaço do corpo é passível de desenvolver uma certa humanidade, portanto de reter a consciência do organismo, de negar a tirania do Cérebro. O que a história contada pelo nosso visitante provou é que o corpo não é o limite; o corpo é na verdade o não-limite. Faço essas anotações e sinto um calafrio percorrendo a espinha, colegas, o calafrio que talvez Darwin tenha sentido quando desembarcou na Ilha de Galápagos. No lugar dos leões marinhos e das tartarugas, vejo uma perna que sobreviveu à seleção natural. Não nego que as próximas gerações do Departamento de Estudos Avançados em Transcendência talvez tenham que desvendar o como, pois falta um pedaço – com o perdão do trocadilho – da história, morta junto com o Sr. X. A Ciência é milagrosa, mas uma perna ainda não fala.

Depois de me certificar do óbito do Sr. X, esperei que a perna cansasse de se debater junto à porta do Laboratório e me apoiei com os dois joelhos sobre ela, consumindo suas últimas energias para aplicar o analgésico. Com algum atraso, afinal, o desejo do Sr. X foi atendido, e a sua perna dormiu. Agora, sem o Sr. X. para dar pitacos, eu podia tomar decisões pragmáticas. Para observarmos um fenômeno em sua magnitude, é preciso isolá-lo. Uma vez que o hospedeiro não fazia parte do mesmo objeto a ser observado, o pensamento de separá-los tornou-se natural. Conforme dito ao Sr. X seguidas vezes enquanto ainda respirava, não estamos num hospital, de modo que não dispomos de instrumentos adequados para certos procedimentos. Além disso, eu não sou médico. Mas, é claro, analisando a mecânica da coisa, não parece impossível proceder a uma operação dessas, embora eu não tenha a perícia necessária. Assisti a alguns filmes, como todo mundo…

Agora que a perna dormia, era factível deixar o Laboratório e ir à cozinha. Foi o que fiz, e ali estava a xícara de café ainda apoiada no parapeito. A visão me lembrou de quanto tempo tinha passado confinado no Laboratório, vigiando o Sr. X. e sua perna. Já estávamos no início da madrugada e eu não tinha comido nada. Abri a geladeira, vazia, à exceção de um cilindro generoso de presunto esquecido atrás das jarras de água. Colegas, culpo o cansaço da jornada por não ter me atentado à macabra coincidência que aquele presunto encerrava, até começar a cortá-lo em rodelas para um sanduíche. Não cheguei a montá-lo, porque nosso estômago é muito mais inteligente que nossa cabeça: à vista das rodelas rosadas, ele logo embrulhou.

Desisti de comer, mas nunca desistiria da missão a que me obriguei. E para honrar a Ciência eu teria que ir além da gaveta de talheres. No armário debaixo da pia, a última porta à esquerda guardava utensílios de primeira necessidade num lugar como este. Havia querosene, lanterna, baterias e pilhas, vara de pescar retrátil, rede de pescar inteligente, cordas, rádio comunicador, sinalizadores, faca de caçador. E um cutelo. Colegas, em alguns momentos, fazer avançar a Ciência é voltar ao primitivo.

Como não conseguia comer, preparei um novo café para me dar energia, pensando também em dispersar o cheiro inerente ao procedimento no Sr. X. Voltei para o Laboratório, uma xícara na mão e na outra o cutelo. O Sr. X e sua perna permaneciam no chão, me esperando. Arrastei o corpo de volta para a maca, de olho na perna, me certificando de que ela não acordaria. Permanecia imóvel, dormente, a ex-gêmea da direita, cuja temperatura morna contrastava com a perna morta, refletindo a vida que corria no sangue febril embaixo da pele. Me ocorreu que precisaria usar o que tivesse no Laboratório, sem decoros, pois toda pesquisa séria, nos bastidores, precisa quebrar uma ou duas pernas, como dizem. Empurrei um dos armários de rodinha até que ficasse contíguo à maca, e fui abrindo a perna do Sr. X. até acomodá-la sobre o móvel. Cobri todo o resto do seu corpo com o cobertor de pele de chacal, prendendo bem atrás de sua cabeça, de modo a tampar bem seus olhos, sabendo que procedia num gesto irracional, ou pior, num gesto místico. Ainda pus sob a perna duas toalhas de banho, prevendo a bagunça.

Tentei não pensar muito. Ergui o cutelo e desferi o primeiro golpe com a força que então julgava necessária para desferir poucos mais, o que rapidamente se provou um erro de cálculo. A lâmina do cutelo não entrou nem um centímetro na carne do Sr. X. Acertei o segundo, o terceiro, o quarto golpe, e o primeiro esguicho de sangue veio direto no meu peito, encharcando o jaleco. Daquele início da coxa já desciam os filetes de sangue, empapando as toalhas. E como se rebentassem todas as artérias, o próximo golpe inundou o piso de um sangue escuro e grosso, como uma geleia. Continuei a golpeá-la, ignorando a dor no ombro que subia até o pescoço. Era como me debater no mar, a água sendo este líquido rançoso que espirrava na minha cara.

A dor se estendia por todo o lado direito do corpo e meus pés patinavam no piso inundado. As toalhas, rubras e enrugadas. Eu tinha chegado, aparentemente, no fêmur do Sr. X., e de lá não tinha forças para passar. Os meses de reclusão e imobilidade cobravam seu preço. Eu teria que recorrer a outros métodos, ainda mais rústicos e blasfemos, se considerarmos a histórica retidão do Departamento de Estudos Avançados em Transcendência. O único instrumento com o peso e a anatomia capazes de executar o que se desenhava na minha cabeça era a Placa de Similaridade. E aqui aproveito para pedir desculpas aos nossos financiadores externos, que adquiriram tal equipamento depois de insistentes solicitações do Instituto.

Lavei bem as mãos e troquei toda a roupa, agora que o corpo do Sr. X. parecia vazio. Olhava para a Placa de Similaridade guardada na caixa de vidro, absoluta, justificando o funcionamento de todo o Laboratório. Sem ela – vocês sabem, decanos colegas, que por tanto tempo não dispuseram de instrumento tão essencial a nossas pesquisas – sem ela, os primeiros hospedeiros não-vivos nunca poderiam ter recebido pedaços de consciência humana, ainda que tenham se esvaído minutos depois, como é de conhecimento geral, especialmente dos nossos críticos…

Agora, no entanto, sua serventia seria o seu próprio peso, na intenção nobre de romper um osso.

Deixei as cerimônias e carreguei aquilo debaixo do braço como uma pasta de trabalho, como eu não fazia desde o estágio no Instituto, quando nada disso parecia possível. A diferença era que a Placa de Similaridade era maior e mais pesada que uma pasta, e que era na verdade mais como um grande azulejo, uma chapa preta como aquelas peças de granito que tampam os túmulos.

O Sr. X. continuava deitado ali; uma versão albina do Sr. X. Arrastei com cuidado o armário que sustentava a perna, deixando um vão debaixo dela. Posicionei a Placa de Similaridade na altura da coxa, sem me atentar que calculava no olho, naquele simples movimento, a fronteira da consciência morta do Sr. X. para a consciência sobre-humana da perna. Pus o primeiro joelho em cima da placa, tentando me equilibrar feito um ginasta entre a maca e o armário, em cada superfície uma das mãos, uma cena que não fazia jus a sua importância. Estabilizado com um dos joelhos, fui liberando as mãos ao mesmo tempo em que punha o outro joelho em cima da placa, e eu sabia que assim que o posicionasse e forçasse o corpo na direção do viaduto que era a perna do Sr.X., o estalo da fratura não tardaria, como não tardou, e caí pelo vão com os joelhos no piso do Laboratório entre estilhaços de osso e um resto de sangue ainda não vertido. Uma corda de pele e carne segurava a perna pendurada na maca, e o corpo do Sr. X. estava a poucos centímetros de cair pelo outro lado. Pensei em acomodá-los – a perna e o Sr. X. -, mantendo um certo decoro, mas àquela altura o Laboratório já era um açougue e eu, colegas, o carniceiro. Ergui o cutelo e dei o último golpe na pele morta do Sr. X., que caiu no piso com um estrondo cavernoso que só os cadáveres produzem, ao contrário da perna, viva mas dormente, tombada no chão sem alarde.

Como dito no início da segunda parte deste relatório, é preciso isolar um fenômeno quando se quer estudá-lo sem vícios ou interrupções. A visão da Placa de Similaridade afogada no sangue rançoso, caída como um escombro de um ataque aéreo, embora triste, me lembrou de que havia um recipiente perfeito para enclausurar a perna. Peguei novas toalhas no armário e envolvi a perna, apertando-a levemente para absorver o sangue. O Sr. X. olhava para nós, como se pedisse que o levantasse do chão, que desse algum destino para a sua morte. Mas o tempo já não fazia diferença para ele, e procedi à caixa de vidro para depositar a perna. Tranquei-a e cobri a caixa com os cobertores de pele de chacal, como se faz com os pássaros de estimação quando não queremos que cantem.

Desnecessário ressaltar o estado do Laboratório. Mas eu não tinha mais energia para estender o turno de trabalho, e a limpeza ficaria para o dia seguinte. Aliás, não sei que tipo de limpeza seria capaz de dar um jeito naquilo. Talvez o próprio Laboratório tivesse que ser isolado. Mas eu não conseguia pensar. Amanhecia. O Sr. X. também teria que esperar para ser devolvido à maca, ou para ser recolhido por alguém. Haveria necessidade de fazer ligações, de enviar mensagens, de elaborar justificativas. Seria arriscado, na verdade, receber qualquer visita, ainda que protegido pelo sigilo vitalício do Instituto. Eu teria que lidar com toda a situação sozinho. Para isso, colegas, eu precisava dormir. E foi o que fiz, tão logo subi para a cabana, sem tomar banho, sem sequer tirar o jaleco. Simplesmente me deitei no tapete da sala e fechei os olhos.

Acordei na mesma posição, poucas horas depois. Não me levantei; fiquei olhando pela moldura da janela aquela paisagem imutável, como se ela pudesse parar o tempo, e eu pudesse ficar ali, para sempre. Tratava-se da melancolia do cansaço, colegas. Em certos momentos da pesquisa, quando já a vemos distante de nós, caminhando com as próprias pernas, tendemos à inércia. Toda aquela operação bem-sucedida no Sr. X. tinha me esgotado. No entanto, apesar de dar por terminado aquele estágio da pesquisa, iniciava-se o seguinte, que consistia em acordar a perna e submetê-la ao Escaneamento. Era a única forma de saber se o Sr. X. ainda vivia nela, ou se nela havia se desenvolvido outra forma de consciência.

Descia para o Laboratório, colegas, quando me dei conta de um erro fatal. No bolso do jaleco, restava uma ampola cheia de analgésico, a dose que eu devia ter aplicado na perna antes de subir para a cabana. Sem o cutelo, esquecido lá embaixo, recorri à gaveta de talheres e peguei uma faca. Em vez de correr para lá, fui devagar, mais devagar que nunca. Porque já era tarde, porque eu já previa alguma cena terrível, porque eu tinha que reunir energias para lutar com a perna que já devia estar livre, andando pelo Laboratório. Nada, porém, me preparava para testemunhar, colegas, a cena que meus olhos viram quando abri a porta. No centro do Laboratório, junto ao corpo do Sr. X., espalhavam-se os pedaços da caixa de vidro. Dali se espraiava um rastro de sangue novo, ainda não coagulado, para o canto do Laboratório, onde ela se recolhia, emitindo alguns espasmos como alguém que tenta respirar. Debaixo do seu pé estava o cutelo, mas ela não parecia ter forças para usá-lo. O que estava inscrito na sua pele, no entanto, foi o que me fez abafar um grito de horror: o número de série do Sr. X, gravado no dorso do pé com os cacos de vidro.

Deixe um comentário