Soneca de urso

Depois de almoçar, preciso fechar os olhos e dormir. Não é um hábito exótico. Há toda uma cultura da sesta em países hispânicos e estudos comprovam os benefícios de uma boa soneca para o organismo humano. Mas tenho que dormir ou passarei a tarde inteira zumbizando. Acho triste os neoliberais brasileiros não perceberem o quão improdutivo um trabalhador fica sem se desligar durante a digestão. Com certeza, se nosso empresariado aceitasse essa prática como algo natural, nenhuma reunião seria marcada para às catorze horas e eu não estaria exercitando os músculos das pálpebras, em isometria, enquanto meu chefe fala.

Você não concorda, Alex?

Pois é, Arthur, acho bastante… plausível.

Não faço a menor ideia do que ele está falando. Tem a ver com uma enquete engraçadinha para incluir nos vídeos que distraem os passageiros de voos nacionais. A companhia aérea representa o maior lucro da agência de conteúdo onde trabalho e todos ali levam a sério demais qualquer pedido idiota do cliente. Essas pessoas compenetradas em volta do mesão parecem decidir o futuro da humanidade. Da minha parte, sei que não será pela qualidade do entretenimento de bordo que um avião vai cair e mantenho meu cérebro no piloto automático, tentando adivinhar a idade do Arthur baseado no seu gosto por gravatas borboleta coloridas e suspensórios de tiras cruzadas.

Admito que “plausível” soou meio estranho na minha boca. E daí? Deu certo. Meu chefe já se virou para a Carol, a editora de motion, usando minha resposta ao atestar sua opinião, seja qual for. Só escrevo os roteiros. Ela cuida de animá-los e me olha de lado. A verruga no buço chega a tremelicar. Eu sei, Carol, vai ser mais trabalho à toa, eles vão mudar de ideia mil vezes. Para mim, fazemos igual a esses vídeos que se repetem à exaustão no metrô ou em elevadores de prédios comerciais. Mas paga os boletos em um período de empregos escassos na área de Comunicação.

Empresa moderninha, instalada dentro de um grande galpão reformado, em um bairro industrial da Zona Oeste de São Paulo. Quase não tem paredes, muitas salas envidraçadas, todos vigiam todos em tempo integral. Não dá nem para tirar uma pestana na frente do computador sem ser incomodado. Nem aqui no canto do mesão, usando um colega obeso que não sei o nome como barreira, para ninguém perceber que estou segurando a cabeça.

Salto da cadeira de repente. Acho que babei. Bateu aquela sensação de queda morfética, que faz a alma sair do corpo e voltar em décimos de segundo. Disfarça, mexe no caderninho de anotações cheio de desenhos abstratos à caneta, olha como se realmente tivesse algo de importante nele. Escreva, escreva qualquer coisa. Finge que não interrompeu a fala de alguém com seu espasmo do demônio.

Tudo bem, Alex?

Sim, claro. Foi só uma ideia que me passou pela cabeça. Se ficar legal, depois a gente conversa.

Há dois meses, eu estava trabalhando em casa, como freelancer, fazendo meu horário, sem me preocupar com o que devo vestir, se faço ou não a barba, se alguém vai me ouvir soltando um barrão no banheiro. Dava vontade, eu ia e pronto. Não precisava conferir se o box de deficientes, maior e mais privativo, estava desocupado. E também podia tirar meu cochilo quando bem entendesse, na sala mesmo. Meu corpo se condicionou a isso. Almoço, sofá. Uns vinte, trinta minutinhos. Despertava outra pessoa. Mas começou a faltar trabalho, as contas chegando, perdi servicinhos fixos. Quando me ofereceram carteira assinada para fazer textos curtos para o vídeo, aceitei na hora. Era seguro. Devia ter perguntado se, entre os benefícios, estava o sono sagrado após a refeição.

Um bocejo escapa sem controle, longo, interminável, quase um uivo, estalando a mandíbula e tudo. Sem querer, interrompi o Rodolfo. Não é minha culpa, todos que me olham e seguram o riso queriam fazer a mesma coisa. O baixinho tem a mania de comentar cada sinopse de filme, série e música que ele pretende incluir nas duas páginas da programação disponível nos aviões. Como se alguém lesse o final da revista de bordo atrás de suas dicas. Foi mais forte do que eu. As desculpas saem como um arroto. Pelo menos a minha performance coloca um fim naquela reunião de pauta fora de hora.

Tem um tempinho agora? Quero revisar as telas do Top Ten.

Eu ia sair da sala e descansar os olhos por dez minutos sentado na tampa da privada, mesmo que seja hora do rush no banheiro masculino. Jogar água no rosto, só para me livrar desse estado de transe. Mas, claro, Carol, vamos ver essa tal lista de dez hotéis históricos mundo afora. Duas linhas estreitas, menos caracteres que um tweet, todo o espaço disponível para justificar cada um dos itens que selecionei em uma rápida pesquisa no Google. Preciso conferir as informações, revisar texto, ver se a transição de uma tela para a outra funciona, assistir à editora clicar dezenas de vezes com o mouse para alterar um milionésimo de segundo da animação.

Estamos espremidos em um dos cubículos do porão da empresa, onde os editores de vídeo operam, um espaço pouco maior que uma cabine telefônica londrina. Nem consigo ler nada, a preguiça me desalfabetiza. Enxergo tudo em cirílico. Então, pesco com a cabeça duas vezes, quase acertando a testa no teclado. Em seguida, puxo minha garoupa com tudo, levantando da cadeira como se o planeta estivesse chacoalhando.

Tudo ótimo, Carol. Vamos em frente.

Nem ouço a resposta. Ao deixar aquele armário, me deparo com outras saletas de edição. Algumas ocupadas, outras duas vazias. Espio uma delas, olho em volta, entro e fecho a porta. No escurinho. Perfeito. Tomo a cadeira e apoio a cabeça no travesseiro dos meus braços, sobre a mesa. Dez minutos, talvez vinte. Não mais que isso. Estarei melhor ao despertar. Sempre fui assim. Gastei metade da minha adolescente dormindo, incluindo o ronco ideal, depois do almoço e do Globo Esporte. Voltava a mim, feliz da vida, na Sessão da Tarde, dependendo do filme, até mais.

A portinhola se abre. É o gordo sem nome, que se assusta ao me ver e gagueja algo incompreensível, talvez desculpas, possivelmente ofensas. Já estou de pé e o deixo gemendo sozinho, no vácuo. Vou fumar. Não fumo, mas vou lá fora fumar. Tem um banco e tudo no pátio de entrada, onde os tragadores passam horas de papo sem precisar explicar a inércia. Mesmo hoje, o tabaco é mais aceitável que o repouso no mundo corporativo. Vou lá respirar fumaça nos meus sonhos.

Alex, depois me conta aquela ideia.

Arthur fuma? Sei não, deve estar enrolando no fumódromo também. Mando um joinha e sigo andando até a portaria, passo a catraca e viro à direita sem rumo. A vizinhança não tem muito movimento. Do lado de fora dos muros das agências que se isolam em antigas linhas de produção, prevalecem as ruas de paralelepípedo ondulado e o mato rebelde crescendo nos vãos do calçamento. Sigo em busca de uma cama. Na esquina, encontro um oásis, em um pequeno terreno baldio. Bem onde o sol arde mais forte, entre pichações, restos de troncos com raízes expostas e algum lixo espalhado, sete, oito operários de uma das fábricas das redondezas estão deitado na passagem, sem parcimônia, dando-se o direito de descansar um pouco antes de voltar à ativa.

Quando percebo, já me deitei de barriga para cima. Aqueles homens de uniforme cinza e capacetes brancos me ignoram por completo. Destacado por conta da calça jeans e a camisa de flanela, também não pedi licença. Vai ser por uns instantes. Dá para ver algumas nuvens no céu. O som de pássaros se sobrepõe ao dos carros e caminhões que passam de vez em quando. Fecho os olhos e esqueço de mim. Faz calor, mas venta gostoso. Posso estar roncando. Com certeza, sonho. Acho que me vejo na Espanha. Morei em Salamanca e estranhava como a cidade desaparecia das ruas à tarde. Tudo fechado, só eu circulando por aí. Na Europa, gramados públicos não são desperdiçados. Qualquer pessoa se joga neles, seja para um piquenique ou só para ler um livro. E dorme-se sem ser julgado.

Amigo, ô, amigo. Tá tudo bem?

Abro os olhos e o dia escureceu. Dois policiais estão ao meu redor. As luzes sobre a viatura deles giram, ainda que não façam barulho.

Bateu a cabeça?

Que… que horas são?

Quase meia-noite. Os mendigos ali no viaduto pararam a gente pra avisar de um corpo estendido na calçada. Tá ferido?

Eu… acho que foi o sol.

Checo os bolsos. Carteira, celular, tudo aqui. Passo a mão na cabeça, no corpo, mesmo entendendo que não estou machucado. Meu estômago ronca. Preciso de um espelho para entender se ainda sou eu aqui. O policial pede meus documentos, sugere me levar a um hospital. Eu queria perguntar que dia é hoje. Só para me assegurar de que não perdi uma temporada inteira de hibernação.

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