Completa

por Américo Paim

Aquele primeiro encontro talvez pudesse ser descrito como um “meet-cute”.

Ele no parque com Monk, um boxer jovem e bonito. Estava tranquilo, quando um choque elétrico veloz lhe varreu a espinha. Os cabelos curtos arrepiaram, a pele clara e bem cuidada pareceu descorar, os belos dentes rangeram, a pupila cresceu, quase tomou toda a íris marrom e o sangue gelou: esqueceu o saco para catar as caquinhas. Como? Ele, planejamento e organização encarnados em uma pessoa? Se torturou o quanto pôde com o erro. Depois foi atrás de uma solução, porém, mesmo tão aflito, foi impossível não notar aquela presença magnética a poucos metros, sentada em um banco pintado de azul.

Ela, loira com óculos de sol em forma de fresta de caixa de correios e um batom vermelho definitivo. Pulseiras e anéis com cores e desenhos não triviais, blusa amarela quase um top, short descolado com rasgos aleatórios e um tênis meio sujo, que talvez fosse branco. Ela era atlética. Um observador menos atento não perceberia a tatuagem “memories”, em vermelho, em torno de um sinal peludo, escuro e grande, no braço direito. Ele paralisado. Ela tirou os óculos e lhe chamou, apenas com o dedo indicador.

– Tá agoniado, bonito?

– Hum… ah, nada demais…

– Esqueceu o quê?

– Você é observadora.

– Sim, se me interessa.

– E bem direta, eita…

– Tenho aqui o que você precisa.

Tirou do bolso de trás do short um saquinho plástico, desses de mercado. Os olhos dele brilharam. Problema resolvido. Agradeceu muito. Sem pedir licença, ela fez um carinho firme na cabeça de Monk, que gostou muito. Ele nem pôde avisar que às vezes o cachorro estranhava. Ela se moveu no banco, dando espaço.

– Não seja tímido.

– É… veja… como é que você tinha um saquinho? Tem cachorro?

– Não. Gosto de pegar isso na rua.

– Ah, você protege o meio ambiente!

– Não é bem isso.

– E faz o que com eles?

– Guardo. Depois sempre tem uso.

Ele achou estranho, mas não falou nada. Afinal, ela o salvou. O namoro não demorou. A atração foi mais eficiente que as muitas diferenças. Começo de romance ignora quase tudo, como se sabe.

Foi marcante a primeira e única noite na casa dele, que era pequena e toda arrumada. Um nível insuportável de limpeza e tudo combinando: coisas, espaços, móveis, talheres, enfeites. Ela pediu pelo lavabo. Quando retornou, ele mentiu que precisava ir lá também. Foi checar como ela deixou tudo após usar. Uma decepção. A pia molhada, a tampa do cesto de lixo deslocada, o sabonete fora do lugar, a toalha em desalinho e a luz acesa. Ele corrigiu tudo. De volta à sala, ela estava deitada no chão e lhe disse rápido que sempre fazia isso.

– É friozinho.

– Mas se tiver resto de sujeira?

– Eu poderia comer nesse chão…

– Que exagero.

– É tudo muito limpo.

– Obrigado. Gosto das coisas certinhas.

– Jura? Então daqui a pouco nem tem bebida em casa…

Trouxe a cerveja que ela queria em uma tulipa pequena, já refrigerada. Orgulhoso, falou que estava conservada a dois graus negativos, temperatura ideal para uma pilsen em dias quentes como aquele. Ela ignorou todo aquele esmero e bebeu a long neck de uma talagada só. Pediu outra, que ele serviu com o mesmo ritual, esperançoso sobre a cena inicial ter sido uma exceção. Ela repetiu e arrotou alto.

– Não se assuste. É que eu gostei.

– Eu não ia…

– Ah, eu sei que você deve sofrer com essas coisas.

– É que eu…

– Seu cabelo é tão bonito. Chega a dar pena.

– É o quê?

– Tem alguma comida?

Ele trouxe os aperitivos que preparou em prato decorado. Tudo bonito e cheiroso. Ela comeu pouco. Ele perguntou se não queria mais, já que estava bebendo. Ela disse não exagerar antes do sexo. Ele nem digeriu a franqueza e já estavam na cama. A primeira foi convencional. Se incomodou um pouco por ela falar coisas desconexas, como um idioma desconhecido. Também achou excessivo o tempo que ela gastava puxando e olhando seus cabelos. Como foi tudo ótimo, ficou em silêncio. A segunda ia bem. Ela o arranhou como se daquilo dependesse sua vida. Ele sangrou, ficou todo cheio de marcas. Ela uivou muito alto. Monk latia de volta atrás da porta fechada do quarto. Preocupado com a vizinhança por causa de todo aquele barulho, ele brochou. Ficou constrangido. Ela disse que já havia acontecido outras vezes, que ele não se preocupasse. Disse que gostava de animais predadores e lhe contou umas experiências em acampamentos. Ele não deu atenção. Ficou se lembrando que também falhou com uma colega de trabalho no apartamento dela. Ele não conseguia relaxar, na dúvida se havia programado o pagamento do cartão de crédito.

Ele acordou no meio da madrugada e ela não estava na cama. Foi procurar. Na sala, as roupas dela e um cheiro forte de cigarro. Também não estava no jardim. Dividido entre arrumar as roupas dela largadas pela sala e aromatizar os ambientes – como não percebeu que ela fumava? – foi à rua. Andou por cinco minutos até o fim do quarteirão e chegou à pequena praça. Lá estava ela. Ele se assustou com a visão: deitada na grama, só de biquíni. Ela comia pétalas, que tirava de dentro de um saco de feltro.

– Que é que cê tá fazendo aqui?

– Relaxando, ué.

– São três da madrugada!

– Melhor hora. Quer umas flores?

– Prefiro não.

– São ótimas, mas só nesse horário.

– Vamos voltar, por favor.

– Ah, essa hora não transo mais, meu bem.

– Não é pra isso. É que cê pode pegar um resfriado.

– Nunca tive por causa disso.

Ficaram ali até ela se cansar. Voltaram para a casa e ela foi embora. Ele nunca mais a convidou, com medo do que ela pudesse aprontar.

O romance continuou. Ela era o melhor sexo que ele já tinha vivido. Experimentou rituais esquisitos com brinquedinhos e truques que nunca fez ideia de que existissem. Os encontros passaram a ser no apartamento dela. A relação ficou cada vez mais íntima e ela se mostrou inteira. Em uma manhã ele tomou mais um susto. Ela o chamou para tomarem sol no terraço do prédio. Ele se atrasou arrumando a cozinha dela e quando chegou ao local a encontrou nua, de barriga para cima, deitada sobre uma toalha, aproveitando o calor generoso. Correu a cobri-la, o que ela rechaçou veemente. Lhe disse que só se bronzeava se pudesse ser nas partes íntimas também. Sempre fez assim. Foi o momento da virada. Ele percebeu que as coisas ficariam piores, o que não era errado supor. Ele sabia que estavam por um fio de cabelo.

Aí veio aquele dia. Ela no banho e ele na sala, cada vez mais certo de ser dispensado a qualquer momento. No sofá, olhou para a estante e reparou que o quadro em que aparecia um urso polar, que ficava bem no alto, estava meio torto. Como ele tinha toque, resolveu endireitar a peça e restabelecer a harmonia visual do local. Subiu em uma cadeira, alcançou a posição ideal e se viu diante dos seis potinhos no topo do móvel, encaixados em buracos redondos, em alinhamento perfeito. Sempre lhe intrigaram, mas nunca teve coragem de perguntar. Ele pegou um em suas mãos para examinar melhor.

Era de vidro transparente, fechado com uma rolha. Cada pote tinha uma letra maiúscula recortada de alguma revista velha e colada na tampa: B, S, V, P, A e G. Ficou curioso. Era um código? Um nome? Um lugar? Observou que dentro de cada um havia chumaços de cabelo. Nenhum igual ao outro: duro, liso, encaracolado, preto, cinza, loiro, castanho, branco. E havia um último buraco, vazio, na tábua estreita. Achou aquilo tudo tão interessante que até esqueceu de ajeitar o urso. Ainda olhava os potes, feliz com a padronização, quando ela falou.

– Percebeu?

– Hein? Desculpe… eu só…

– As cores.

– Não.

– Faltava uma.

No reflexo, ele segurou seus próprios cabelos, vermelhos. Ao mesmo tempo olhou as mãos dela. Não gostou do que portavam. Também não deve ter gostado daquela sua memória derradeira. Talvez, no fim, tenha sorrido involuntário. Afinal, a tábua ficou completa.

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