Sogra de herança

Foi um casamento com cara de enterro. Agora esse povo sem-vergonha celebra um enterro como se fosse um casamento, sem conter os sorrisos amarelados. Salão lotado. Todos me observam de longe, tentam ler meus pensamentos, me julgam. Até parece que não são cúmplices. Eu nunca deveria ter concordado com aquela sordidez. Quanto vale o sacrifício de conviver tantos anos com uma pessoa tão baixa? Míseros vinte mil reais por mês?

Foi ideia da Marília, aquela juíza metida. Olha lá na entrada, a rainha do funcionalismo público, cercada por seu séquito de puxa-sacos. Se acha a grande defensora da moral e dos bons costumes no tribunal, mas enfiou na cabeça da Laura essa ideia do casamento de fachada. Precisa tomar cuidado, disse, quando você partir, sem filho ou marido, sua aposentadoria volta pra mão do Governo e aí sabe-se lá onde o dinheiro vai acabar nesse paiseco corrupto.

E como matraqueiam, as pilantras. Queria saber quais mentiras já espalharam sobre mim, mas não escuto muito bem daqui. Nesse cenário fúnebre, vivendo o teatrinho do luto, permaneço no papel que me foi dado, para que todos se sintam leves, sem culpa. Isso nem lembra um velório, há uma alegria no ar. Daqui a pouco, servem canapés, colocam uma música e começam a dançar, engatados uns nas cinturas dos outros, fazendo trenzinho em volta do caixão.

Já posso ir embora? Maldita hora em que a Marília me envolveu nessa sujeirada. Posso até imaginá-la no ouvido da ingênua da Laura: casa com teu amigo Rogerinho, que tal?, ele é viado mesmo, já frequenta sua casa pra contar dos bofes dele, quando você se for, Deus me perdoe, sua mãe vai estar protegida, pensa na Dona Nena.

Ih, lá vem a Maria Amélia e suas seguidoras de fumódromo, a Xuxa enrugada, de loiro tingido, ao lado das duas paquitas cabeça de bituca. Só esse trio fumacento deve ser responsável por setenta por cento do pulmão necrosado da Laura. É se aproximarem ao prestar condolências e o fedor de Malboro vermelho já domina o ambiente. Chegam tão perto que consigo identificar quais os dentes verdadeiros e quais os rejuntes.

Pobre Laurinha, uma morta-viva nos últimos vinte anos. Fazia uma força danada para puxar o ar. A cada degrau de escada vencido precisava de cinco minutos de descanso. Para onde fosse, levava o carrinho com um tubo de oxigênio, igual cachorro na coleira. Antes que os médicos declarassem cuidados paliativos, as colegas do tribunal a pressionaram a aceitar o casamento arranjado. No fundo, o que elas queriam era não se responsabilizar por uma senhorinha de oitenta anos. Casando no papel, o genro herdaria a pensão e a sogra.

Não que faltassem parentes. Só de sobrinho-neto da Laura são quatro rapazes inúteis. Olha os barrigudos lá fora, tentando ouvir um jogo do Palmeiras com fones de ouvido. Acham que não percebo? Os pais deles, os que ainda estão vivos, têm mais problemas de saúde ainda, uma tragédia só. E tem a sobrinha-neta, caçula da família, que sempre foi mais carinhosa. Mas essa nem saiu do colégio e já ficou prenha desse namoradinho tatuado e cheio de piercings na cara. Ao menos, aparenta estar comovida de verdade. Suas lágrimas, porém, não enchem o copo de uma velha acostumada a virar uma dose de uísque após o jantar.

Fiquei nas mãos desse dentista gay. Desde os vinte e poucos anos, é amigo de Laura e frequenta a nossa casa. Meu finado marido e eu nunca fomos muito favoráveis a essa amizade. Safadeza de homem com homem ainda não entra na minha cabeça. Mas como precisei dar um trato nos dentes e o Rogério me fez um belo desconto, acabei aceitando. Tão folgado, me chama de tia Nena até hoje. Sempre que trazia alguma história de paquera para dividir com a minha filha, eu saía de perto. Ela, solitária e fisicamente vulnerável, apoiou-se no ombro dele por tempo demais. Fui deixando, deixando… até Marília vir com o papo de casar os dois para garantirem o meu futuro.

Só não fui contra porque achei que partiria antes de Laura. Até compareci ao cartório, montada no meu melhor vestido de noite, e testemunhei o selinho que os dissimulados encenaram no final da cerimônia. Pela lei, no caso de morte do servidor público, o cônjuge passa a receber a pensão se tiver mais de 44 anos. Rogério já era cinquentão quando minha filha nos deixou após três anos de união, cada um morando em um apartamento no mesmo prédio.

Acho que ele tinha esperança de não ter de me aguentar por muito tempo. Contratou uma cuidadora para ficar de olho em mim e me trazia de quando em quando as compras do mercado, uns novelos de lã e uma garrafa de uísque. Só que eu tenho noção do preço que minha filha pagou para ir embora em paz. Para deixar essa negociata mais justa, fiz com que se tornasse meu empregado. Um dia, queria comprar blusinhas no shopping. Em outro, encontrava as amigas para um chá. E ele me levava, sem reclamar. Até aproveitei melhor a agenda cultural da cidade. Ia ao cinema, ao teatro, a exposições. Rogério sempre disponível. Em cada consulta médica, um exame atrás do outro, lá ia ele junto. Quem diria que eu chegaria aos 98? 

Todos os presentes nesse velório sabem do acordo. Possível que o Governo tenha ciência da tramoia, pois nunca houve impedimento algum para sacar a aposentadoria de Laura. Até o tal do Romeu, o namorado novinho dele, está a par. E ninguém se importa. Afinal, só estamos usando uma brecha da lei para garantir um dinheiro que, por direito, é nosso. O povão já se abastece de dezenas de programas sociais, cotas disso e aquilo, mamam dos nossos impostos bem pagos. Se o Governo roubasse menos, não teria tanto esfomeado debaixo da sua asa.

Marília se aproxima do viúvo ao lado do caixão da sogra e comenta que a pensão agora seria só dele. Não se eu quiser me acertar com o Romeu, Rogério devolve. Deixa de besteira, ela insiste, você merece um bônus por engolir as ranhetices da velha por dezoito anos. Alguém fecha a tampa e ouço apenas o estalar dos meus próprios pensamentos.

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