De twitter em twitter

(Angélica)

Nina, nunca mais esse homem vai querer saber de você, agora você faz parte da enfermaria. O que eu posso fazer se o código de barras dele ainda está na frente do meu sensor? Tudo que tem cola não desgruda tão fácil. Ele pode não querer, mas eu quero. Mais uma vez abro o Twitter e vou para a página do Sebas, sempre tomando muito cuidado para não tocar em nada. Pronto, Nina, aí está. Era isso que você queria ver? O Sebas e a esposa? Ele continua casado. Puta que o pariu, que cara de sonsa ela tem! Agora é descer do telhado e me afogar numa xícara de café. Se as outras redes sociais são insuportáveis, essa consegue ser pior.

Não aguento nem cinco minutos e entro no Twitter de novo. Com o baque, esqueci de olhar as curtidas. Como o Sebas posta pouco (e quando posta quase me mata), é por lá que tento descobrir alguma coisa, já sei, por exemplo, que ele ama comer rabada. Desde a última espiada ele curtiu a foto de um elefante soltando o trapézio e do outro lado um macaco minúsculo estendendo os braços, em cima está escrito Good Morning. A próxima foto é Are you okay? E o filminho de um bebê berrando e o pai com uma máscara de monstro. Dou um pulo da cadeira. Ele está falando comigo?

Não começa com isso outra vez, Nina, por favor. Se você contar para o Doutor Abelardo que o Sebas está mandando mensagens cifradas, ele vai aumentar sua medicação. É só não falar nada. Preciso achar alguém feliz bem depressa, de tão afobada acabo curtindo uma foto da Mortícia, o sorriso não é lá muito convincente, mas agora já foi. Depois dos dois minutos mais demorados da minha vida, ele retuíta o Gomez Addams com um charuto na mão e os olhos arregalados. Quase caio para trás. Ai!

Bem nesse instante, chega uma mensagem no Whatsapp. Minhas mãos até tremem, não é possível. Um balde de água contaminada com leptospirose cai na minha cabeça quando vejo que é o Sparapanni. Na mesma hora subo no saco de lixo com os restos mortais do meu primo e faço força com o corpo para que ele fique todo amassado. Pelo tamanho da minha raiva, só deu para esmagar o rabo do rato.

– Já estou desocupada, pode falar.

– Trabalhando muito como sempre?

– Resolvendo uns probleminhas.

– Então, nos encontramos mais tarde?

– Onde você está?

– No ateliê, terminando uma tela para a próxima exposição.

– Que ótimo. Qual vai ser o tema dessa vez?

– Vampiros.

– Vampiros?

– Eles perseguem só top models, querem virar celebridade.

Filho de uma puta, eu não escrevi um conto assim?

– A sua cara. No mesmo esquema? Com livro também?

– Mesmíssimo. Gosto quando você se interessa pelo meu trabalho, é difícil pintar um monte de telas em tão pouco tempo, viu?

– Você está fazendo charminho ou é impressão minha?

Sparapanni está digitando, Sparapanni está digitando. Acho que ele vai enviar um textão, mas o que vem é uma frase – Você ainda não me respondeu.

– O jantar?

– Precisamos conversar.

Precisamos, buana? Quem precisa é você, a tonta aqui pode trabalhar de graça, né?

– Algo tão urgente assim?

– Ficamos vários meses afastados…

– Falando nisso, faz tempo que quero me desculpar, não devia ter escrito na sua página do Facebook que você não me pagou.

Não vai se ajoelhar e lamber os meus pés como você fazia antes? Por que fui me lembrar disso de novo? Só de pensar nas lambidas fico com vontade de vomitar em cima do rato.

– Tudo bem, Nina.

Como eu esperava, nem sequer se deu ao trabalho de dizer um foi mau aí. Não consegue abaixar o queixo. Rato tem nariz empinado?

– Naquele restaurante que você falou? Que horas é melhor para você?

– É. Às nove, pode ser?

– Claro, algo me diz que nossa noite vai ser ótima.

– Se vai. Até mais. Beijos

Fecho o Whatsapp rapidinho, chega. Lá pelas dez, não, onze, eu bloqueio esse idiota. Pode ligar mais tarde, não vou atender, querido. Me espera bastante.

Para deixar o ambiente mais leve, jogo o saco de lixo na lixeira do prédio e me despeço do meu primo e do Dispara-pânico com um tchauzinho. Tomara que o Sebas não tenha desaparecido. Antes de voltar para o Twitter, pego uma foto no Instagram que vai me ajudar a entender o que está acontecendo. Uma mulher com o corpo inclinado para frente e a cabeça enfiada na cerca viva do vizinho. Em cinco segundos já estou lá para ver o que ele vai responder. Como eu sou boba! Eu tomando cuidado para não tocar em nada, achando que meu dedo é uma pata de gato. Esse tempo todo o Sebas sabia: ele curtiu a propaganda de um aplicativo que mostra quem visitou o seu perfil. Ahhhh! Que delícia.

Veronica Lake me ajuda com I married a witch. Se eu fui a Mortícia, a esposa dele pode ser muito bem uma bruxa. Para minha total surpresa, ele retuíta uma foto da Marilyn Monroe onde está escrito When she was married to Arthur Miller.

Desmaio agora ou daqui a pouco?

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