Ele pode estar a fim de você ( de Carol Schettini)
No top dez dos locais onde as pessoas contam a vida ou o amor ou as mazelas para os outros está: sala de espera de médico, viagem de avião e academia de ginástica. Lili andava na esteira ao lado de Verinha sua mais que colega e menos que amiga da faculdade. Verinha começa:
— Quem diria, você e Renato?!
— Pois é.
— O casal mais improvável do universo.
— Você acha?
— Onde se conheceram?
Lili não tinha tanta certeza. Foi num show ou numa festa junina ou numa exposição. Ele era amigo de um amigo e quando viu, estavam aos beijos dentro do carro dele, um Ford maverick 2.3 4 cilindros, estacionado bem em frente ao local. No final dos amassos, Renato anotou seu telefone para Lili ligar, como ela ainda não havia lido o livro “ele simplesmente não está a fim de você”, não sabia estar infringindo uma regra de relacionamento; então, ligou, não no dia seguinte, mas três dias depois, levando uma bronca pelo atraso.
— Lembro de você na faculdade — diz Verinha — a mesa mais desorganizada de todas.
— Nem era assim. Só acumulava informações!
— Precisa ver a mesa do Renato no serviço. Ele coloca as canetas lado a lado milimetricamente arrumadas com um espaço igual entre elas. Um centímetro. Meio louco.
Lili imagina ser verdade. Quando perdeu a inibição e fez um evento para ele no motel, foi um desastre. Levou quarenta e três velas para criar um clima no quarto. Pediu que ele esperasse do lado de fora enquanto, numa rapidez flash, acendia as velas e tirava sua roupa, ficando nua, parada, de braços abertos, no quarto iluminado. Quando Renato entrou, não reparou na bela oferenda, apagou aos sopros um monte de velas, pegou a roupa jogada no chão para dobrá-la e colocá-la em cima da mesinha de cabeceira.
— Engraçado, uma vez perguntei se ele te conhecia e ele disse que não! — diz Lili, aumentando a inclinação da esteira em um por cento.
— Típico daquele ser insuportável! — Verinha responde aumentando a velocidade.
No dia em que Renato se exibiu sobre seu trabalho, Lili perguntou se ele conhecia Verinha, uma vez que eram da mesma empresa. Renato fez um discurso, informando que haviam três mil quinhentos e trinta e quatro funcionários no local e ele nunca iria se lembrar de uma pessoa com nome no diminutivo. Onde já se viu?
— Sabia que uma vez ele gritou com uma mulher na garagem por causa de uma vaga? Exigiu que ela tirasse o carro, fez o maior escarcéu. A mulher era doente, não podia pegar sol, ele nem ligou, acho que o homem é feito de cimento. — contou Verinha, perdendo o fôlego.
Lili concorda sacudindo a cabeça. Lili era emotiva. Chorava no cinema ou no batizado ou na notícia triste ou na novela. Renato tratou de avisar: olhe bem pra mim. Sou feito de gelo. E pedra. Ele estava em cima do meio fio, perto de um buraco, quando deu a informação. Lili pensou em empurrá-lo para ver ele se machucar e retirar o mal dito. Não fez e antes das lágrimas escorrerem, deu as costas e foi buscar uma cerveja.
— Você gosta de dançar. — Verinha diz — Ele dança com você?
— Não. Renato só ouve de música clássica. Adora.
— É? Ele gosta de alguma coisa? Novidade pra mim.
Renato gostava de uma coisa. Na verdade, era apaixonado. Pelo Flamengo. Toda quarta ou domingo ou dia de jogo, ele sumia. No início, Lili rogava praga para o Flamengo perder, mas conheceu o Gabigol. Achou ele simpático e decidiu canalizar suas energias para outras coisas. Tipo ir ao pagode enquanto ele ia ao jogo. Renato não gostava de pagode. Dizia ser música brega. Tão brega quanto música baiana ou anos 80 ou rock roll. Lili aproveitava para dançar. Infelizmente, nunca conseguiu uma boa companhia para ir a um baile funk.
— Por que ele não foi com você no casamento do Antonio?
— Ele não gosta muito de festa.
Isso era mentira. Lili queria a companhia de Renato no casamento do seu amigo Antonio. Ela era madrinha e estaria linda em um vestido longo vermelho bordado com paetês furta-cor. Renato não quis. Ir a festas juntos era muita intimidade. A mesma intimidade em dizer que está namorando ou ir a algum lugar de mãos dadas ou postar foto junto na internet.
— Vamos ver, né, o quanto você vai aguentar! — Verinha diz, desligando a esteira e indo embora.
Lili não tem coragem de contar a ela que os dois estão dando um tempo. Um tempo infinito. Aconteceu uma coisa que Lili se chateou (e ela era difícil de se chatear) e também outra coisa que Renato não gostou (ele era fácil de não gostar).
Lili desce da esteira. Por mais que ele fosse metódico e complicado e pouco sorrisos, Renato era bonito e gentil. Fora que Lili podia virar passista alguns dias da semana. Ela pega o celular e envia uma mensagem para Renato. Ele tinha ainda outra nobre qualidade: sempre respondia e ligava. E pagava todas as contas. Pelo livro, era bem capaz de Renato estar a fim de Lili.
