Desci do ônibus e botei a moçada na rua. Distribuí as marmitas quando entramos na marginal Tietê. Na marginal Pinheiros, abasteci todo mundo de Coca-Cola e paramos num posto pra urinar. Mal desci do ônibus na Paulista, botei a moçada na rua e o filho da Dilma, vestindo a camisa com uma lágrima saindo da bandeira nacional, puxou meu braço.
“Seu Zil, vou ali rapidinho, tô apertado”.
“Pombas, meu, que bexiga frouxa é essa?”, eu disse.
“É que o menino fica com vontade quando fica nervoso”, Dilma falou. “Tem muita gente aqui, seu Zil. Ele estranha”.
“Um marmanjo desses, Dilma. Não vem querer me enrolar, hein. Será que é mal do nome?”, eu disse e ri. Lembrei daquele ditado, desgraça pouca pra pobre é bobagem, e ri mais.
“Ai, seu Zil”, ela disse e riu, sem graça. “Toda hora o senhor faz isso. Eu não tenho nada a ver com essa mulher”, ela disse e o riso virou um sorrisinho fino e frouxo nos beições grossos. “Eu não vim lá de lá longe pra pedir pra ela largar mão de nós?”.
“Pedir, não”, eu disse, “exigir! Você tá aqui hoje é pra fazer história. Vai logo atrás do banheiro pra ele, mas não é pra bater perna não”. Eu lembrei porque é bom lembrar, se não a moçada fica achando que vem a passeio.
Gritei a Neiva, que veio com a blusinha amarela, os peitões, os saltões plataforma, as varizes verdes das pernas e shortinho jeans igual aos de Miami que comprei pra ela em Americana.
“Ô, Neiva, você não combinou com a Dilma direito? Tá toda cheia das histórias”, eu disse.
“Ih, Brabrá, acorda. Essa daí tá impossível. Deu pra reclamar de tudo, esquecer de tirar a manteiga da geladeira antes da gente acordar…”.
“Mas no quinto dia útil essa lombriga tem memória de elefante”, eu disse.
“Aliás, duvido que ela vai esquecer que você prometeu pagar o curso de inglês do garoto se ela pedisse impeachment com a gente”.
“Porra, eu já não trouxe todo mundo às minhas custas, comprei faixa, paguei almoço, dei uniforme pra ela e pro moleque perebento?”, eu disse. “Não tem jeito, nesse país é sempre meu pirão primeiro”. Mandei a Neiva ir falar com o pessoal pra esticar a faixa direito e fiquei vendo o short estufado dela enquanto andava. O que tem de bunda, tem de burra. A faixa enorme que mandei fazer diz: “IMPEACHMENT NÃO BASTA!”, mas ela só lê revista da Avon.
A parte boa da moçada, meus amigos pessoais do Lions e os vizinhos do condomínio, pegou uns cartazes e começou a ocupar o meio da avenida. Do metrô chegava gente sem parar, tudo nas cores nacionais, bonito de ver. Mas a parte bamba da moçada, alguns funcionários meus e os jardineiros do condomínio, começou a dispersar. Eu já ia gritar com eles quando apareceu o cara com o celular na mão, disse que estava fazendo a cobertura independente do protesto e pediu o meu depoimento.
“A mídia independente é a nossa salvação”, eu disse. “É uma honra pra mim poder falar pra um veículo que não seja da Rede Esgoto”.
O cara disse que ia postar na página dele no Facebook, que tinha mais de dez mil seguidores. Os jardineiros fizeram graça, dizendo que eu ia ficar famoso. Não ri, porque todo mundo da nossa cidade já sabe que sou famoso. O cara me fez ir pra sombra, por causa do brilho da minha testa na luz do sol. Não adiantou, ainda brilhava muito.
“Ô, Isaías, me empresta o seu boné”, eu disse pro motorista do ônibus, que usava um boné da seleção, presente do filho. “Claro que eu devolvo, rapaz, é só pra gravar o negócio. Tô com cara de petralha?”, eu disse e ri.
O cara da mídia independente riu mais alto logo depois. Dava pra ver que era muito gente-fina, porque um manifestante de verdade tem que rir da piada de um compatriota.
“Pronto, agora tá ótimo. Pode se identificar e dar o seu recado pros nossos seguidores”, ele disse.
Senti o suor do Isaías melar meu couro cabeludo, me deu uma gastura, era capaz de fazer cair meu cabelo. Mas um filho teu não foge à luta e, um filho como eu, muito menos. Dei o meu melhor sorriso,porque a Neiva diz que meu sorriso é muito bonito. Depois lembrei que a Neiva não sabe de nada e fiz uma cara séria, de quem está disposto a morrer pela pátria livre, que cai muito melhor nas câmeras.
“Meu nome é Bráulio Brasil”, eu disse. “Fui industrial por quase quatro décadas e encerrei a minha empresa para me dedicar agora ao movimento Alô, Brasil, Acorda. Para que os brasileiros acordem, quer dizer, e realmente lutem pela intervenção constitucional. Porque se os militares não ocuparem o poder, os bandidos acabam com os países em poucos meses”.
Falei bem. Estava nervoso, com coceira do boné lazarento do Isaías, mas falei bem. Claro, muitos anos de experiência. E tinha muito mais pra falar. Do meu movimento que não parava de crescer, da crise econômica e da inflação, do exemplo que devíamos seguir do Egito, que derrubou um ditador com protestos de baderneiros, mas depois os militares de lá puseram ordem na coisa. Ou seja, o que não me faltava era conteúdo pro discurso, mas veio a tal mãozinha no meu ombro.
“Senhor, por favor”, o policial disse. “Esse ônibus é do senhor?”.
“É”, eu disse.
“Peço por gentileza pro senhor retirá-lo daqui da Paulista”.
“Olha, cara…”, eu disse e fiquei com cara de bunda. Não a bunda da neiva, mas uma feia e murcha, como a da Dilma.
“Ou por bem, ou a gente vai guinchar”, ele me cortou.
A primeira coisa que fiz foi tirar o boné da cabeça. Depois, tentei convencê-lo a não tirar nosso ônibus dali. Era discriminação contra os pequenos, claro, porque o carro de som enorme do Movimento Vem Pra Rua estava lá, no meio da avenida, de frente pro MASP, sem nenhum problema. O cara do Facebook parou de filmar e deu no pé. A moçada, a minha moçada, que veio a São Paulo às minhas custas, amarelou.
“Vem cá, camarada. Eu vim de longe pra lutar por um país melhor pra você, pros seus filhos, tá entendendo?”, eu disse. “Deixa meu ônibus aqui que eu dou um guaraná pra você e pros seus colegas”.
Aí o policial começou a me acusar de tentativa de suborno, corrupção de autoridade no exercício da função, essas merdas. E eu fui ficando vermelho.
“Acorda, Brasil!”, Neiva disse do ônibus, de pé, e os patriotas que passavam na rua olhavam pra bunda dela. “Já tá todo mundo aqui dentro, vamos embora pelo amor de deus”. Entrei no ônibus e entreguei o boné pro Isaías. Sentei na primeira poltrona e enfiei a cara nas mãos, verde de vergonha. Antes que ele dessa a partida, a Dilma entrou correndo com o filho, que puxou o meu braço e disse:
“Seu Zil, queria pedir uma coisa pra coisa. O curso que o senhor vai pagar pode ser Cultura Inglesa? Wizard é muito ruim”.
