por Américo Paim
Eu, no mesmo bar e Bené, meu garçom, de folga. O rapaz no lugar dele tinha bigodinho e sobrancelhas feito “O amigo da onça”, lembrança de infância que me veio não sei de onde. Nas mesas, o de sempre. Uns casais no esquenta para algo interessante mais tarde. Dois homens conversando discretos. Amigos ou amantes, estavam melhores que eu. No centro, perto do palco, um pessoal barulhento, com incontáveis garrafas sobre a mesa. Um deles, camisa com manchas de bebida derramada, me lembrou a música de Falcão: “pelas marcas de pneu nas suas costas, vê-se logo que andou se divertindo”, ou coisa assim. Pedi uma gelada de trigo, inteira no copo alto. Ainda beberia mais duas antes que algo acontecesse.
Então chegou o cantor. Não era o Vivaldo. Pelo visto, era o dia dos substitutos. Cara novo, cabelo nos ombros, cavanhaque preto, brinco nas orelhas, simpático incontrolável. A turma da mesa do pneu conhecia o artista. Quando acenou para eles, vi seu curativo no antebraço esquerdo. O show ia começar e eu voltei para minhas próprias dores.
A verdade é que ela foi embora e me deixou mudo. Foram tantas queixas, apresentadas como uma tese de doutorado, que fiquei sem direito de resposta. Queria que fosse nela, mas beijei mesmo foi a lona e fiquei ali, ouvindo a contagem do juiz. E tem mais. Saiu de um jeito tão elegante que me senti um estranho em meu próprio apartamento, um monte de pó esperando uma pá de lixo me catar. Cansou da minha dificuldade de fazer a relação funcionar, do meu ego, da falta de sexo, da ansiedade, dos discos de rock, sei lá. Foi tanta bronca que nem saberia dizer se foi ela falando ou minha cabeça em autoterapia. E eu achei que ela fosse o porto seguro, o cais da chegada. Coloquei mais um ímã com lugar turístico de Salvador na geladeira. Ela nunca entendeu a coleção. Se soubesse que são um contador… De casos malsucedidos… Ela era tão linda. Cabelos, pele, sorriso, conversa, movimentos, tudo funcionava. Eu é que não.
O que também não estava bem era o amplificador do cantor. Após enfim ajustar, iniciou a cantoria, emendou Beatles, Simon & Garfunkel, Stevie, Elton. Me ganhou, apesar do coral desafinado e bêbado da mesa grande. Pedi outra cerveja. Dez músicas depois, anunciou uma, a pedidos. Me surpreendeu mandando os primeiros acordes de “Old man”. Onde que alguém ia meter um Neil Young naquele bar? Eu cantarolava a letra junto, sem atinar porque tão mexido por ela, quando a corda ré do violão surrado arrebentou. Eu continuaria a tocar, porém, ele parou. Disse que ia consertar e voltar ao começo. Como apertasse um botão “rewind” de um velho toca-fitas, também voltei.
Eu era muito menino e era dia do meu primeiro jogo com um par de chuteiras usadas, presente de meu pai dias antes, mas não conseguia amarrar o cadarço. Meu avô, velho sisudo e solitário, só que atencioso, conhecia minha dificuldade. Já havia tentado me ensinar. Era minha falta de habilidades manuais, o que me incomodava de verdade. Ele, de novo, se dispôs a ajudar. Fez o devagar, me mostrou o passo a passo. Desmanchou e me mandou fazer sozinho. Errei uma, duas, três vezes. Na última puxei com tanta força que o velho cordão se partiu. Gritei de raiva e, já em cima da hora, saí de lá correndo sem olhar para trás. Sem abraço ou agradecimento. Ignorei os apelos dele para corrigir o problema. Cheguei ao jogo e os amigos me ajudaram com o laço. Com aquele nó remendado fiz um gol de canhota, como o velho gostava. De volta em casa, ansioso para contar, só encontrei Dona Clara, nossa cozinheira. Ela disse que meu avô tinha passado mal e meu pai o levou ao hospital. Daquele dia ele não passou. E eu não estava lá. Foi como um 0x0. Meu gol não valeu de nada.
O cantor retomou a canção, depois de emendar a corda partida. Enquanto pedia mais uns guardanapos e outra cerveja, reparei em uma mulher bonita, que cantava junto. Achei que foi ela quem pediu a música. Fiquei observando, até que me visse. Sorri e ela devolveu. Pensei: talvez, quem sabe. Eu já sabia dar o laço no sapato, mas talvez fosse bom me livrar dos ímãs de geladeira.
