A camisa de Arthur treme no mesmo ritmo da ferramenta elétrica. Uma ponta dos cabelos finos cai sobre a lente dos óculos e ele assopra os fios esvaziando as bochechas.
– Você pode desligar a furadeira?
Vera repete a pergunta três vezes como se não soubesse que um toque no ombro o teria feito parar.
– Você pode desligar a furadeira? – ela grita e toca no marido. Arthur para, tira os óculos de proteção , levanta os joelhos do jornal, bate a serragem dos cabelos e acomoda a ferramenta sobre a máquina de lavar.
– Já estou terminando. Isto é uma lixadeira.
– Tem razão. A furadeira tem as brocas.
– Logo mais vou furar o quarto.
– Até as quatro, lembra? Hoje é sábado.
– Termino antes. – Artur abre a janela. O tanque pequeno ao lado da máquina de lavar estava vermelho do pó, o cheiro da madeira se misturava ao da cola e tomava a área de serviço.
– A chuva parou. Está ficando bonita. -Vera muda o tom e elogia o trabalho.
Artur apreciava concentração e isolamento e agradecia o fim de semana de tempo ruim. Ia aproveitar o sábado de chuva e finalizar a estante.
– Logo acabo e te devolvo o sossego.
Sossego era mais que silêncio. Vera percebe a irritação de Arthur. Achava que o elogio ao trabalho ia servir como um pedido de desculpas por interromper sua concentração.
– Está bonita – ela insistiu. – E vai ficar do jeito que pensei atrás da escrivaninha.
– Você queria ao lado da janela.
– Mudei de ideia. Gostei mais da sua.
– Você quer consertar o que disse.
– Só pedi pra você desligar.
– Entenda duas coisas : estou trabalhando no que gosto e sei quando quer me irritar.
– Desculpe. Gritei sem necessidade. Sei que me ouviu. Acho que fiz de propósito.
– Acha? É claro que fez.
– Estou pedindo desculpas. É que ouvi uma canção vinda de longe, acho que do fim da rua e o barulho não me deixou entender. Fechei a porta do quarto , saí na janela, mas voltou o silêncio e então vim até aqui.
– Depois que a música parou? Veio pra provocar.
– Continue o trabalho. Vou para o quarto e fecho a porta de novo.
– Termino logo – Arthur liga e desliga a lixadeira.
– Está mesmo bonita. É sincero. Faz com calma, como você gosta.
– Estou fazendo – ele volta a se ajoelhar sobre o jornal.
Vera puxa o elástico de cabelo preso ao pulso e prende os fios longos e cacheados num rabo de cavalo alto e meio infantil. Então se abaixa, recolhe as lixas e parafusos espalhados, coloca sobre o assento da cadeira ao lado, para um instante e toca de novo no braço do marido.
– Está ouvindo?
– O quê? – Arthur desliga a ferramenta.
– A canção. Começou de novo. Está ouvindo?
– Não – ele responde sem tirar os olhos da peça e então passa as mãos sobre a madeira lisa
– Faz um esforço. Percebe?
Arthur fecha a lata de cola e esfrega a estopa com solvente na mão. O cheiro se espalha.
– Bem longe?
– É. Isso. Longe, longe. Ouviu agora?
– Não. Adoro suas fantasias. Quem sai pra cantar num dia de chuva?
– E eu não suporto a sua má vontade. Devia usar também um protetor de orelhas.
Arthur religa a ferramenta.
– Vou descansar. Vou ler – Vera aumenta o tom de voz, o corpo parece girar como as lixas da máquina, ela se apoia na parede e caminha até o quarto.
O lugar tem uma sacada com vista para a rua que termina num largo sem saída perto de um morro. Um conjunto de três prédios de dez andares impede a vista completa da encosta. Vera fecha a porta, abre a janela balcão, empurra um lado da cortina, abraça o tecido alonga o pescoço em direção aos prédios e a música cessa mais uma vez.
– Onde estão meus fones de ouvido?
Apalpa o próprio corpo para conferir se estão pendurados no pescoço, olha embaixo da cama. Estão sob os pés da mesa lateral junto a uma bola de poeira. Há tempos não varre os cantos da casa. Desenrola os fios , encaixa nos ouvidos e se deita.
– Não é melhor parar no acostamento? Ligar o pisca-alerta?
– Falta pouco, logo a chuva passa.
– O limpador não está vencendo a água.
– Quer outra música? – o motorista solta a mão do volante e liga o rádio.
A lixadeira trabalha com intervalos maiores. A chuva vai parando.
– Terminei.
– Que susto – Vera tira o aparelho dos ouvidos.
– Desculpe.
– Da próxima vez, bate na porta.
– Eu bati. Você não ouviu.
– Sonhei de novo com o carro na estrada. Ouvi a lixadeira bem longe. Ou foi a música?
– Vou instalar o móvel.
– Posso ver? – Vera aceita a mudança na conversa.
– Já está no escritório.
O segundo quarto do apartamento é o que passaram a chamar de escritório. Menor que o do casal, também com uma pequena sacada e uma janela balcão sem cortinas.
– Ficou linda.
– Mesmo? – Artur se senta na cadeira giratória de rodinhas junto à mesa. No chão, dez caixas grandes de papelão com livros e documentos. Algumas abertas e outras há seis meses com a fita crepe intacta. Vera só entra ali para limpar e logo sai. A escrivaninha parece abandonada e junto com a cadeira ocupa quase metade do quarto. Arthur e Vera costumam trabalhar na mesa da sala . A pergunta de Arthur não quer confirmação. Soa envergonhada como se fosse a sua vez de pedir desculpas.
– Você quer que eu diga que ficou feia?
Arthur ri do mesmo jeito que costumava fazer antes da mudança. Eles sempre se entenderam falando pouco.
– Pode rir. É sincero.
– Eu sei – fez uma pausa de segundos, prendeu os olhos em Vera que alisa os cabelos amassados do travesseiro. Ainda se parece com a menina do primeiro ano de faculdade. – Que bom que gostou. Vou furar a parede.
– Só até as quatro, lembra?
– Atrás da escrivaninha?
– Isso. Ali mesmo. Vou abrir a janela.
O ruído da furadeira vibra nas paredes e escapa para a rua. O ar úmido na paisagem sugere que o som vai mais longe como a canção, que só ela ouviu. Da sacada, ela olha o fim da rua enquanto Arthur termina o trabalho. Tem certeza de que a música da manhã veio do conjunto de prédios ou do morro logo atrás. E é era para lá que o marido mandava a resposta ruidosa da máquina. O barulho para.
– Está pronto. Vem ver- ele chama
Vera sai da sacada, entra e passa o dedo na marca de pó nas caixas fechadas e na escrivaninha. Faz um desenho redondo sem levantar os dedos do papelão , parece uma letra que ela logo apaga.
– Ficou ótimo. Amanhã organizo os livros.
– Ajudo você.
Ela pega um volume qualquer na primeira caixa aberta.
– Se fosse um poema, eu lia agora.
– E o que é?
– Curso Prático de Marcenaria.
Arthur ri. Não se lembra do título. Vera se agacha e, sem que ele possa conferir a capa, mistura o livro aos outros.
– Está ouvindo? – ela pergunta enquanto se levanta.
– A canção? Agora estou.
– A voz de alguém cantando muito.
– Uma mulher?
– Uma mulher. É bom de ouvir.
– Pra quem ela canta? – ele pergunta.
– Acho que pra ninguém. Pra a imensidão.
– Será? Deve cantar pra alguém.
– Para nós? Talvez ela. Vem de longe. Vem do coração.
Arthur desdobra as mangas da camisa.
– A chuva outra vez. Vamos entrar.
Vera fecha a porta balcão, vira para o marido e se encosta nas folhas de madeira.
– Nós temos culpa?
Arthur acende a luz.
– De novo?
– O quarto era dela.
– Não é mais um quarto.
Vera cruza as mãos atrás do pescoço.
– Apague a luz. Vou abrir a porta de novo. A estante está com cheiro de cola.
– Melhor. Deixe aberta. Não vai molhar o chão. Uma hora a chuva para.
Vera sai à varanda , alonga o pescoço
– Arthur! A música voltou.
