Os Desacreditados

(Bruno Vicentini)




Tomate vivia quebrando o braço. Uma vez, quando estávamos num retiro do colégio, ele pulou pra fora da cama elástica e se estatelou feito uma lagartixa no chão de azulejos vermelhos. Ligaram pra mãe dele, que apareceu na chácara antes que o supervisor pudesse ter finalizado o amplo movimento de bater o telefone no gancho. O Tomate perdeu o resto do fim de semana e o acampamento, algo pelo qual nossa turma inteira (a quinta dê, ou os Desacreditados) tinha ansiado durante meses. Na segunda-feira ele chegou com o braço engessado, e ouvia as histórias do retiro com um sorriso besta no rosto. A professora de ciências disse que o osso que ele quebrou se chamava rádio. O Tomate contou então que a mãe dele tinha feito uma promessa: se o filho conseguisse passar um ano inteiro, doze meses, sem fraturar nenhum osso, ia ganhar o skate que queria de Natal. Num jogo de basquete, coisa de dois meses mais tarde, alguém o empurrou pelas costas e ele caiu apoiado sobre o próprio punho. Eu tava perto e ouvi o barulho do osso se partindo, como se fosse um imenso giz branco. Eu nunca tinha quebrado o braço. Perto da nossa sala de aula tinha uma arquibancada sem nenhuma grade de proteção, de onde muita gente já tinha caído e que era a alegria dos ortopedistas pediátricos. Eu costumava ficar sozinho lá em cima, na beirada do degrau mais alto, olhando pro chão enquanto imaginava a queda, a dor e a glória, imaginando que tinha a coragem necessária pra me atirar de lá de cima, do topo de uma arquibancada gigantesca.

*

Eu conseguia ver o sutiã da Larissa por debaixo da camiseta do uniforme. Era laranja neon, o que me facilitava as coisas. Ela mastigava, escondida da professora de matemática, pipocas que tinham sido distribuídas no intervalo, por conta de uma atividade das turmas do infantil. Tirava as pipocas de dentro do saquinho com calma, uma a uma, o olhar fixo na professora de matemática. A professora passava exercícios no quadro e já tinha avisado que o próximo aluno que fosse pego comendo pipocas durante a aula ia direto pra fora. Eu não conseguia prestar atenção em mais nada. Só na Larissa comendo pipocas, e no seu sutiã cor de laranja neon por sob a blusa branca do uniforme. Podia ficar ali pra sempre. Ela me percebeu olhando e, sem jeito, sorriu e me alcançou o saquinho de pipocas por debaixo da carteira. Mas eu não era tão bom quanto ela em comer pipocas escondido da professora de matemática. Não passei da terceira. Larissa ainda tentou me defender, disse que a culpa e as pipocas eram dela. Os dois pra fora, então. Eu nunca tinha sido tirado da aula, e saí da sala como se não soubesse mais usar as pernas e os pés. Larissa veio atrás de mim. Trazia ainda o saquinho de pipocas na mão, e suas gargalhadas ecoavam pelos corredores vazios do colégio.

*

Era sábado e minha mãe entrou no meu quarto pra me avisar que eu tinha que ir no aniversário do Vinícius. Mas eu não fui convidado, não tô sabendo de nada, menti. E o que é que tem, ela disse. Eu encontrei a mãe dele lá na galeria e ela disse que é pra eu te levar, é ali na XV, naquele prédio grande de esquina, se arruma ligeiro que eles já tão todos lá. Coloca aquela camisa nova, a azul-marinho. Isso, a que me deixa com cara de bobo, pensei. Minha mãe viu que eu continuei deitado e se sentou na cama. Você não quer ir, ela perguntou. Eu não tinha como responder àquela pergunta, não sabia nem por onde começar. Quando cheguei no prédio do Vinícius, minha turma já tinha se dividido em uma série de grupos, uns maiores e outros menores. Eu me juntei ao mais numeroso, onde iam me perceber menos. Mas o assunto era um só, todos os olhos miravam apenas um dos grupos, o menor de todos: um casal, Tomate e Larissa, sozinhos na escada do escorregador. O pai do aniversariante andava por entre nós empunhando uma câmera filmadora. Em seguida, nos reuniu em frente à parede decorada, pra bater uma foto. Sorriam, ele disse.

*

Sentado na beira do degrau mais alto da arquibancada, aonde costumava ir pra ficar sozinho, eu lia o livro de ciências. A página que eu lia dizia assim: começa com o afeto entre o homem e a mulher. O sangue flui para os órgãos genitais quando os dois se beijam, e isso provoca nessas partes do corpo um desejo de serem tocadas, o pênis do homem cresce e fica rígido e a vagina da mulher fica úmida e macia. Agora o pênis pode penetrar a vagina da mulher e as partes se movimentam “de forma confortável e agradável” até o homem e a mulher chegarem ao orgasmo “não necessariamente ao mesmo tempo”. Nesse ponto eu fechei o livro e recolhi as pernas, que tavam penduradas, me pondo de pé num salto. Foi quando senti que levava um empurrão pelas costas e, antes que pudesse entender o que tinha acontecido, deixei de sentir o chão embaixo dos meus pés.

Deixe um comentário