Os meninos da turma de cima chegavam no meio da tarde. Eu e meu irmão já tínhamos juntado uma pilha de cacos de telha no espaço sob do galinheiro, fora da vista de nossa mãe por segurança. Levava meia hora o trabalho de podar as arestas até obtermos uma boa quantidade de pequenas circunferências de barro. Reunida a munição, descíamos até o fundo do quintal, junto à cerca que fazia limite com o campinho de terra batida onde se apresentava o Cometa Futebol Clube. A turma da rua de baixo, nós sabíamos, já estava escondida nas touceiras do terreno vizinho ao cemitério.
Na primeira temporada da guerra, nas férias de julho, o arsenal era o convencional, mamonas arremessadas por estilingues de galho de goiabeira. Com a escalada no armamento, a emoção aumentou. A ilusão de perigo era o que unia os dois grupos. Raramente algum menino era atingido e, quando isso acontecia, o resultado era no máximo um galinho na cabeça. Mesmo porque todos estaríamos juntos na manhã seguinte, sentados lado a lado na classe do primeiro ginasial. A convivência na escola era, na medida do possível para garotos de onze anos, pacífica.
Alguém imitou uma corneta e o bombardeio começou. Girando, os projéteis desenhavam arcos entre as trincheiras opostas. A regra não escrita era atirar para o alto, e não diretamente na direção do inimigo. Assim dava tempo de acompanhar a trajetória do disco marrom contra as nuvens e desviar no último instante.
Confesso que eu me divertia mais durante a fase de preparação. Sentados em roda, usávamos uma pedra afiada para arredondar as bordas enquanto alguém contava piadas do Zé Vasconcelos ou histórias de assustar. Como a do menino distraído que certa vez se viu escondido na moita com o Cicinho, o tarado do bairro.
Escolhi uma peça particularmente bem moldada, ajustei-a na curva entre o polegar e o indicador e lancei para cima com um movimento rápido do antebraço. A parábola durou um tempo enorme até aterrissar na touceira mais distante. De lá ouvimos um grito de dor que fez cessar a artilharia. Ninguém do nosso lado esperou para ver quem tinha sido atingido. Voltamos correndo pelo quintal, ultrapassando o galinheiro até alcançarmos o portão de cima. Na rua, cada um foi para um lado, berrando como índios de faroeste.
Escurecia quando voltei para casa. Meu irmão, sentado no degrau da porta da frente, passou o dedo na própria garganta, o sinal clássico de perigo. Nossa mãe conversava na sala com uma mulher que eu havia conhecido quinze dias antes. Era a mãe da Cloé.
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Foram os olhos azuis dela que me chamaram a atenção. Não que fosse a menina mais bonita da classe, mas eu nunca tinha visto aquilo. Por tirar as melhores notas, sentava na fileira da frente. De minha posição, na fila do lado duas carteiras atrás, eu não via os olhos nem o narizinho pontudo. Em vez disso, passava as aulas fixando sua orelha direita e a parte de trás da cabeça. Os cabelos amarelos se dividiam em duas tranças, como na embalagem de Claybon. Eu prendia a respiração quando ela se inclinava para falar com uma amiga. Se alguma hora olhasse para trás, o que nunca fez, não sei como seria minha reação. Quem sabe eu derrubasse um lápis.
Até que, na semana passada, ela faltou uns dias. A professora avisou que a Cloé estava doente e que a mãe havia pedido para algum colega levar a lição para ela copiar. Eu sabia que morava na rua atrás da minha, porque a via passar com o irmão mais novo a caminho da escola. Levantei a mão num impulso e me arrependi na mesma hora, mas não pude voltar atrás, porque a zoada da molecada foi infernal. Naquela tarde, em vez de treinar na zaga do Cometa, saí com roupa de domingo para levar o caderno até a casa dela.
Cleide morava no fim da ruazinha sem saída que terminava no cemitério. Era lá que íamos encher os baldes quando a água da rua fechava por muito tempo. O pessoal fazia fila na “casa do poço” com autorização do pai dela, que conhecíamos como Alemão, um fiscal de renda que foi um dos primeiros do bairro a ter carro. Toquei a campainha e a mãe, uma mulher gorda de pele clara e cabelos presos, me levou por um corredor forrado com uma espécie de tapete decorado com folhas. Nas paredes da sala também havia desenhos de flores e frutas.
A senhora disse que ia me servir uma torta enquanto eu esperava a Cleide se vestir. Trouxe uma fatia de bolo com um recheio amarelado e saiu. Achei que era minha obrigação experimentar. Pus uma garfada na boca e queimei a língua. Pensei em cuspir aquela gororoba nas folhas do chão, mas percebi que a Cleide me olhava da porta. Vestia uma espécie de roupão branco e estava muito pálida. As olheiras ressaltavam ainda mais a cor o azul dos olhos. Acho que eu ainda estava de boca aberta, porque ela fazia cara de nojo.
Percebi que era a primeira vez que Cloé e eu ficávamos frente a frente. Minha reação foi levantar, pousar o prato e deixar o caderno sobre a mesinha. Dei uma desculpa que não lembro e saí quase correndo pelo corredor. No dia seguinte, encontrei o caderno na minha carteira da escola quando cheguei. Ela não voltou às aulas até o fim do semestre.
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No sofá da minha casa, a alemãzona mãe da Cloé estava com o filho no colo. O garoto, que parecia uma múmia com aquela atadura branca na cabeça, chorava baixinho. Minha mãe falava com encostada na porta da cozinha. Me fuzilou com os olhos quando entrei, mas não gritou como de costume. Em vez disso, perguntou numa voz grave e baixa se era verdade que eu tinha brigado e jogado uma pedra na cabeça do Wagninho.
Pensei em dizer que não tinha sido briga, mas um jogo. Que não era pedra, só um caquinho de telha. E que ninguém devia ser obrigado a comer bolo quente sem saber. Claro que eu não disse nada disso. Só resmunguei umas desculpas para a dona Heidi.
A cabeça rachada do Wagner acabou com nossa temporada de batalhas campais. Aproveitamos o estoque de cacos de telha para desenhar um enorme cometa alaranjado na parede da casa do seu Sebastião, que fazia divisa com o campinho. Não deu um dia e os moleques da rua de baixo usaram as telhas deles para alterar o nome no nosso escudo, que transformaram em “Corneta”.
Soube que a Cloé teve de fazer as provas separado, e mesmo assim passou de ano. Quando voltamos das férias, a diretora nos reuniu para informar que ela e o pai haviam morrido num acidente de carro na estrada para Jundiaí.
