Não se vá

por Américo Paim

A separação era questão de tempo, eles sabiam. Na hora, porém, a partilha desgastou. Ele com o cachorro, que chegou antes dela, ela com os livros, ele quase nem lia mesmo. Ele com os discos e ela com os vinhos. Ele com o carro e ela com o apartamento – afinal foi ela quem pagou quase tudo. Panelas para cá, utensílios para lá, fotos, souvenirs, mágoas e ironias, tudo foi dividido. Até chegar no Anésio. Com quem ficaria? Ela apresentou seus argumentos e ele rebateu todos, sem vacilar, mas não foi convincente para ela concordar e ceder. Sem acordo, decidiram soltar o bicho. E foi assim que aquele gafanhoto gigante se viu livre para voar de novo. E não economizou. Bateu asas e aos poucos ganhou confiança, em um voar leve e controlado. Ele fluía fácil. Até que, vindo da praia, ali atrás do Quartel de Amaralina, entrou a toda pela janela aberta do lado do carona do Fiat 147 branco, bateu com força na cara com barba por fazer do motorista e caiu sobre seu colo. No susto e no reflexo, Décio bateu com a mão de direita e jogou o bicho no tapete, mas a mão esquerda, distraída, virou o volante e o carro, desgovernado, estuprou o muro do edifício na esquina da avenida. Sereno vinha perto, num Opala cupê. Parou na hora. Com a ajuda de dois populares, colocou o infeliz no banco de trás e tocou para o HGV. Era cedo ainda e no rádio tocava “Detalhes”.

No hospital, com a ajuda dos enfermeiros, o pobre foi de maca, emergência adentro. Sereno, sujeito solidário, foi até onde deixaram, acompanhou o destino do desafortunado. Dever cumprido, voltou ao carro, que já não estava lá. Levaram, em plena luz do dia! Foi fazer uma boa ação e deu naquilo! Titico, por sua vez, ficou até dividido. Sempre quis ter um Opala daquele, mas a prioridade era outra e tratou de levar a máquina para negociar na boca de fumo. A dívida já estava valendo sua carcaça e Jeremoabo não era bem o tipo de indivíduo chegado a perdão e demais valores cristãos. O ladrão aflito esperava impressionar com aquele bólido, só que não deu certo. O credor reclamou que o carro chamava muito a atenção e estava todo sujo de sangue. Como ele não viu isso? Pensou que o chefão era algum otário? A coisa complicou. Regininha, que lavava a calçada na casa em frente, viu quando uns homens, feios como a dor, levaram o pobre rapaz para dentro da casa pintada de cinza e marrom. Quem escolheria uma combinação de cores tão horrível? Ela pensou assim e também que deveria falar com Calango, que era o amigo mais próximo do malfadado devedor. Para ela seria uma chance de se entenderem, de ela tentar consertar as coisas entre eles, esclarecer aquela história do corno e tal e coisa. Ela fechou a torneira e entrou para telefonar. A vitrola tocava “Por que brigamos?” pela enésima vez.

Aristenio, vulgo Calango, embora não tenha digerido com facilidade a conversa da moça, balançou um pouco. De qualquer forma, sabia que precisava fazer algo para ajudar o amigo Titico. Ia sair de casa, mas sua avó, com quem vivia, lhe pediu que comprasse o pão antes. Ele fazia tudo por ela. A menos de uma quadra da padaria, avistou Favorito e seus amigos no campinho, jogando gude. Chamou o moleque, lhe deu uma bronca porque estava de vagabundagem e uns trocados para comprar umas flores baratas e entregar a Regininha. Um gesto de boa vontade pela possível reconciliação. O menino sumiu rápido, seguido por dois ou três garotos da sua turma. Foram direto para a sorveteria. Manito Lombo de Boi achou estranho aquele pirralho com dinheiro, mas serviu os picolés e a turma saiu voando dali. Comentou com Berê, seu colega de balcão, se não deviam avisar a Seo Santana. O avô cuidava do menino depois que o tráfico matou o pai do coitado. A mãe já tinha sumido fazia tempo. O velho agradeceu a informação. De bengala e chapéu de palha, saiu em busca do espertinho. Ele teria que explicar por que não estava na escola e onde arranjou moeda para comprar sorvete. Andou uns três quarteirões, devagar, no seu passo. Nada de Favorito. Parou no bar de Jegue para tomar uma água. Aproveitou e pediu média com pão e manteiga. O lugar estava cheio e as poucas mesas ocupadas. Fortunato, que já pagava a conta, lhe ofereceu o lugar. A camisa azul sofrida que o homem usava lhe lembrou a do primeiro dia que dançou com Laurinda. Onde será que ela estava? O que teria sido de sua vida? Ela o trocou por outro. Dizia que foi amo. Na cabeça dele foi só dinheiro mesmo. Tratou de voltar à realidade. Pegou seu troco e saiu do bar para retomar a lida no táxi, aos primeiros compassos de “Foi um rio que passou em minha vida”, no radinho que Jegue deixava junto ao armário dos copos.

Salete deu a mão para o táxi assim que ele dobrou a esquina. Estava atrasada para a consulta médica e não ia dar tempo de ônibus. Comandou a Fortunato que tomasse o rumo da Pituba, pela orla mesmo. Ele puxou assunto, mas ela cortou, seca. Sua cabeça doía há quase uma semana, mais ou menos o tempo desde que foi despedida. Nem sabia como ia ser com a prestação do apartamento nos próximos meses. Ainda teve a morte de seu tio, conselheiro querido, que lhe apertava o peito. Foi tudo junto, de uma vez. Chegou ao consultório desconfiada de tudo. Não gostou do jeito como a atendente lhe tratou e menos ainda do perfume floral enjoado que ela usava. Na sua vez, já entrou esgotada na sala da Doutora Liliana. Em poucos minutos de conversa, a anamnese virou uma sessão de terapia. Falou de tudo e resistiu, porém, lembrou do tio e desabou. Chorava sem cerimônia e era consolada pela médica. Mas quando mencionou o nome dele, Seo Anésio, ganhou uma lágrima solidária da doutora, saudosa de seu gafanhoto. Lá fora, o carro de som mercava frutas na vizinhança e, nos intervalos, tocava “Não se vá”.

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