Cadê a pedrinha que tava aqui?

Cadê a pedrinha que tava aqui? (Carol Schettini)

Difícil conseguir uma pedrinha azul. E agora ela some?! Cadê a pedrinha que tava aqui? Se fosse um toucinho? Cadê o toucinho que tava aqui? O gato comeu. Cadê o gato? Será que o gato da tia Lourdinha pegou o meu tesouro? Logo da tia Lourdinha. Ela tem um anel azul do olho do grego. Não sei como conseguiu pegar um olho e colar no anel. Parece pintado. Ela sempre diz: olho do grego dá sorte. Vi ela conversando com a mãe e falando em tatuar o olho do grego nas costas. A mãe riu, riu, riu. Ela deve achar que a tia Lourdinha tá pra lá de Paquetá como diz o pai. Cadê o gato? Foi pro mato. Isso que dá morar em lugar cheio de plantas. Quando eu tiver doze anos e for falar da minha infância, vou contar que morava no meio da Floresta Amazônica. E quando me perguntarem cadê o mato?, vou dizer: o fogo queimou. Ninguém vai acreditar. Não tenho nem uma queimadura. Nadica de nada. De nada. O Zeca falou pra gente fazer uma fogueira no meio da sala pra queimar umas cartas velhas que ele achou no sótão. Foi só fazer uma fumacinha, a mãe veio como um raio e jogou água. Cadê o fogo? A água apagou. Inundou tudo. A madeira deu bolor. Não adiantou Zeca e eu passarmos a noite toda secando. Pedi pra mãe a pilha de pano de chão. Foi aí que descobri que é um pano só. Passa no chão, seca, torce, enxuga, volta. Tantas vezes quanto o ponteiro de relógio roda no número um. Cadê a água? O boi bebeu. Ai, ai, ai. Se ainda tivesse boi. Quer dizer, a gente tem o tio Rubinho. Toda vez que ele fica de costas, a tia Lourdinha coloca as mãos na cabeça como se ele fosse um touro. É tão engraçado. Se ele pega ela, dá logo um tapa. A mãe diz: olha a confusão e a tia Lourdinha sai correndo abaixada com as mãos na cabeça, os meninos vão atrás. Eu não vou. Com dez anos não tenho tempo de ficar com dancinha. Tenho muitas preocupações na vida. A pedrinha azul. Cadê? O tio Rubinho tá sumido. Cadê o boi? Tá amassando o trigo. Eu ia achar bom ser boi. Pão faz de trigo, aprendi na escola e também na primeira comunhão. Já sabia disso bem antes, ih, bem antes. O vô que cantou. Ele ficava assim: debulhar o trigo, enfartar de pão. Chorava se ouvia essa música. Chorava. Agora que o vô não tá mais aqui, a mãe quem chora. Chora, chora, chora. Se juntasse todas lágrimas da mãe dava pra encher o açude do alto do morro, onde o homem coloca o farelo de trigo, colado no galinheiro. Cadê o trigo? Galinha espalhou. Tá tudo espalhado. Se minha pedrinha caiu ali, quando eu fui  mais cedo correr com os pintinhos, já era. As galinhas comem pedra. A pedra precisa parecer com milho, tipo um dente de ouro. Pedrinha azul não comem. Nem bilosca grande. Galinhas não tem dentes ou iam ser um monte de banguelas. A vó quebrou o dente porque mordeu uma bala dura. Imagina, só! Vou procurar lá, já vou. Cadê a galinha? Tá chocando o ovo. Deve ser um tédio ficar sentado em cima de uma casca. Quando fico dez minutos parado lendo um texto enorme da escola, sinto que vou morrer. Meus músculos se desmancham, minha pele solta, os ossos endurecem, é uma tortura voltar à realidade. Nem presto atenção se o homem cruzou a ilha. Cada linha preciso ler vinte vezes. Vinte. É muito sacrifício pra duas questões na prova. Melhor chutar e ficar vivo. Vida é o que importa. Tem um ninho vazio. Cadê o ovo? O padre comeu. Com certeza. Vem aqui todo dia pra comer uma coisinha. Tia Lourdinha sassarica pra lá e prá cá. A mãe disse: a mulher do padre é a mula sem cabeça. Tia Lourdinha nem liga. Meio-dia  pergunta: Cadê o padre? Tá rezando missa, a mãe diz. Se ficar descabeçada é capaz de gritar: Cadê a missa? Tá no altar! No altar da Igreja tem um desenho feito de caquinhos. Colaram um trocinho no outro com colinha branca. Cutuquei e caiu a pedrinha azul na minha mão. Uma benção dos céus. A mãe sempre diz que sou abençoado. E não foi ninguém da cidade o criador do mural. Foi um homem do estrangeiro. A mãe sacudiu a cabeça tantas vezes com o desenho. Ficou com dor na testa. Assinou um papel pra pintarem por cima. Não pintaram. Ficou lá. Aquele monte de pedacinhos de vidro, azul e verde e branco e toda cor. Até que tá bonito. Não é lindo como uma pintura de girassol nem horroroso como a pintura da morte. A freira da escola quando viu gritou: cadê o altar? Tá no lugar! Pior eu. Cadê minha pedrinha? Tá por aqui, tá por aqui. tá por aqui.

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