Combinação Numérica

Fúlvia não conseguia trabalhar sem um calendário de mesa. Ela precisava desenhar círculos coloridos ao redor dos dias para garantir a lembrança dos eventos na escola.  Seu calendário, uma espécie de pirâmide com folhas destacáveis era um brinde da Flor de Liz –loja de roupas evangélicas. Para reforçar a memória, a secretária também fazia anotações nas páginas da agenda do sindicato.

Em 2007, logo em janeiro, Fúlvia observou a combinação de números que viria acontecer em julho. Naquele mês, a data do primeiro sábado indicava uma sequência de zeros e setes. Zero sete, de zero sete do ano zero sete. Considerou um fato único, mas sábado não era dia letivo e ela deixou passar. O mesmo já tinha acontecido nos anos anteriores em meses diferentes. Zero seis do seis do ano zero seis, zero cinco do cinco do ano zero cinco até voltar a 2001, o ano da virada do século.

Em casa e de férias naquele sábado zero sete de julho, Fúlvia recebeu um e-mail. Ainda era um ano em que as comunicações se faziam por eles, e as redes sociais engatinhavam. A mensagem, enviada por Carlos Eduardo também a outras 230 pessoas alertava para os portais que se abriam na data. O homem era só mais um conhecido dos cultos de domingo da nova igreja que começava a frequentar logo ali na esquina da sua casa.

Fúlvia achou estranho a pegada mística, mas leu todo o conteúdo em consideração ao irmão de fé. Tanto ele como ela e mais outras pessoas por volta dos trinta anos de idade buscavam salvações práticas em qualquer fonte e, por conta disso, seguiu a leitura e os passos do powerpoint na tela.   

Primeiro ficou numa posição confortável (foi esta a primeira orientação) e acionou o som para uma música que combinava água corrente, pássaros e flautas. Nas imagens, nuvens suaves em um céu azul servindo para uma espécie de oração com várias letras trocadas por pontos de exclamação e interrogação. Não se sentiu lendo, mas decifrando. Manteve a concentração na leitura e interpretou a troca de letras como uma senha necessária para responder ao chamado cósmico do momento.

 O céu azul do fundo, em alguns segundos, mudou de cor. Ficou roxo e Fúlvia descobriu que a mudança se deu pela invocação do fogo violeta.  “Não tenha pressa, continue a leitura” – dizia a mensagem na tela.

Ao ler “que bom este cheiro de incenso”, tentou, com boa vontade, sentir algum perfume além do amaciante na sua blusa de lã. Venceu a etapa, mesmo sem a fumaça da vareta queimando e chegou a um link para continuar. Clicou.

Um azulão tomou conta da tela. Tinha chegado ao fim da seção junto com seus irmãos cósmicos, talvez os outros 229 que também receberam o e-mail. Fúlvia estava com trinta e seis anos e mesmo assim, a próxima mensagem dizia que ela havia sido inscrita no livro dos anciãos. Sem encontrar resposta ao que era o livro, a secretária aceitou o registro compulsório.

 O powerpoint então pediu que ela se imaginasse entrando num templo. Fúlvia se esforçou, mas assim que deu o primeiro passo quimérico, tocou  o telefone e a entrada mística precisou esperar. Era um convite pra sair à noite, perto das nove com amigos que não estavam na lista de nomes do e-mail.

 Fúlvia aceitou sem nem saber qual o boteco e voltou ao computador para continuar o ritual. A tela estava apagada. Quando tocou no mouse a apresentação reapareceu com um pedido para instalar um “plugin”. Fúlvia achou imprudente adicionar qualquer coisa ao que vinha fazendo. Pensou num vírus esotérico capaz de tomar não só os seus arquivos como toda a energia da casa.  Parou diante do monitor, abriu e fechou os dedos das mãos três ou quatro vezes antes de desligar tudo.  Foi tomar banho com um leve incômodo na nuca que a acompanhou até o bar.

 Os quatro amigos chegaram cedo e o grupo pequeno conseguiu o último lugar na calçada. Na mesa ao lado, três homens e quatro mulheres vestidos em tons de azul acompanhavam a fala de um homem em pé vestido com uma túnica roxa. Ele fazia interpretações sobre a combinação de setes da data. Embora parecessem interessados e uniformizados para algum ritual, os sete da mesa despacharam o homem oferecendo cachaça. Ele disse que não bebia e seguiu para o grupo de Fúlvia.

 “Onde estão os outros três?” – ele quis saber. Ninguém respondeu e ele se sentou à mesa para explicar a pergunta. Não era o que Fúlvia esperava para o encontro com os amigos à noite. A conversa começou nas civilizações do Egito e estava nos cruzados medievais quando ela impaciente, pediu licença e se levantou. O grupo ainda insistiu para ela ficar. Fúlvia beijou um a um e seguiu para o pagamento no caixa. Enquanto conferia o valor, reparou que o homem de roxo tinha parado a conversa e a olhava de longe com um meio sorriso. A conta tinha dado exatos setenta e sete reais.

Deixe um comentário