Era uma vez um mês seis – Yan

1.

Era uma vez um mês seis. Os cavaleiros prateados da Ordem do Sindicato Patronal de Transporte Urbano guardavam as cidades. Seus corcéis eram manadas domáveis conduzidas por cavalariços ariscos – ou verdadeiras cavalgaduras, a depender da cidade. A função da Ordem não era como a dos ancestrais encouraçados, meros protetores de muros; ao contrário, possibilitava destinos, adentrava as tripas da distância com a lança veloz da locomoção, libertava o safo sátiro do movimento para semear as ninfas do encontro. Ou seja, a função dos cavaleiros era a mais nobre de todas e por ela deveriam receber todas as honras, mas cobravam apenas dinheiro.

O povo pagava em devoção e não ficava devendo reverência. Passava as mãos nas carrocerias maciças e trepidava feliz dentro dos corcéis, que saltavam sobre as valas da via como se num evento vip da Hípica. Vivas e salve e salvem os valentes cavaleiros, o povo valoroso devolvia – pagava leve e alegre, pois era versado nas artes do retorno. Valia a máxima válida em todas as partes: não existe voltinha grátis. Apesar de mui nobres e mui elevados, mui prateados e mui motorizados, isto é, mui cheios de graça, nossos cavaleiros precisavam de um faz-me rir, como qualquer pessoa de carne e bolso. E todas as cidades entendiam, todas as cidades pagavam e cantavam o tempo da paz, que não existe mais. Cantavam o tempo da consideração, quando era menos ambição e o empresário automoviário valia muito mais.

Acontece, porém, que era uma vez um mês seis e nesta feita a desfeita veio a pé. Todo ano os cavaleiros reajustavam o tributo pelo serviço prestado de prover trajetos. Tratava-se de trâmite tão terreno quanto o aumento de qualquer outro preço, claro, pois era preciso arcar com a manutenção da manada, a inflação da gasolina adulterada – água que puro-sangue árabe não bebe – e, ainda, aumentar o soldo dos mui negativos e pouco operantes condutores. O aumento não era de dez, não era de três, não era de um real: era, ao fim e ao cabo, de míseros vinte centavos. Acontece, porém, que um pedante e pedestre plebeu resolveu que o valoroso serviço prestado pelos cavaleiros não devia encarecer. E então, quando passou-se a passar despercebido o total transtorno de um translado mal tarifado, foi o caos.

Este tal pedante e pedestre plebeu era, como desde o início dos tempos, um jovem que desconhecia a verdadeira valia dos dias e das noites. Dizem as boas línguas, aliás, que era bem nascido, universitário público, pupilo dos mais renomados mestres, e que, na verdade, tinha carro próprio. Por dias e noites esse jovem logo conspirou com seus colegas – que, dizem as boas línguas, tinham cada qual seu carro próprio – e  instigou as massas contra a prateada Ordem. Antes da metade do mês seis, hordas de descamisados vestindo camisa pretas e capuzes pretos e brandindo frascos inflamáveis alaranjados tomaram de assalto as ruas e apedrejaram vidraças e queimaram inúmeros corcéis do transporte coletivo – os hipócritas.

As boas guildas da imprensa aguentaram o quanto puderam, alertando a população do mui amotinado e mui rasteiro motim, ao qual os rebeldes sem causa, e cheios de vintes centavos, chamavam de levante. Valentes soldados, montados em corcéis blindados ou em alazões desabalados de carne e osso, e mesmo a pé, tentaram proteger o patrimônio público e não se privaram de cravar a borracha no lombo dos pangarés. Acontece, porém, que já era o fim do começo e a válida e vigente violência já não podia apagar a violência vil, a violência vândala. Quando o desespero venceu, a vileza veio até no coração de um dos nobres cavaleiros prateados. Ele pôs a faceira face para fora de sua fortaleza, viu as hordas descontentes, perguntou o motivo e teve como resposta que o povo não tinha dinheiro para a passagem. O cavaleiro se acovardou e passou o pronunciamento para a sua esposa, que foi até a janela e disse:
“Não têm para a passagem de ônibus? Pois que peguem metrô”.

Aí, de fato, acabou o fim do começo e começou o fim dos fatos, o fim dos tempos claros e prateados e brilhantes. O povo mastigou a conversa fiada dos revoltosos de meia tigela que não valiam nem vinte centavos, afiou os dentes na pedra pome de um rancor disforme, disse ter fome e foi ao pote com sede de camelo, abocanhando a mão amiga que sempre o alimentou e o carregou sobre a corcova. O bolo azedou, a classe média se embolou no meio, as hordas viraram ondas e multidões a exigir um mar de coisas, inclusive o fim da corrupção – logo de nossos cavaleiros, cara parda? Estava instaurada a desonra, a desgraça. Os palácios foram cercados, as esféricas guildas da imprensa foram vaiadas, os reis recuaram para não serem depostos. A Ordem do Sindicato Patronal de Transporte Urbano teve de se curvar aos reles reveles para não ficar a pé. E a desonra passou a reinar sobre todos nós.

Moral da história: o mal também vence o bem.

2.

“Quem conta, dos males desconta”, ela disse, ou, ainda, “quem canta um canto, encurta um tanto”. Então levanta que lá se foi a história:

Era uma vez um mês seis. A metade exata do ano, diga-se de passagem. De certa forma, foi num rabo de foguete. Da outra forma, não terminou de passar. Ou seja, não cagou nem desocupou a moita. Porém, todavia, no entanto, fez um merdelê e deixou a moita pelada e a gente de calça arriada, sem nenhuma folhinha pra limpar a bunda. Mas porra, isso aqui é uma fábula, não é de bom tom essa lábia de intelectual carioca lambão metido a malandro labudo. Pois vamos de novo:

Era uma vez um mês seis. Antes disso, no dia 23 de março, no rajado reino de Porto Alegre, a corte municipal decretou que a passagem de ônibus ia passar de R$ 2,85 para R$ 3,05. Foi o mesmo que decretar o breu na Alvorada e descer o boléu no lombo da Lomba do Pinheiro. Muita gente achou que tinha algo de mágoa no rajado reino de Porto Alegre e saiu pelas ruas gritando pelo nariz. Duas semanas depois, a justiça, que é vesga e às vezes é válida, viu uma brecha, concedeu uma liminar, a tarifa caiu. E o povo foi feliz para sempre. Mas isso aqui é uma fábula, não um comercial de margarina. Vamos de novo e agora vai:

Era uma vez um mês seis e antes disso em Natal formou-se a Frente Contra o Aumento da passagem. Moleques de calça rasgada e cabeça rapada nos dois lados e meninas de saião e cabeça rapada de um lado só fumavam maconha, cigarros e escreviam cartazes contra a tarifa. Em Goiás, jovens do mesmo perfil quebravam berrantes e chamavam, berrantes, a população para queimar catracas. Em muitos outros lugares pairavam os ares similares de um espectro contrário ao aumento da tarifa de ônibus. E o furdunço chegou em São Paulo, o coração de cifrão petro e branco da nação.

Os donos das empresas de transporte diziam que o país ia quebrar sem o aumento. A paulistada, que pra muito carioca parece um bando de trouxa, deitou paulada nos busões, nas vidraças, nos PMs. Representaram. Depois o Rio, essa cidade feita de uma gente cheia de raça e pirraça, botou um milhão de cabeças na rua. A maior manisfestação do mês e da década. Como diria o paredão da Furacão 2000, demorou mas abalou. As avenidas foram tomadas, as pontes foram tomadas, os muros foram tombados e a rapaziada disse a que veio. Os donos das empresas de transporte tomaram no preju e a gente foi feliz.

E é como diz o outro: um, dois, feijão com arroz, foda-se o que vem depois. Os que estavam no poder não gostaram, chamaram de afronta contra a democracia. É pra rir, só pode. Tem culpa eu, seu impichado? Se o povo acabou manobrado, se os jovens ficaram apáticos, se os milicos saíram das tocas e ganharam os pátios, se os donos das empresas de transportes seguem montados no dinheiro, se o povo segue viajando enlatado e pagando caro, isso é fardo de outra fábula.

Moral da história: ema, ema, ema, cada um com os seus problemas.

3.

Era uma vez um Pedro Malasartes. Não era português, tampouco descendente mouro do Prestes João. Não, era nascido no Rio de Janeiro e não negava a origem: se achava muito malandro. Aos dezenove havia se mudado para São Paulo para estudar Ciências Sociais na melhor universidade do país. Era bom com palavras, mas preferia calar as desigualdades sociais e abraçou as boas artes: se filiou a um partido leninista, fez campanha para candidato desconhecido, integrou assembleias da UNE, ocupou reitorias e, num mês seis que era uma vez, lutou, venceu, quase morreu e se sentiu muito vivo com sua cabeleira de cachos em levante. O mês acabou, os anos passaram, o país endireitou-se e nosso Pedro desistiu da política porque já nasceu torto (e a coragem é uma fase, como a puberdade). Quase aos trinta anos de idade, careca, atolado como professor numa escola particular que não lhe paga seus direitos e não lhe faz bater o peito, ele resolve apostar na literatura e começa a dizer por aí que é escritor. Agora nosso Pedro Malasartes, que se sabe tanto perspicaz quanto paspalho, prepara um livro de contos inédito e inovador, cheio de crítica social foda,  para lançar no aniversário de dez anos daquele mês seis que foi uma vez – ideia muito original, ele pensa, e tem certeza de que as editoras vão pensar o mesmo.

Moral da história: não tem, mas se conseguir vender seu livro Pedro Malasartes promete inventar uma bem convincente, porque a freguesa tem sempre razão.

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