Leandro Reis
Como era de se supor, prezados colegas do Departamento de Estudos Avançados de Transcendência, a perna não lutou contra o cativeiro. Ela respirava, como uma perna ferida poderia fazê-lo, pelos rasgos que fizera no dorso do pé com os cacos de vidro. Não saberia dizer se aquelas novas guelras eram causa ou consequência de um novo aparelho de respiração inventado por ela depois de ter se exilado do Sr. X. Apresentada agora à dura faculdade de respirar, ela devia entender aquilo como um defeito da evolução. Me aproximei com cuidado e algum terror, erguendo um dos cobertores de pele de chacal que antes cobriam o corpo do Sr. X., estendido no sangue coagulado do piso. Observando seus movimentos mínimos, joguei o cobertor por cima da perna. Ela resfolegava, de forma cada vez mais longa e espaçada.
Tranquei o cadeado e fui finalmente cuidar do cadáver do Sr. X., que jazia sob os escombros da Placa de Similaridade. O cheiro terroso de sangue e morte tomava cada centímetro do Laboratório. Decidi ser sucinto. Arrastei o Sr. X. pela perna que lhe sobrava até a porta, e da porta pela rampa em direção à mata que ladeava a cabana. Tinha pegado uma enxada no depósito e tratei de usá-la, como alguém que faz uma horta. Alguém que por algum motivo empurre as plantas lá pra baixo e desloque a terra mais uma vez, agora muito rápido, recebendo a cegueira de um sol prematuro que brota detrás do vale, alguém que, retendo nas pálpebras o suor escorrido da testa, tenta não enxergar. Alguém que bate a terra, colegas, com os próprios pés. É o que os literatos chamariam de simbolismo.
Coisas como essas introduzem um senso de urgência em nós, colegas, e se é correto incorporar a dinâmica da pesquisa a seu método, concluí que devia seguir a intuição e voltar ao Laboratório. Com a ruína da Placa de Similaridade, nenhum instrumento do Laboratório era capaz de comparar a consciência da perna à consciência humana. Ainda era possível, porém, identificar alguma manifestação, algum indício de cognição. Apesar de todas as manifestações cognitivas inequívocas da perna, o Sistema de Escaneamento proporcionaria o que toda pesquisa anseia: dados, números, gráficos, provas de que algo vivo realmente vive. Nessas horas, preciso admitir, colegas, que nosso Instituto resvala perigosamente no misticismo da matemática…
Não tive dificuldade em acomodar a perna adormecida na maca e prendê-la com os cintos de contenção. As guelras com o número de série do Sr. X. cerravam-se e dilatavam delicadamente, marcando seu sono tranquilo. Pluguei os conectores dos cabos de Escaneamento na canela e liguei o monitor. Aos poucos, as linhas e as colunas se ajeitaram na tela de fundo preto, e à medida que eu movia os conectores pela superfície da perna, do tornozelo ao pedaço sobrevivente da coxa, surgiam pequenos pontos fluorescentes e informes, indicando manifestações de cognição. Tomei as notas necessárias, os horários, as coordenadas, a intensidade da luz de cada ponto. Nada daquilo me surpreendia. Enquanto o fazia, uma ideia tomava contornos na minha cabeça. Talvez a única ideia capaz de dar uma guinada nesta pesquisa.
Já tinha desconectado o primeiro plugue quando a perna acordou e começou a tremer. Não tive medo, pois os cintos eram mais do que suficientes para contê-la. Suas guelras abriam e fechavam com mais violência, ainda assim eu esperava e observava, sem deixar de me compadecer dela. E então o monitor, salpicado de sinais luminosos, começou a se alterar, tendo seu fundo preto perturbado não por pontos brancos e estáticos, mas por formas rebeldes, pequenas e crescentes chamas laranjas, como sóis proibidos. As chamas aumentavam e diminuíam, e a perna parecia responder, debatendo-se, com suas guelras absorvendo ar e expulsando um vapor quente, passando a produzir uma espécie de guincho, um sonido que as aranhas emitem quando são queimadas. Era seu canto fúnebre, colegas? Corri pelo piso gelatinoso do Laboratório até a outra extremidade, onde vasculhei o armário até achar o manual do Sistema de Escaneamento. Folheei-o rapidamente, examinei o índice, o glossário, as notas de rodapé, mas não havia sequer menção às chamas que surgiam no monitor.
E, como nasceram, com os guinchos da perna as chamas também morreram. Até os pontos brancos e estáticos do monitor se apagavam, enquanto a perna também silenciava e respirava mais curto pelas guelras. Depois de dias de combate, depois de se separar do Sr. X., ela não tinha mais energia para viver. Nosso objeto de pesquisa, que chegou a este Laboratório de forma tão espontânea, serpenteando pela floresta, da mesma forma nos deixava, agora imóvel e agonizante. A única alternativa era quase irreal, só na cabeça de um louco ou um obcecado seria levada a cabo. Justamente. Como dito seguidas vezes ao Sr. X. e a vocês, colegas, embora não precisassem ouvir, isto não é um hospital. Olhei para o piso rubro e rugoso e pensei que talvez não fosse mais sequer um laboratório. O monitor mostrava apenas uma tela preta, inconsciente. A perna dormia e suspirava pelas guelras, e cada contração dos rasgos podia ser seu último ato. Ela precisava de um novo hospedeiro.
O equipamento indicado para a intervenção que eu planejava seria a Câmara de Superexposição. Ouço o arrastar de suas cadeiras, colegas, o arrancar de seus cabelos e jalecos, quando anuncio meu intento. Sentei na base da Câmara e estiquei minha perna; dobrei a calça até o início da coxa, apliquei uma dose de anestésico apenas suficiente para não desmaiar de dor, uma vez que, sendo o comandante e único colaborador desta pesquisa, era necessário permanecer consciente e alerta. É claro, colegas, que nesse momento veio à minha cabeça o caso do Sr. Z., o tristíssimo caso do Sr. Z., completamente carbonizado enquanto utilizava a Câmara de Superexposição por seu braço ser muito curto e não alcançar o botão de emergência. De minha parte, colegas, diria a vocês que sou mais alto que o Sr. Z. e que eu teria pretensões outras.
De qualquer modo, embora carregue com orgulho o sacerdócio desta pesquisa, julguei prudente amarrar minha mão esquerda na haste da Câmara. Não podia correr o risco de sucumbir à dor e, num arroubo de desespero, interromper o procedimento e sair correndo. Simulei o movimento do braço direito até os botões, me certificando da distância até eles e da facilidade com que poderia iniciar ou interromper as ações da Câmara. Fechei a tampa e programei o tempo de superexposição para muito além do recomendado, tendo que responder ao questionário de segurança naquela posição desconfortável, forçando o pescoço para cima, sentindo os músculos do abdome querendo ceder, e, pior, mentindo para a Câmara. Inocente como são as máquinas, ela tudo autorizou, e o procedimento podia começar.
No começo, era como um formigamento, que ainda não vencia a barreira do anestésico. Depois, aos poucos, a luz branca umedeceu a pele e a envolveu em nuvens de vapor cinza e denso. Senti o cheiro de pelos queimados e imaginei que o procedimento começava a se desenvolver. A tela da Câmara avisava que a temperatura no interior estava um nível acima do recomendado para trabalhos de rotina. Parecia que o anestésico chegava ao seu limite, e minha perna ardia em dores inconstantes, que atingiam certos picos antes de desaparecerem pelos próximos segundos. Eram segundos muito breves e cada vez mais breves até não existirem mais. Gotas fumegantes caíram no piso do Laboratório e reconheci naquelas pequenas piscinas minha pele derretida. Deitei a cabeça na maca em resignação, sem lutar contra os pontos brilhosos que surgiam nas vistas diante do ocaso do meu corpo. Mergulhei num abismo oco enquanto a dor se intensificava apesar de longe, como se eu pudesse senti-la num pedaço já separado de mim. Pedaços não têm validade, quem morre são as pessoas. Como o Sr. X., somos hospedeiros obsoletos.
As nuvens de vapor que engoliam minha perna se alastraram pelo Laboratório. Agora estávamos todos no céu, um céu nublado e quente e úmido, como deve ser o inferno. De longe ouvi um rastejar vindo do canto do Laboratório, onde estava a gaiola com a ex-perna do Sr. X. Fiz força com os olhos para enxergar através da fumaça, mas não vi nada além das nuvens opacas tremulando acima do piso. Lembrei, colegas, que todo órgão passível de humanidade pode reter a consciência e, portanto, aprender, como a perna do Sr. X. aprendeu a rastejar para salvá-lo da morte na floresta. Nesse ponto percebi que a dor sumiu. E que não sentia mais nenhuma parte do meu corpo. Eu era uma consciência flutuante na neblina do Laboratório. Quando olhei para o piso, procurando a perna rastejante, vi um corpo inteiro tentando vencer o sangue coagulado que sugava no corpo como areia movediça, um corpo com o meu jaleco e sem uma perna. Me vi delirando, metido debaixo da maca, tentando remontar a Placa de Similaridade com seus escombros inúteis.
A dor voltou lancinante e minha consciência retornou ao corpo preso na Câmara de Superexposição. O procedimento estava terminado. Vi que meu braço direito estava desamarrado da haste, indicando que em algum momento tentei abandonar o processo. Ainda tinha ampolas com anestésicos no bolso do jaleco, e tratei de usá-las no pedaço da coxa ainda viva. Num segundo comecei a navegar no oceano narcótico da morfina. Levantei a tampa da Câmara e um pedaço disforme de carvão se projetou além do início da minha coxa. Agora eu precisava pensar em qual instrumento do Laboratório me ajudaria a implantar a ex-perna do Sr. X. no cotoco que me restava abaixo da virilha.
Com a fumaça dissipada, não tive tanta dificuldade em mancar pelo piso ensanguentado e repleto de entulho. A perna estava lá, dentro da gaiola, como eu a tinha deixado antes do procedimento. Mas não se mexia, nem respirava pelas guelras. Meus sentidos voltaram a se desfazer e não aguentei mais ficar de pé, talvez por agora só possuir um deles. Abri a gaiola e constatei o óbvio. A perna estava gelada. Talvez tenha sido a fumaça a intoxicá-la, talvez os ferimentos auto-infligidos para respirar tenham esvaído o pouco sangue que corria nas suas veias. Nossa pesquisa, colegas, tinha chegado a sua conclusão precoce. Deixei-me cair com as costas no piso. Soluços desbaratavam do meu peito.
Demorei muitas horas para me arrastar para fora do morticínio, desmaiando e recuperando a consciência, até chegar à cabana. Abria a porta enquanto o sol nascia detrás do vale, derretendo as lâminas de gelo que cobriam os pinheiros. Como toda manhã. E é este o momento em que me encontro, colegas, contemplando a paisagem imutável deste quadro idílico em que o Departamento de Estudos Avançados de Transcendência decidiu me incluir, finalizando este relatório cujas conclusões devo deixar para as próximas gerações do Instituto. Há tempo ainda – sempre haverá – para perturbar a beleza inerte da paisagem, aos poucos atravessada pelas formas verticais dos cavalos que se aproximam da cerca, fitando meus olhos. Pisoteiam, austeros, a terra que engoliu o corpo do Sr. X., e que há de engolir o meu.
