Passeio público

(Bruno Vicentini)








Os cachorros eram dois, e vira-latas. Ela os passeava todos os dias de manhã. Gostava de sair de casa bem cedo, logo depois de acordar, quando seu corpo carregava ainda a sensação do sono, e o dia, com seus infinitos afazeres, parecia ainda não ter começado de fato. O trajeto que percorriam era sempre o mesmo. Contornavam a quadra, que era bastante grande, no sentido anti-horário, ou seja, tão logo cruzasse o portão e saísse da casa, o grupo virava à esquerda, com os animais sempre à frente, puxando, desesperados, as guias. Também a duração do passeio era exata: quinze minutos, durante os quais os cachorros se atualizavam a respeito do mundo que existia lá fora, pra além dos muros do quintal, e aproveitavam pra esvaziar suas entranhas.

Mas um dia os cachorros (que eram dois, e vira-latas), tão logo cruzaram o portão e saíram da casa, viraram à direita. Ela não saberia dizer o que os levou a fazer isso. Talvez a culpa tenha sido toda sua, se, por um acaso, na hora de sair da casa, ela se distraiu com um pensamento qualquer, ou então se hesitou, por um segundo que seja, na hora de bater o portão, e os cães, quem sabe por não saberem lidar com a hesitação e os desvarios bobos da dona, puxaram então a guia pro lado direito, subvertendo, assim, o percurso já estabelecido. Mas talvez nada disso tenha se dado, e a culpa, não sendo, portanto, toda sua, devesse então ser atribuída a outra pessoa qualquer, e não a ela.

Os cachorros, no entanto e nesse dia, viraram à direita.

A casa ficava no meio da quadra. Em direção à esquina, os animais pareciam ainda mais animados do que já estariam normalmente, ou seja, se naquele dia o percurso do passeio não tivesse sido alterado desde o seu início. Mijavam nas plantas da calçada e nas pilhas de tijolos e areia da vizinhança, só um pouquinho de cada vez, pra espalhar melhor o mijo por onde passavam. Reconheciam vagamente as coisas que iam encontrando pelo caminho e que, se aquele passeio fosse um outro, só encontrariam ao final do trajeto, farejando-as agora como se as farejassem pela primeira vez. Antes que os três chegassem à esquina, ela decidiu, encorajada pela curiosidade festiva dos cães, que a mera mudança no sentido do percurso não seria o suficiente. Era preciso mais. Na esquina, antes que ela mudasse de ideia e antes que os cães, guiados pelos cheiros familiares da quadra, virassem do novo à direita, atravessou sem pensar a rua, puxando, de maneira carinhosa mas firme, as guias na direção contrária, de modo que eles agora estavam desbravando territórios, pisando pedras do calçamento em que jamais tinham pisado.

Os cachorros quase não podiam aguentar tanta excitação. Na ânsia de aproveitar todas as novidades e de não deixar nada passar batido, os dois se topavam, trombavam um no outro, embolavam as guias que não paravam de puxar, desesperados, em todas as direções possíveis, e que os prendiam à mão teimosa da dona. Novos muros, novas plantas e pilhas de tijolos e areia foram aparecendo pelo caminho, que levava a uma avenida muito movimentada pouco mais à frente. A nova quadra era ainda maior que a quadra anterior, a de sempre, e tinha muitos cheiros desconhecidos. Mas logo uma nova esquina se aproximava, e a dona, sem saber qual nova aventura poderia oferecer tanto aos cães quanto a si mesma, resolveu então soltar as guias.

Pensava ela que os cães, que a puxavam como a um trenó no gelo desde que tinham saído da casa, apreciariam a completa liberdade que ela lhes ofertava. Mas não foi bem assim. A verdade é que os animais não sabiam o que fazer com aquilo. Os dois pararam de pronto, e um dos vira-latas chegou a chorar baixinho. O outro até ensaiou uns passos livre da dona, mas depois, hesitante, voltou-se de novo pra ela e se sentou nas patas traseiras. Por um momento, que poderia ter durado pra sempre, os três ficaram ali, encarando-se, os cães com a língua pra fora, parados na calçada.

Ela se abaixou e conferiu se os cadarços estavam amarrados.

Em seguida, se levantou e saiu correndo. Os cães vieram em seu encalço, seguiam-na de bem perto. Por mais que não olhasse pra trás, ela os percebia logo ali, podia ouvir o som de suas patas batendo na calçada, num galope canino. Ela cruzou mais uma esquina, e depois outra. Quando entrou na avenida, as lojas ainda abriam as portas, e os vendedores pregavam cartazes e carregavam caixas de papelão, colocando-as pra fora. Sem parar de correr, ela abriu o zíper da jaqueta. Tirou a camiseta que vestia puxando-a com violência por sobre a cabeça, antes de atirá-la num canto qualquer do passeio, onde ficou caída. O sutiã foi um pouco mais difícil, mas ela conseguiu arrancá-lo com a mão direita, erguendo a esquerda em direção ao céu. Enquanto corria, seus olhos procuravam um carro robusto, um caminhão, quem sabe, ou no mínimo uma van escolar, uma picape, algo que fosse muito pesado e que estivesse se movendo muito rápido e em cuja frente ela pudesse se atirar, antes que o dia, com seus infinitos afazeres, de fato começasse.

Deixe um comentário