Queixo-me às rosas

Leticia Eboli

“Mas que bobagem, Anna. Claro que você pode ir à piscina. Toma aqui um absorvente. No caminho do clube a gente compra um OB.”

O xixi no papel tinha saído vermelho. Um vermelho ranzinza, que em nada lembrava o molho à bolonhesa da macarronada do último sábado do ano. Devia ter uns sete, com competência para encostar só o peito dos pés no chão quando sentada na privada, na primeira vez que senti esse cheiro no banheiro dos meus pais. Como um peixeiro, minha mãe embrulhava o absorvente sujo na folha de revista. Como na peixaria, o cheiro forte seguia morando na gente, entre o nariz e o palato. 

Aproximei o papel do meu nariz, para mergulhar na pororoca da memória com o presente. A vontade de provar parou na imaginação aflita do encontro da língua com o tecido. Olhei para a pequena poça da calcinha e fiquei presa no meu próprio reflexo ponderando o que haveria na outra margem. A porta do banheiro desembocava no corredor central da casa, um cruzamento mal projetado para a intimidade. Masturbação, gargarejo ou chupão. Nada passaria incólume.

“Mãe, faz uma trança por favor”. E minha mãe trançava meu cabelo para a festa à fantasia enquanto mais umas dez amigas se arrumam histéricas no meu quarto. “Anna, que horror!” Meu pai se materializou ao meu lado em sua versão bufante quando viu o hematoma maior do que uma barata voadora na minha nuca. Fiz a hippie e saí para a vida como se no dia seguinte não houvesse sermão. 

Esse drama sanguíneo só aconteceria uns 48 ciclos menstruais depois da estreia do sábado ácido com notas de sangue. “Ela tem que aproveitar para crescer tudo o possível antes da menstruação”, disse o endocrinologista que me acompanhava. Presa pelas minhas canelas, a calcinha suja se transformou em linha de chegada. Fim. Do sonho do 1.60 próprio. Do peito próprio. O começo de um crediário de prestações eternas, talvez eu nem soubesse na época o que era menopausa. 

Com a bunda doendo com marcas de privada, era hora de me levantar. Deixei a calcinha deslizar, a pesquei com os dedos dos pés que, com sarcasmo de frieira, se livraram rapidamente jogando a bola para as minhas mãos. Caminhando com as pernas bem fechadas com medo de virar rio, arrastei meu corpo franzino pelo corredor até a cozinha. 

“Mãe, fiquei menstruada” – falei com o desânimo da vaca na imagem do Globo Rural da TV. 

“Ahhhh, minha filha” – Ela se levantou colocando o jornal de lado, me abraçando com sua nuvem de cigarro e alegria. 

“Nossa, mãe que saco. Vai ser isso todo mês?” – Resmunguei apontando para a calcinha suja. 

“Minha filha, faz parte da natureza. Seu útero. O corpo mudando… Você agora é uma mocinha” – Ela disse indo na direção do seu banheiro esperando que eu a seguisse. 

Eu permaneci. 

“Vamos, depressa. Se não, você vai ficar pingando, ainda mais sem calcinha” – Falou como as mães falam para infantilizar os filhos. 

“Seu útero agora vai todo mês formar essa casinha de sangue. Um dia ela vai gestar um bebê, a mãe natureza é sábia, né?“. – Ela continuou, agora com o tom de entusiasmo da avó que seria duas décadas depois. 

Não era justo escutar sobre útero, casinha de sangue, gestar quando na linha do tempo das falsas crenças a gente ainda está mais perto do Papai Noel do que da Meritocracia. Queria que a natureza fosse pro inferno cuidar dos seus e que devolvesse minha mãe para mim, de preferência muda. 

“Mãe, você promete que não vai contar para ninguém da família?” 

“Mãe, ninguém! Entendeu?”

Ela estava ocupada catando no armário os absorventes. 

Em posse do meu primeiro tijolo íntimo e de uma calcinha limpa, voltei ao banheiro desejando ser salva por raios de uma chuva de verão que melassem à ida ao clube logo mais. Retirei a fita adesiva da cola para o fundo da calcinha. Me vi nas mãos com o papel fino escrito “Sempre Livre” e o joguei no lixo desejando morte ao criador desse nome. Deve ter sido semeada ali a vontade de fazer publicidade, por pura vingança. Colei a antítese da liberdade entre as minhas pernas e abri a porta do banheiro como uma cowboy com medo de tombar do cavalo, sem saber que estava perto de um novo embate. 

“That’s my girl” – escutei o grito animado na voz do meu pai. 

“Que inferno” – devolvi com um urro

“Filhota, parabéns!”- Largou a bolsa de tênis perto da entrada, vindo em minha direção munido. 

Um buquê de rosas vermelhas. Com direito àquelas flores brancas e matinho verde para dar volume e um laçarote vermelho-sintético. 

“Não quero isso. O que vocês estão comemorando?” – nessa altura já eram ele e minha mãe mudos diante da minha reação em alto som “Que inferno!”

Meu irmão acordou no quarto ao lado, colocou a cabeça pra fora do quarto adolescente. O mínimo necessário para ler a situação, me dar aquela risada sacana e voltar a dormir. 

Fui pro meu quarto esbravejando. Bati a porta, me deitei na cama com lágrimas de cloro. Hoje não iria brincar de quem catava mais moedas no fundo da piscina do clube. Como a menina-peixe, como era chamada, viveria? Meu pai insistiu em me chamar, até se cansar colocando o buquê na frente do quarto e passando o cartão por debaixo da porta. Na ausência de moedas, catei as palavras: 

“Minha mocinha querida: estreou hoje a mulherzinha. Mais bonita, charmosa e inteligente que eu conheço. Como se não bastasse, é minha filhota também. Para ela, flores e beijos do admirador e papai.” 27/12/96

Chorei ainda mais. O ódio dos sem autonomia seguia agora ao som de “Anna, se veste, minha filha, vamos logo pro clube”.

Só voltaria a ganhar rosas vermelhas 72 ciclos menstruais depois. O primeiro namorado cachorro, me chifrou e fez uma retomada retumbante a base de laxante: buquê de rosas vermelhas, deixado na portaria com pedido de desculpas. 

“Você é muito otária mesmo. Já vi esse filme um milhão de vezes, o cara é o maior canalha. Que sedução barata. Anunciou puto o meu pai sendo portador da encomenda na portaria. 

Dessa vez não recusei o buquê. O ciclo se repetiu: corna de novo, porém tão aliviada pela menstruação alcançada, que nem queixei-me às rosas.

Deixe um comentário