Paro em frente à vitrine da loja de tênis pela terceira vez na semana. Vejo o modelo Sk8-Hi, que uso desde que meu pé alcançou o tamanho trinta e cinco. Namoro seu aspecto robusto, reforçado pela lona preta que aparentemente mantém o formato por causa dos pespontos com linha branca. Levo longos segundos acompanhando a faixa de jazz também branca, na lateral a partir do meio, que me lembra asas de Mercúrio. Um dos pés mostra a sola, cujos pequenos losangos imprimem a marca a cada passada que dou com o único calçado com que saio à rua desde que deixei a casa de meus pais. Estou com dinheiro e cartão, mas não entro na loja. Continuo andando até o ponto de ônibus. É quarta-feira.
Chego ao apartamento no meio da tarde. Não tenho vontade de comer. Mesmo assim, descongelo uma lasanha enquanto abro o Goldman-Cecil para a prova de Clínica Médica II amanhã. Uma leitura é suficiente, minha capacidade de memorização está virando lenda entre os quintanistas. O Gustavo deixou três recados de voz no celular. Preguiça de ouvir. Respondo com mensagem de texto: “Estudando muito. Vou andar para descansar a cabeça”.
Visto a mesma roupa que usei na faculdade, incluindo a mochila. Devia ter posto tudo para lavar, já que fiquei um bom tempo no ambulatório, mas dane-se. O tênis eu não ia trocar mesmo, é o único que tenho. Caminho rente ao muro da ferrovia. O bairro da Barra Funda está em transformação, como a cidade toda, mas a rua da Várzea é uma exceção. Não há nada mudando ali, nada para ver, o que me agrada, porque não sei se quero ver algo de novo. Uma árvore espremida no concreto, um galpão decadente ao lado do outro. Passa um carroceiro devagar, nenhuma bicicleta na ciclovia ainda pintada de vermelho. Só de quando em quando o barulho de um trem rompe a leseira, estremecendo a calçada alguns segundos.
Passo por vários sem-teto acampados. Além do viaduto, o muro baixo amplia o horizonte para trezentos metros, dá até para ver os arcos do Memorial do outro lado dos trilhos. Um pacote está assentado sobre o tijolo sem reboco. A luz do dia diminuiu, a da rua ainda não foi acesa. Ainda assim, consigo ver que é um gato. Escuro, sem rosto, voltado para si mesmo como uma concha de pelos. Passo direto por ele, nunca tive qualquer interesse por bichos. Paro depois de vinte passos, sem atinar a razão. Não quero avançar, tampouco desejo recuar. Hesito. Acho esquisito quando meus pés refazem o trajeto até o animal no muro. Estendo a mão, ele estremece de leve, mas permanece encapsulado.
Num repente, agarro seu cangote e o jogo no fundo da mochila. O bicho não produz nenhum som. Continuo meu caminho até a esquina do terminal, o ponto em que a rua muda de nome e de personalidade. Dali volto para prédio de três andares sem elevador onde fica o apartamento que meus pais alugaram para mim. Ando devagar porque sinto que a sola do tênis direito começa a descolar.
O Gustavo está sentado no degrau da entrada.
“Estava onde?”
“Descansando a cabeça de estudar. Te falei no recado.”
“E você estuda agora, é? Não vive dizendo que não precisa?”
“Hoje precisei.”
Abro a grade da rua e tiro o tênis estourado no hall. Subimos as escadas até o segundo andar, eu manquitolando.
“Ainda não comprou o tênis novo, né?”
“Não tive tempo.”
“Sei.”
No apartamento, jogo a mochila sobre o sofá. O gato dá um berro e rola para o chão. Fica me olhando sem ação, parece que não tem forças para correr.
“Que é isso? Estudando veterinária agora?”
“Uma amiga pediu para eu cuidar.”
“Cuidar de um gato de rua? Olha o estado desse bicho.”
“Você veio até aqui para me ver ou ficar fazendo pergunta? Foram meia dúzia até agora.”
“Tá contando?”
“Sete.”
Gosto da companhia do Gustavo. Nós nos damos bem, dificilmente brigamos. O sexo é bom quando rola. Na maior parte do tempo que passamos juntos, temos um joystick na mão.
Ele quer jogar Fifa 22, proponho Power Wash Simulator. Não discutimos por isso, mas ele me diz que sabe quando estou mentindo e que preciso devolver o gato. Apesar de encardido, tem coleira, ele me informa. Vou conferir o nome: Penélope.
“Ih, é gata.”
“Pior ainda. Vai ver tem até cria.”
Resolvo faltar à aula no dia seguinte para devolver a gata. Saio de chinelos com ela na mochila. Chegamos ao muro à beira da ferrovia, passamos pelas barracas montadas sobre o pavimento sem fazer ruído, eu e ela, e continuamos nosso caminho. Já no limite com a Água Branca, paro à beira do buraco da linha nova do metrô. Pouso a mochila aberta. Penélope põe a cabeça para fora. Descubro que tem olhos amarelos. Enxoto-a para um monte de terra recém-retirada. Ela senta sobre as patas e me olha fixamente. Viro as costas e começo a fazer o caminho de volta.
Do outro lado da rua, vejo que ela permanece no mesmo morrinho de terra vermelha. A seu lado, há outro gato, este malhado de marrom e preto. Atravesso de volta e enfio os dois na mochila. Eu correria para casa se as Havaianas permitissem.
Acordo sentindo cheiro de café. Não sabia que o vizinho fazia café. Aliás, eu nem sabia que tinha vizinho, porque costumo sair muito cedo para a faculdade. Não hoje. Mando mensagem para o Gustavo dizendo que vou passar uns dias com meus pais no interior. Mastigo a bolacha salgada de toda manhã e vou para a rua. Vontade de tomar café. Ontem à noite, em vez de limpar paredes no videogame, cruzei no Google “gatos” e “praça” para descobrir que existe uma Favela do Gato aqui perto, na beira da Marginal.
Saio de casa de jaleco, levando a sacola de pano que comprei. É grande, vermelha, com uma cordinha transpassada na boca. Meia hora de caminhada e, no lugar de barracos, encontro vários prédios de cinco andares pintados de verde berrante. Uma menina trepada numa árvore diz que não tem favela ali e que o lugar se chama Parque dos Gatos.
O conjunto habitacional é enorme. Dou a volta até encontrar um gato fuçando o lixo acumulado num canto. Agarro o bicho pelo cachaço, mas ele se vira no ar e crava as unhas no meu peito. Consigo conter o grito. Solto suas garras da minha pele com cuidado e cubro sua cara com um lenço molhado de clorofórmio. Uma médica de jaleco e chinelo de borracha carregando um saco vermelho no Bom Retiro pode levar um pouco de anestésico no bolso, não pode?
Em casa, confiro no celular que Gustavo gravou mensagem aflito. Conta que falou com meus pais, que não sabem por que não estou mais indo à faculdade. Pergunta o que está acontecendo. Ele vive fazendo perguntas.
Hoje é quarta-feira. Fui ao mercado e, além do pó de café, trouxe carne moída, cebola, sal, óleo e tudo que é necessário para um bom ensopado. Os primeiros gatos só comiam lasanha, que era só o que eu tinha no freezer. Faço uma bela faxina na cozinha, incluindo a geladeira e os azulejos, limpo as panelas e cozinho com gosto. O perfume de lavanda é superado pelo cheiro da carne desfiada que distribuo em pratinhos de papelão sobre o piso de tacos amarelados na sala. Os gatos comem com vontade. São brancos, pretos, cor de cinza, rajados como pequenos tigres e até um vermelho. Eles me encaram com olhos azuis, verdes, amarelos e alaranjados. Acho que mais tarde vou sair para comprar um tênis cor de laranja. E um amarelo e um roxo.
