Se tem gente que dá atum pra gato

Capaz de ter alguém, no teu prédio mesmo, que passa Whiskas sachê na torrada. Alguém que diria diante de teu sorrisinho de asco: não é ruim não, só o de frango que não presta. O melhor é o de cordeiro, mas o de salmão, se fizer um molho de maracujá, fica de servir pra visita. Alguém que já não recebe visita. A casa espirrando pelo e metade de São Paulo com rinite, a outra metade toda vestida de preto, como faz pra ter visita?

Alguém que chegou até a comprar aqueles rolinhos adesivos  da 3M. Passava na calça sem problemas, mas na blusa, a parte do peito, agoniava demais. Deitava a blusa na cama antes de vestir, passava de um lado, virava, e de novo, e de novo, sem esquecer de antes passar no lençol. Uma hora chegou à conclusão de que o processo todo toma muito tempo. Alguém que começa a ir na portaria peluda mesmo, e depois no shopping e no trabalho. Isso quando tinha trabalho. 

Alguém que usa  unha stiletto desde sempre, bem antes da Beyonce. Que se não tem lixa, dá seus ajustes no arranhador. Que parou de depilar e vem achando que o bigode há de encontrar a sua função. Que adora a canetinha de laser do menino do prédio da frente. Que derruba os enfeites da prateleira por gosto. Que toma água da torneira abaixada no balcão do banheiro ou da cozinha, e sem usar as mãos. 

Alguém que tentou fazer de outro jeito. Tentou uma vida fora da coberta, tentou botar pra frente  os olhares do elevador. Alguém que já chegou a preparar um salmão de verdade no dia do aniversário, quando deixou um bilhete embaixo do teu tapetinho. Ainda deve tá lá, ninguém nem abriu. Que pensou que a resposta do único convidado era sim, quando tu mandou um bom dia cheio de dentes. Que garantiu marmita de almoço e jantar pra semana inteira com o que sobrou da tua ausência. Que, nessa semana mesmo, desistiu de comida de supermercado. 

Alguém que a partir daí mergulhou sem freio no Catnip. Lá do pet da Barão de Tatuí. Permuta. O único freela que ficou. Alguém que se vira. Que na falta de dinheiro para o encanador, divide a caixa de areia com os gatos. Que na falta da Netflix, gasta as horas com a bolinha de descanso de tela do Windows. Que na falta de energia, carrega computador e lanterna na tomada do hall. Alguém que entende de falta. 

Mas não fique com pena não, tem a parte boa. É alguém que aproveita o sol da manhã mais do que tu . Que aproveita o próprio corpo mais do que tu. Que não vê a cama vazia há anos. A noite inteira dengosinha, agarrada com um monte de bicho. Alguém que pensa em ti com o movimento dos gatos entre as pernas, toda lambuzada de Whiskas. Que já não se importa com as calcinhas que nunca mais deixaram de cheirar a cordeiro. Tu, no melhor dos teus esforços, não seria capaz de competir com sete línguas ásperas. Alguém que retribui o carinho lambendo os corpinhos não castrados. Alguém que no andar de cima, justinho em cima da tua cabeça, acabou de vomitar uma bola de pelo. É bem capaz. 

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