Leandro Reis
A festa vai muito bem e talvez por isso, confiando na longevidade do sucesso, um homem se levanta do sofá de forma brusca e passa a imitar um chimpanzé para os três agregados à sua frente. É seu ato – segundo algumas versões similares – que vai desencadear toda a ruína. Por enquanto, os três agregados riem quando o Chimpanzé se coça e dá pequenos saltos mesmo com uma taça de champanhe numa das mãos. Sai das caixas de som uma música de elevador, abafada pelo volume das conversas.
Irene está sentada na outra ponta do extenso sofá junto com Jota, Enzo, Jana e Cláudio, um ex-namorado de Jana, que retornou à família como namorado de Gina, e quer ver se Jana se incomoda com sua presença, o que ela não deixará transparecer. Irene está com um vestido corpete longo e violeta, e ficar presa naquela posição dá a impressão de uma princesa decadente posando para um quadro, por muitas horas, simulando nobreza. E Mimi no seu colo como uma boneca macabra, pintada sob um fundo escuro. Irene vê no Chimpanzé a desculpa perfeita e se levanta tão bruscamente quanto ele, fingindo animação e tagarelando com Mimi e forçando Mimi a se animar também.
Mimi não dá a mínima para o símio. Há algo mais importante acima de nós, ela pode ter dito a Irene quando aproximou a cabeça de seu ouvido e olhou para o teto. Lá no alto um galho de plástico se pendura por duas hastes parafusadas no teto, e sobre ele um pássaro mecânico colorido de olhos arregalados bate as asas e grasna, sem sair do galho, animado pelo vento propagado do jardim. Mais convidados chegam, e a porta aberta aumenta a corrente de ar prolongando a vida do pássaro. Pelo reflexo da cristaleira, Irene vê entrar o cavanhaque branco do Lima, cujos dedos torcem os fiapos como uma máquina de algodão doce. Ela se adianta e carrega Mimi para o jardim.
Debaixo de uma tenda branca, mesas e cadeiras de vime com almofadas vermelhas acomodam senhoras com leques diversos e homens de testas suadas. Entre as mesas, destacam-se grandes arranjos de flores e balões dourados que formam a palavra HARMONIA. Gina e Cláudio posam para seus celulares. Irene dá a volta na tenda e se senta com Mimi numa cadeira de balanço sob um pequeno ipê, num ângulo em que Mimi ainda consegue observar a vida cíclica do pássaro mecânico.
Um pouco afastados da tenda, Gina e Cláudio andam abraçados. Ela aponta para as plantas do jardim como se contasse a história da casa, das acácias amarelas, do pai que as plantou esperando que crescessem muito mais e fizessem sombra na piscina. Cláudio ouve Gina e olha através dela para o interior da casa, onde estão o Chimpanzé e Jana, conversando e espetando petiscos e enchendo as taças com as garrafas de champanhe, vinho e sidra abertas na mesa. Gina pergunta para onde você está olhando, Cláudio responde estou ouvindo a música, tentando reconhecê-la, mas as pessoas aqui falam muito alto.
Porque se fala alto nesta casa, Helena surge de vestido branco e longo coberto de renda dourada e uma estampa imitando uma pintura renascentista no busto, anunciando aos berros, primeiro na sala, depois na cozinha e na copa, depois no jardim e na borda da piscina, que está na hora do amigo secreto. Ela faz um sinal para o Chimpanzé desligar a música e recolher as garrafas da mesa. Os convidados começam a pegar seus lugares e dispõem sobre a toalha bege caixas e embrulhos coloridos. Irene é a última a chegar à mesa, e só pode se sentar ao lado de Lima. Helena começa a falar.
O meu amigo secreto é um homem, até onde a gente sabe, ela ri, e eu não conheço muito ele, até onde eu sei, porque na minha profissão a gente não lembra de todo mundo, diz a profissional, se bem que com um país em frangalhos é impossível exercer a minha profissão, diz a ex-profissional. A gente conhece muita gente e é normal numa família como a nossa, família italiana. (Helena esvazia a taça e a enche até a borda). O meu amigo secreto, (ela tenta recomeçar tomando um gole da taça), o meu amigo secreto, ele é um homem de poucas palavras, e quando fala, fala baixo, parece que nem quer que o ouçam, ao contrário da nossa família, ele não entende que aqui precisa gritar pra ser ouvido, o meu amigo secreto. Ele pode ser qualquer coisa, aliás alguém aqui sabe a profissão dele?, depois vocês me respondem, agora vocês não sabem quem é, eu mesma nunca ouvi ele falar sobre o trabalho, só sei que viaja muito, agora vocês já devem estar adivinhando.
Alguém nota – talvez Jota, talvez Enzo – que Gina e Cláudio continuam no jardim, perto da borda da piscina. Estão um pouco afastados e suas expressões sugerem uma conversa ríspida. Lima mexe no cavanhaque e olha para Irene, hesitando. Mimi contempla o pássaro sem vida.
O meu amigo secreto é igual uma vizinha de mamãe, viajava e o marido ficava pra trás, mofando junto com a casa, ele e os móveis e a casa úmida que fazia medo. Com o tempo ela mesma acabou doente, ficou meses na UTI, recebeu extrema-unção, não morreu, e nem assim emagreceu. Mas o meu amigo secreto já é magro. (Helena enche a segunda metade da taça; agora tem as duas mãos ocupadas, a outra com a garrafa de champanhe). Ele anda por aqui com a magreza dele, com a mudez dele, como se uma acompanhasse a outra. E não fala, não fala nada…
Do jardim sai um barulho seco, propagado até o interior da casa. Helena para de falar. Mimi esquece o voo inerte do pássaro que grasna lá do alto e olha para o jardim e bate palmas e ri diante de outro estampido. Lima e Irene finalmente se entreolham. Helena faz um sinal com as sobrancelhas e o Chimpanzé se levanta da cadeira e aperta o passo. Na borda da piscina, atrás de um arbusto de acácias amarelas, Gina parece desdenhar de um cacoete de Cláudio, cujos braços nervosos balançam como se tentasse voar. Os convidados já não prestam atenção em Helena, olham para o casal, mas os barulhos não vêm de lá. Helena tem lágrimas nos olhos, mas ninguém nota. Jota e Enzo se levantam.
O meu amigo secreto… talvez ele fosse o seu tipo, Irene, se ele já não tivesse uma amante.
Ninguém ouve. Mimi olha para a cadeira de balanço. Atrás dela, há uma espécie de depósito ou despensa. O Chimpanzé estaca na frente da porta e olha para Helena, elaborando um sorriso que não chega a sair. Não sai porque agora são três ou quatro estampidos seguidos irrompendo da porta do depósito. O Chimpanzé se agita e ergue os braços e convulsiona o corpo inteiro e Mimi ri de sua imitação de homem. Jota e Enzo se aproximam dele com uma corrente e um cadeado, e juntos prendem as vigas da porta que começaram a esfarelar perto do trinco. Lima aproveita a debandada dos convidados para o jardim e tenta pegar Mimi do colo de Irene, que lhe dá uma trombada. Lima perde o equilíbrio e cai sobre a cristaleira, e nesse momento todos os convidados ficam indecisos, pois não se pode distinguir a origem dos barulhos, menos Mimi, que segue fitando o depósito e os três homens segurando a porta com o peso dos corpos.
As lágrimas brilham no rosto pálido de Helena. Ela pega algumas caixas de presentes na mesa e corre pelo jardim tentando distribui-las, mas tropeça na barra do vestido e cai. Do chão, ela consegue ler a palavra HARMONIA sobrevoando o arranjo de flores na tenda. Gina empurra Cláudio na piscina. Começa a chover.
Jota e Enzo confabulam enquanto seguram a porta com as costas. Movendo as mãos sob certos padrões, sugerem ao Chimpanzé que vá buscar uma ferramenta ou um instrumento musical ou uma arma branca ou de fogo. Alguns convidados, entre eles Irene e Mimi, se incomodam com a chuva e vão para debaixo da tenda. Cláudio está entre eles, mas o fato é que a chuva não lhe importa, pois acaba de sair da piscina. O pássaro mecânico grasna sobre Lima e os escombros da cristaleira. O Chimpanzé corre do jardim até a casa, olhando de esguelha o corpo inerte de Lima. Ele para diante de uma cômoda na copa e abre uma gaveta, enquanto a porta do depósito continua a ser surrada com insistência. Os convidados gritam para o Chimpanzé se apressar, alguns acompanham Mimi e batem palma, como numa gincana.
Mas fica claro que o Chimpanzé não sabe o que está procurando. Qual seria o tamanho do utensílio que me mandam procurar, o Chimpanzé talvez pergunte, no seu tempo próprio de símio. Uma quina da porta se quebra e Jota cai de costas no chão do jardim. Enzo agora é o único a segurá-la, e pode ser que se pergunte porque ninguém mais vai ajudá-lo. A resposta é simples.
Não acho – como muitos declararam – que a performance do Chimpanzé desencadeou os fatos aqui relatados. Também não acredito no mau agouro do pássaro mecânico. A verdade é que, sob certas circunstâncias, o mal não tem escolha senão se revelar. Neste caso, o que falta dizer é que Lima solta um grunhido e exibe os braços cortados e volta a desmaiar; que Jana leva uma toalha para Cláudio; que Mimi sente fome e chora no colo de Irene; que o Chimpanzé olha para o pássaro. Que a porta cede.
