A sensação (texto de Carol Schettini) – mudando o texto você me entende?
A primeira vez foi em um banheiro químico de luxo, com bancada, pia, torneira. A luz acende sozinha ao fechar a porta. Entro. Olho no espelho. Observo minhas olheiras cor-de-cravo-de-defunto na minha pele de inverno. Tão branca que em alguns pontos as veias criaram vida própria, traçando um mapa entre meus poros. Estou hipnotizado pela minha imagem refletida naquele espelho de plástico de um pseudo banheiro quando a luz se apaga. O pânico. Suo. A batida do meu coração em compasso de samba. Quanto tempo dariam pela minha falta? Dariam pela minha falta? Levariam o banheiro embora comigo dentro? Esmurro a porta. Formigas correm sob minha pele. No meu cérebro, uma luz acende: a maçaneta. Abro a porta.
Preciso sentir uma vez mais aquela sensação. Voltando do bar, no elevador, sozinho, aperto o botão e tudo para. O formigamento volta. Com ele, uma bigorna cai sobre meu peito. Abro a porta.
Estou na Europa, vagando de cidade medieval a outra cidade medieval. Visito todos os castelos que encontro pelo caminho. Quero os detalhes, muros altos, torres, janelas pequenas, canhoneiras. Fossos, pontes levadiças. Numa tarde quente, em que o sol é uma tocha e briga para queimar qualquer coisa que fique a seu alcance, entro em um castelo num terreno bastante elevado. Subo ao último andar, pulo uma cordinha de uma escada, e chego na torre. Ninguém me vê. Olho pela janela. Ninguém lá embaixo. No alto daquela torre, nenhum móvel. Sou eu, o teto em forma de triângulo ovalado, as paredes de pedra, a janela sem vidro. Coloco minha mochila na parede. No chão, abro os braços e as pernas como num quadro de Da Vinci. Meu corpo torrado é como farinha mesclada à poeira do chão. Como um balão voando no céu da Capadócia sinto meu peito subir e descer. Sozinho, ali, aparece a sensação: o formigamento, a dor no peito, o nó na garganta. Meu corpo está invadido por paz.
De volta para casa, na madrugada, no elevador, apago a luz, aperto o botão e sinto: o formigamento, a dor no peito, toneladas de ferro apertando meu diafragma e uma bola de cuspe duro crescendo dentro da minha garganta. Abro a porta.
Me tranco no fundo do navio, na parte de baixo do casco. O ar é rarefeito, controlo com respiração de yoga, inspirando pelo nariz, de forma lenta e ritmada, criando uma sensação de bem-estar e relaxamento. Quando bate uma onda, o barco vira para um lado, eu rolo para o costado. Fico ali por dois dias. Sensação de ser parte de um todo aquático. Uma libertação com o formigamento, a dor no peito, a garganta tampada, um mergulho sem escafandro. Afogo.
Volto ao elevador cabineiro, paro, volta tudo mais rápido, o formigamento, a dor no peito, o engasgo, tusso para colocar para fora algo que está tampando minha garganta, a vista turva, me vejo como entrando em um túnel de luzes estraboscópica, abro os olhos e a porta.
No fundo da Igreja, há uma cabine. Um gabinete pequeno. Um lado é aberto. O outro, fechado. Fechado com furinhos para entrar alguma luz. Algum ar. Entro. Sento. Tranco a porta por dentro. Não posso ver se tem alguém do outro lado. Desconfio que se alguém se sentar ali, poderá me ver. Pela fresta da persiana de madeira. Há botões de luzes. Uma luz verde, para indicar que há alguém aqui do meu lado (não acendo). Há uma luz vermelha para indicar que tem alguém na minha frente (acendo). A missa deve demorar uma hora. Depois tem novenas. Posso ficar aqui um tempo. Um bom tempo. Trancado. Formigo, meu peito é acertado por um caminhão em fuga, um plástico tampa minha boca, os olhos míopes e no meio do cheiro de madeira, óleo de peroba, orações e pecado, estou vivo. Numa sensação de total pertencimento.
Dentro do elevador parado, formigo, choro, engasgo, tusso, embranqueço, suo, não respiro. Um prazer intenso. Igual quando me escondo em algum porta-mala ou baú na casa de estranhos. Preciso criar maneiras de sentir isso em casa. Na minha casa!
Por isso, todas as noites coloco o ar condicionado no mínimo. Fico pelado e me deito. Não sinto frio. Meus pelos do corpo não arrepiam. Estou deitado numa geladeira do necrotério. Quatro paredes geladas de metal. Escuro. Frio.
É uma sensação física: uma dor no peito, toneladas de ferro apertando meu diafragma, engasgo, tusso para colocar para fora algo que está tampando minha garganta, as coisas rodam na minha frente, embranquecem, uma televisão sem foco, agora falta o ar, um plástico é colocado sobre minha cabeça, por mais que eu puxe, ele não dissolve, puxo com força, ele entra mais e mais na minha garganta, encosta no crupe que me engasga; meu coração, enfim, para.
Morro. Mas, estou vivo.
