Água, terra e ar

A natação me deixou com ombros largos e o sol nos gramados dos parques conserva meu bronzeado desde os vinte anos. Raros homens de setenta mantém o corpo firme e quase sem barriga feito o meu. Não pensava que minha habilidade e umas poucas medalhas pudessem me salvar deste naufrágio na vida. Quando saltei do Royal Carebbean em mar aberto, senti os primeiros sinais de minhas performances indo por água abaixo. Poderia ter sido um ator de sucesso, até mesmo um atleta, mas vivi bem, num tempo que já nem sei mais contar, com meu trabalho de amar as mulheres.

                Foi minha investida como Almirante Nunes no cruzeiro para as Bermudas que me trouxe até aqui.  Ele é um personagem apaixonável e não foi diferente com Bernadete. Tínhamos combinado que, depois dos dias de repouso da sua plástica de abdome e da harmonização facial, faríamos a viagem. Não imaginava que ia encontrar Edna, Noemi, Susana e Eliane (era esse o nome?) no mesmo navio.  Eliane (ou Eliana? ou Elaine?), por outra coincidência, dividia uma cabine com Noemi, a cantora de casamentos e mulher com quem bati meu recorde em morar junto. Com Noemi, foram dez meses.  Às quatro mulheres e a Bernadete, precisei pedir dinheiro numa das minhas muitas fases sem emprego, todas vividas com intensidade. Minha vida é feita de intensidades e ausência de trabalho.

Na primeira noite no navio, achei que a participação de Noemi no show de Nilson, o tecladista, era um número ensaiado, mas ela encostou o rosto no rosto do músico só mesmo para alcançar o microfone de cabeça e anunciar minha presença na viagem. O público nas mesas se voltou para mim. Muitas mulheres me olhando e , por sorte, só as cinco me conheciam. Precisei levantar da cadeira e acenar como uma celebridade. A plateia toda respondeu. Até o Nilson dos teclados. Se eu já não soubesse da intenção de Noemi em me constranger e das possíveis complicações da minha presença no navio, teria me divertido com a situação. O tecladista voltou a tocar e mandou um ” My Way ” que encheu o ambiente. Bernadete vaidosa da minha companhia , afagava meus cabelos e descia as unhas pontudas até minha nuca. Então, pedi licença para ir ao banheiro.

Quando acordei na ilha, as javanesas que tocavam o meu rosto ficaram no sonho. Em vez delas, quem estava ao meu lado, era Ciça, mordendo meus dedos com a lentidão própria de um cágado. Alguma coisa no pescoço longo me lembrou Cecília, minha namorada gaúcha, e, por isso, o nome e a escolha do gênero. Não saberia dizer se a tartaruga de terra era um macho ou fêmea, mas minha opção só poderia ser pelo feminino. Algum sargaço saboroso devia ter se enroscado em minhas unhas do pé. O fato é que me afeiçoei às mordiscadas e aos seus olhos às vezes reclusos dentro do casco. Ciça passou a ser minha companheira silenciosa e suas visitas esporádicas traziam alento e alguma certeza de que não estava sozinho no paraíso perdido no meio das águas brasileiras. Pelo tempo de viagem, quando pulei no mar, estava ainda em meu país.

  Foi na companhia de Ciça que encontrei a gruta com piscina natural, meu falso gazebo num arbusto, forno de pedra, churrasqueira e o painel de arte rupestre que, se um dia me achassem, poderia valer alguma coisa. Não foi Ciça que me levou até o lugar, foi a busca por abrigo com a sua companhia debaixo do braço. Quando a coloquei no chão, parecia ambientada, caminhou até a área mais escura por onde nunca desci e então se recolheu num canto. No alto em que eu ficava, tinha uma boa vista para o mar que me forneceu corvinas, tainhas e linguados crus até eu conseguir produzir minha primeira fogueira. O aprendizado, dos tempos do escotismo serviu para alguma coisa. Meus pais e tios queriam mesmo é que eu me tornasse um bom menino seguindo aqueles ensinamentos. Não que eu fosse uma criança recheada de maldades, eu tinha muito amor e mais que tudo o amor pelas minhas primas, por mim e os meus desejos.                                 

 Foram poucas as vezes em que agi por água. O almirante era um personagem secundário perto das ações que empreendi por terra e ar como o Brigadeiro Valadão e o Coronel Vilaça. As meninas, que encontrei no cruzeiro, conheci em terra firme em salões de dança e barzinhos na Avenida Ibirapuera, antes da existência dos sites de relacionamento. Esta minha estampa de artista, que já não posso conferir sem um espelho, e o meu jeito com as palavras sempre ajudaram. Não posso reclamar dos confortos que tive a sorte de encontrar nesta ilha. A dieta de peixe, a tartaruga que prova as frutas antes de mim, a possibilidade de me reconstruir como pessoa. Talvez a Ciça, pudesse ser um outro animalzinho, uma cabra por exemplo ou um animal mais rápido em trazer notícias do outro lado da ilha. É de lá que ela volta a cada temporada que me parecem durar quinze dias. Conto os dias por risquinhos que faço na parede oposta das artes rupestres a cada amanhecer. Acho que a lentidão da tartaruga conseguiu me tornar um homem mais contemplativo e menos ansioso.

Depois de três desaparecimentos de Ciça, o meu tédio ao nadar, pescar, cozinhar ou dormir e a minha inquietação natural fizeram com que eu buscasse por alguma aventura diferente da luta pela sobrevivência e manutenção da boa forma.  Numa manhã em que acordei sem ela ao meu lado, deixei passar uns dez dias para me aventurar nas trilhas amassadas de capim que eu julgava serem de Ciça. Nossas velocidades eram diferentes e segui-la, como uma vez me ocorreu, seria impossível.

Calculo que fiz uma caminhada de mais de quatro horas depois do amanhecer e que seria entre dez e onze horas da manhã quando comecei a ouvir as vozes e risadas que vinham da praia do outro lado acompanhadas do cheiro de churrasco.  Pela minha contagem dos dias não era nem sábado nem domingo. Pelo volume das falas aumentado, deduzi que o encontro de pessoas em torno da carne era uma prática quase que diária naquele pedaço da ilha. Minha intuição não estava errada quando pensei estar acompanhado e por imaginar que Ciça dividia seu afeto com outros humanos.  

Busquei um lugar em que eu pudesse me sentar à sombra e entender qual o tema que juntava um grupo de homens ao redor da churrasqueira de metal e das mesas plásticas com cerveja. A conversa era em torno da compra e venda de uma mercadoria que só poderia ser droga e tinha a impressão de ouvir falar em polícia ou milícia ou delícia, em mulher e prisão. A palavra drone me fez olhar para o céu e não ver nenhum. Foi quando ouvi falarem em robô que me lembrei das visitas de Ciça e pelo tempo de minha ida mais os dez  dias de vantagem que dei a ela, a tartaruga já estaria de volta.

Olhei mais uma vez os homens. Eles pareciam despreocupados e seguros no assunto que tratavam.  Ciça não me saía da cabeça. As gargalhadas me assustaram a ponto de imaginar que eram para mim e que planejavam o jeito mais engraçado de me matar. Precisava de novo da segurança da minha caverna, do meu canto de sobrevivência que agora parecia ameaçado. A tranquilidade não poderia durar por toda a vida. Se não nadei para morrer na praia ia ser matado de outro jeito. E Ciça era o robô que me espionava ou vigiava o lado oposto da ilha.

                Cheguei de volta à minha área segura e ela estava comendo uma goiaba na porta da gruta. Que estúpida a minha desconfiança. Foi o medo que me fez pensar numa máquina em vez de um animal. Ciça parou de morder a fruta quando me viu chegar. A mesma íris alaranjada, as mesmas patas tortas meio recolhidas. Foi um alívio. Só na manhã seguinte, depois de cair extenuado na volta da jornada e vê-la ainda ao meu lado é que me veio a ideia do chip. Ciça não era um robô , mas carregava um chip. Ninguém ali para justificar a loucura por conta dos dias solitários e da caminhada dura da ida e volta sob o sol. Ciça carregava um chip.

                Virei o casco da tartaruga, cutuquei as unhas, meti os dedos nos vãos das patas e do rabo.  Não achei nada, mas me perguntei a razão da tartaruga ir e voltar de tempos em tempos. Se não era visível, a peça de monitoramento estava no cérebro ou no estômago ou na pata. Ergui Ciça sobre minha cabeça e a chacoalhei. Contam que o barco chegou quando eu ia jogá-la do penhasco.

                Acordei na enfermaria de um hospital público de São Paulo. Antes de pedir água , pedi um espelho e mal reconheci minha própria figura magra , o rosto e os lábios soltando peles. A enfermeira também me entregou os presentes endereçados ao Almirante Nunes, ao Brigadeiro Valadão e ao Coronel Vilaça. Nenhum para Valdomiro Andrade Júnior, o meu verdadeiro nome no documento. Mal reconheço o nome das mulheres remetentes. Agora só penso em Ciça e no conforto da minha casa na gruta.  Quando eu receber alta, voltarei para a ilha como um explorador Valdomiro Júnior. Vou revelar ao mundo o segredo daquelas figuras rupestres.   

Deixe um comentário