“B’ezrat Hashem. Com a ajuda de Deus, venho trazer ao senhor um assunto que diz respeito a nós dois e também à nossa comunidade. Perdoe-me se esta exposição soar excessiva aos seus ouvidos; afinal, o senhor conhece minha história de vida como ninguém, com a óbvia exceção de mim mesma.”
− Você não vai começar a carta pedindo desculpas para esse cara, vai?
− Calma, Yarin. Ele ainda não sabe de onde vai vir o tiro. Faz parte do suspense.
− Tá, continua. Quero ver aonde isso vai dar.
“Permita-me lembrá-lo da data de 28 de janeiro de 2005. O sol estava nascendo quando o senhor bateu à porta do sobrado dos Mendes Seixas, em Nova York. Marta e Fernando formavam um dos casais mais bem relacionados na comunidade judaica local. Isso apesar de passarem a maior parte do tempo no Brasil, onde ficava a sede da empresa de exportação de pedras preciosas da família. Casados havia três anos, ainda não tinham conseguido ter filhos. Por causa do inverno intenso daquele ano, estavam de malas prontas para voltar para o Brasil. O senhor não deixou, mas isso o senhor sabe.”
− Aquela foi a noite mais fria do ano, sabia? Eu pesquisei. Às sete da manhã, fez sete ponto seis graus negativos no Parque.
− Dá quanto em centígrados?
− Vinte e dois abaixo de zero. Continuando.
“No primeiro banho que me deram na casa em Chelsea, Marta ficou horrorizada com as marcas de queimadura que viu naquele corpinho de uma semana de vida. No peito e nas costas, grandes manchas tornavam ainda mais avermelhada minha pele, que se soltava aqui e ali. Minha mãe não tinha noção do que fazia com os filhos, não era culpa dela. O menino morreu por ações que ela praticou, mas a culpa não era dela.
Fui criada no Brasil e passava as férias em Nova York, tanto de verão quanto de inverno. O senhor não tem como saber, mas nas escolas de classe alta em que estudei na cidade do Recife, preconceito não é exceção; é regra. Como não havia negros, os alvos eram os esquisitos como eu: alta, ruiva e falando com sotaque. Para piorar as coisas, eu roubava. Não podia ver uma canetinha colorida ou um pacote de biscoitos esquecido na carteira de alguém que logo enfiava na mochila. Perdi a conta das vezes que fui repreendida na diretoria. Meus pais tiveram de me transferir de colégio duas vezes.”
− Será que tem que entrar nesses detalhes?
− Tem. É preciso deixar claro que você não nasceu cleptomaníaca. É um distúrbio bem comum em crianças que não conhecem sua origem.
− Como a bulimia.
− E comportamentos antissociais, abuso de drogas, deficiência de aprendizado…
− Bom, dessa última eu escapei. Segue.
“Não sei se o senhor sabe, mas foi do Recife que partiram alguns judeus que ajudaram a fundar Nova York, no século 17. Fui criada como uma princesa, filha única de uma família rica e amorosa. Mesmo assim, dei muitas dores de cabeça para Marta e Fernando. Além da mania de roubar, vivia arrumando confusão no colégio. Também nunca tive amigos de verdade. Passava a maior parte do tempo sozinha desenhando formas abstratas que poderiam ser transformadas em joias, como Fernando havia me ensinado.
Marta era uma boa pessoa, tentou ser uma boa mãe, mas não tinha o instinto necessário. Além disso, passava o tempo todo na empresa dos Mendes Seixas. Eu vivia cercada de babás e governantas que se alternavam para me proporcionar o conforto que uma princesa merece. Só ficava mais próxima de Marta e Fernando quando passávamos as férias de verão e inverno no sobrado no bairro de Chelsea.
Foi em uma dessas férias, dois anos atrás, que acabei descobrindo que eu tinha vários irmãos de sangue. Foi por acaso, num clube no Soho. Era o tipo de reunião de adolescentes mais ou menos controlada, onde os filhos da comunidade judaica se reuniam sob a vigilância de seguranças contratados. Logo que entrei, descobri que era uma das pessoas mais altas do salão. Abordei uma ruiva e sardenta, alta como eu. Era Rachel, com quem me identifiquei na hora. Juntas, saímos pelo salão convocando nossos iguais. Conversando com os quatro no terraço, vi que eu era a única que não sabia ter sido adotada. Além da aparência, tínhamos em comum o fato de que nossas famílias frequentavam a mesma sinagoga. Somos os que sobreviveram, fora o bebê que morreu queimado. Mas isso o senhor bem sabia.”
− Aquela foi a noite mais estranha da minha vida.
− E da minha também. Foi esquisito, mas um alívio conhecer você e nossos irmãos.
“Nossa mãe teve uma penca de filhos. Eu e meu irmão gêmeo fomos os últimos antes de ela morrer, na Penitenciária de Bayview. Quando nascemos, ela já era viúva. Nosso pai foi assassinado numa briga de bar. A mesma patrulha que levou meu irmão para o necrotério me deixou na sinagoga. Descobri que a delegacia do bairro tinha um acerto com o senhor para evitar que os filhos de minha mãe fossem para o orfanato. Assim todos ficavam contentes: as crianças ganhavam um lar de verdade, os casais sem filhos recebiam anjinhos ruivos em domicílio e o senhor, claro, ampliava seu patrimônio e sua influência sobre o rebanho. Sua única exigência era que todos guardassem silêncio sobre a origem das crianças.
Tenho consciência de que minha família brasileira sofreu muito por minha causa. Sem saber como me contentar, Fernando resolveu me conceder a emancipação quando completei 16 anos. Acho que ele teve uma espécie de premonição, porque acabou morrendo em um acidente de helicóptero dois meses depois de assinarmos os papéis no cartório. Marta, como o senhor sabe, resistiu até o mês passado à tristeza e a um câncer de pulmão. Minha família se resume agora a alguns tios e primos morando no Brasil. E a meus oito irmãos de sangue que vivem aqui nos Estados Unidos.”
− Ouvindo a história toda assim, fica meio triste, né?
− Mas foi como aconteceu, né? Olha, quem tem que ficar triste não é você, nem eu. É ele.
− Você está certa.
− Agora vai melhorar.
“O senhor não sabe, mas vou me casar no próximo domingo. A cerimônia será na sua cidade, mas não na sua sinagoga, obviamente. Achei que não aprovaria Jamal. Pelo que me lembro das palavras que o senhor gostava de usar, ele não tem a ascendência ‘adequada’, como também sua cor e condição financeira não são ‘convenientes’. Nós nos conhecemos há dois anos numa feira de quadrinhos e começamos a produzir e viver juntos. Eu desenho e ele escreve roteiros. Gostamos das mesmas coisas e odiamos as mesmas pessoas. Não me interessa o futuro, não me importa a aprovação social, estou me lixando para a religião. Estamos casando para simbolizar uma união – que provavelmente não será eterna –, mas que faz bem para nós dois.”
− Será que é uma boa ideia contar tudo? Assim ele não vai ter tempo de fugir?
− Sem chance. Ele vai receber esta carta junto com a intimação do juiz. Escuta, falta só o encerramento.
“Olhando em retrospectiva, penso que o senhor não teve uma boa ideia ao me atribuir um nome novo naquela noite fria em Nova York. Yarin, como o senhor sabe melhor do que ninguém, quer dizer ‘aquele ou aquela que entende e ouve’. Quando dei por mim, ouvi e entendi.
Para terminar esta carta, uma última informação. O senhor sabe bem que a Rachel se tornou promotora de justiça. Mas o que vai saber agora é que ela está colhendo o depoimento formal dos nossos irmãos e de alguns assistentes sociais veteranos, policiais aposentados e outras testemunhas das atividades extrarreligiosas que o senhor vem cometendo há trinta anos. Sua acusação será de venda de bebês e tráfico internacional de pessoas.
Mazel tov.”
