(Bruno Vicentini)
29 de fevereiro
Hoje de manhã encontrei esta agenda, em cujas páginas escrevo agora estas linhas, esquecida no fundo de uma caixa de papelão. Com exceção da frase “Hoje de manhã encontrei esta agenda, em cujas páginas escrevo agora estas linhas, esquecida no fundo de uma caixa de papelão.” e da frase que se iniciou em seguida e que ainda estou escrevendo, esta mesma, que não posso citar em aspas porque não chegou ao fim, o resto da agenda está todo em branco. Agora que a frase anterior chegou ao fim, eu poderia, se quisesse, citá-la em aspas, mas não vejo motivo algum pra fazer isso.
1º de março
Acordei com a disposição de usar esta agenda como um diário. Qual a diferença fundamental entre os dois objetos? Não me ocorre uma resposta que seja coerente. Penso em dois loucos na praça Raposo Tavares, cada qual sobre o seu caixote, gritando disparates. Mas são duas garotas. Uma delas enumera todas as coisas que deve fazer no dia seguinte (ou na próxima semana, ou no próximo mês – não no próximo ano, porque tudo tem limite), enquanto passa o dia sobre o caixote, gritando disparates. A outra brada aos ventos, de maneira apaixonada, tudo o que lhe aconteceu naquele mesmo dia, suas fortunas e infortúnios, ainda que se saiba que na verdade nada lhe aconteceu, ao menos nada que seja digno de nota, porque passou o dia sobre o caixote, gritando disparates. Uma delas se chama Catarina. A outra é sua irmã. As pessoas formam uma multidão, que cruza a praça em todas as direções e ignora as loucas. No meio da multidão estou eu, um velho de cabelos compridos. Todos, inclusive eu, caminham apressados, atrasados pro serviço, com medo de que alguém, inclusive eu, lhes bata a carteira.
2 de março
Pensando bem, se além de tudo eu ainda precisasse de um MOTIVO pra fazer qualquer coisa, seja pra citar uma frase em aspas ou pra ferver a água do café, melhor seria desistir desde já. Acordei atrasado pro serviço e coloquei a água do café pra ferver enquanto me vestia. Motivo: queria tomar café. Quando a chaleira finalmente apitou, passei a mão nos cabelos e fiz um cálculo rápido, cujas variáveis eram: a distância da casa até o escritório; a eventualidade de um engarrafamento; a dúvida acerca da localização precisa da lata do pó de café na despensa; minha castigada reputação junto à chefia imediata; a condição imunda da caneca preferida; atrasos anteriores; o risco de se queimar a língua com café quente. Conclusão: se escolhesse passar o café, seria demitido. Me sentei junto à mesa da cozinha e, enquanto amarrava os cadarços e assistia à dança dos vapores da chaleira, pensei que aquilo não era a água do café, mas uma ameaça. Estive fervendo uma ameaça. Só seria a água do café se eu a jogasse por sobre o pó, mas isso antes e não depois – depois já seria café. Aquilo era apenas água. Que eu teria que ferver de novo se quisesse cozinhar uma sopa quando voltasse do escritório. Saí de casa de barriga vazia.
3 de março
Catarina e sua irmã, apesar de gêmeas monozigóticas, não se parecem. A mãe não esperava que sairiam de dentro de si, no dia do parto, duas crianças, e por isso mesmo só tinha concebido um único nome. As irmãs até pensaram em dividi-lo, pra solucionar o impasse, mas, por serem em tudo mais tão diferentes, não puderam executar o famoso truque em que uma se passa pela outra, como fazem os gêmeos monozigóticos, ainda que elas tenham, não raras vezes, tentado. Enganaram a própria mãe durante toda a gravidez, mas não puderam enganá-la depois, nem uma vez sequer, nem ela e nem mais ninguém.
4 de março
Percebi que meu novo vizinho é o Geraldo Vandré. Saí pra tirar o lixo e dei com ele lá na calçada, acompanhando o pessoal do caminhão de mudanças, que descarregava as suas coisas guardadas em caixas de papelão e ia levando pra dentro da casa, a casa dele, que fica bem em frente à minha. Não se apresentou, é claro, e nem precisava. Eu também não me apresentei, embora precisasse, porém não convinha. Imagina que eu fosse dizer algo, quem sabe me fazendo de íntimo, a título de política da boa vizinhança. Mas a vizinhança, aqui, não é assim tão boa. Enquanto eu pensava essas coisas nós ficamos ali por um minuto ou quase, olhando um pro outro, em silêncio. Ele também devia estar pensando lá as coisas dele. Depois eu entrei e fui cuidar da vida.
5 de março
Voltando àquele assunto: não sei muito bem o que fazer com esta agenda, que é do ano passado. Eu a descobri no fundo de uma caixa de papelão, e foi como reencontrar um velho colega de escola, um que te diz, sem rodeios, que naquela época você era o mais completo imbecil. Me senti o mais completo imbecil. É um caderninho de capa preta, que comprei no fim do ano retrasado, pra usar no ano que já passou, porque achei que podia ser importante, você sabe, pra anotar os compromissos, rabiscar ideias, esse tipo de coisa. Como você pode imaginar (enquanto eu, de minha parte, vou imaginar que você está mesmo por aí, e vice-versa, e interessado), o plano foi um fracasso. Agora a reencontrei, imaculada, plena, inútil, um símbolo concreto e infalível da minha derrota, da minha absoluta inaptidão.
6 de março
Distraída, a irmã de Catarina chega em casa sendo seguida por uma matilha de cães. É Catarina quem abre a porta e quem avisa, aos berros, que os cães seguem a irmã, sabe-se lá desde quando. As duas sentem uma profunda curiosidade de entender como aquilo tudo começou, mas não podem simplesmente perguntar aos cães. Também não poderia, a irmã de Catarina, voltar pelo mesmo caminho por onde veio, fazendo o trajeto invertido, porque agora elas estão dentro de casa, cercadas pelos cães, que, do lado de fora, abanam seus rabos.
7 de março
Geraldo Vandré usa um boné do sindicato dos servidores, tem um periquito-australiano no jardim, faz churrascos aos sábados, instalou uma antena externa modelo boca de jacaré, quase não sai de casa, tem um xampu (Seda Ceramidas) na janela do banheiro, me cumprimenta todos os dias com um meneio de cabeça, prefere sacos de lixo azuis aos verdes, usa meias sociais e tênis de corrida, tem no jardim uma mangueira amarela (antitorção, das boas), na garagem um Corsa, seus cabelos são compridos e muito brancos e ele parece um tio meu, que morava em Medianeira, quando eu era criança me diziam todo ano que o tio ia vir pra festa de ano-novo, mas ele nunca veio, só o conheço por uma foto que minha vó tinha na estante. O periquito-australiano canta apenas as próprias composições.
8 de março
Como eu acho que já disse, o pior é que paguei caro nesta porcaria, uma agendinha petulante de capa dura, feita à mão, com marca-páginas de fita, fecho em elástico, de uma marca importada, metida a besta. Tudo isso pra ver se usava, e não usei. Na época achei que seria uma boa ideia, mas não foi. Eu não tinha, então, compromisso algum pra registrar, e tampouco os tenho agora. Era ainda o ano retrasado, a agenda do ano passado, o ano precisava, portanto, acabar, pra começo de conversa. Mas quando enfim acabou, eu a tinha perdido. Era o dia 1º de janeiro do ano passado e eu acordei morto de ressaca, culpa da festa de ano-novo, não queria saber de compromissos, ainda que não tivessem sido anotados onde quer que seja, ou mesmo que tenham sido. Ou talvez fosse outro dia, outra festa, outra ressaca. Não tinha como conferir, eu tinha perdido a minha agenda, esta em que escrevo agora.
9 de março
Na aula de natação, Catarina e sua irmã se apaixonam pelo professor. Três vezes por semana, as duas competem entre si pela atenção do homem, aplicando-se de maneira obsessiva aos exercícios que ele lhes propõe. As bolhas de ar que elas sopram embaixo d’água correm também pelas suas entranhas. O professor, em nome da sua ética rígida de professor, finge que nada percebe. As meninas nadam cada vez melhor. No final do ano vai ter um campeonato, Catarina e a irmã vão participar, competirão não apenas entre si, mas também com outras garotas das cidades vizinhas, no entanto, antes que o dia do campeonato chegue, o homem resolve ir pescar com os amigos, o barco vira e ele morre afogado.
10 de março
meu novo vizinho
ou é ou não é
o Geraldo Vandré
11 de março
Pode haver algo mais deprimente do que isto, uma agenda do ano passado totalmente em branco? Mais angustiante, mais miserável que um aborto de agenda sendo usado como diário? O dia mal começou e já me ocorre uma besteira, não há nenhum compromisso anotado, então me sento pra escrever, escrevi uma série de estupidezes nos espaços reservados aos dias 29 de fevereiro e 1º, 2, 3, 4, e 5 de março, domingo, segunda, terça, quarta, quinta e sexta-feira, respectivamente. Mas os dias da semana não correspondem aos dias do mês, porque a agenda é do ano passado. Os dias são outros dias. Ontem não foi quarta-feira, 10 de março, tampouco hoje é quinta. Se nem mesmo estamos em março, que dia pode ser hoje? Se for dia de semana, convém pegar leve na birita.
12 de março
Catarina e sua irmã, no fundo, não gostam muito de viajar, mas gostam de dormir juntas numa mesma cama de hotel, algo que só acontece quando viajam. Deitadas lado a lado, numa mesma cama de hotel, que, por servir a ambas, não pertence, em regra, a nenhuma das duas, fica muito mais fácil imaginar que a vida de uma e de outra é uma outra vida. Nessas situações, a irmã de Catarina gosta de pensar que é Catarina, sua irmã, deitada logo ali ao seu lado, mas do outro lado da cama. Catarina, por sua vez, gosta de pensar que é uma outra pessoa, alguém que, no fundo, gosta muito de viajar.
13 de março
Bom, o fato é que eu tava saindo de casa, de barriga vazia, quando Geraldo Vandré me assoviou da calçada e quis saber se eu ia pro centro. Entrou no meu carro e já foi regulando o banco, depois se esticou, passou a mão nos cabelos, gemendo a velhice. Eu não podia simplesmente dizer que não ia pro centro, que tava atrasado pro serviço. Subimos então a Avenida Tuiuti muito quietos, o silêncio viajava suspenso entre nós dois, no espaço vazio dentro do Corsa. De quando em quando minha barriga roncava. Geraldo meteu a mão no rádio, trocou de estação. Perto do cruzamento com a Brasil paramos num engarrafamento, meu passageiro me ignorava, porém começou a conversar com os comentaristas da CBN, que analisavam a atual conjuntura. Balançava a cabeça, se fazendo de muito sério, mas logo algo que tinha sido dito lhe aborrecia e ele ralhava com o repórter. Quando o programa acabou, me perguntou se eu não tava com fome, Para aí numa lanchonete, Sei lá, Vamo comer alguma coisa, Vizinho, Eu pago, e eu ia dizer que não, que eu tava atrasado pro serviço, que aquilo também já era abuso, mas nessa hora minha barriga roncou de novo e eu disse que sabia de um lugar onde o pastel era muito bom. Ele não quis saber, me cortou dizendo que pastel bom mesmo era no Senadinho, Vamo lá, Larga de ser, Vizinho, Não vai demorar nada. Assenti, batucando os dedos no painel. O fim do engarrafamento não se via no horizonte.
14 de março
Que um dia, um dia qualquer, esta frase, ou qualquer outra, escrita nesta agenda, ou em qualquer outro lugar, possa quem sabe ser usada como prova, ou pelo menos como indício, de que eu estive por aqui, enquanto você, ou quem quer que seja, estiver mesmo por aí, e vice-versa, e interessado.
15 de março
A irmã de Catarina suspeita que Catarina carrega uma escuta telefônica, um microfoninho atado com fita preta junto ao peito, embaixo do casaco de caxemira, que ela não tira nunca. No entanto, não tem a coragem necessária pra confrontar sua irmã acerca do assunto, nem tampouco pra lhe espiar as intimidades. Na dúvida, passa a manter silêncio sempre que está perto dela, com medo de dizer algo que possa ser mal compreendido por quem quer que as esteja ouvindo, ou então, o que é ainda pior, de dizer algo que, sendo compreendido perfeitamente bem, ainda assim pareça uma idiotice. Catarina interpreta o medo e o silêncio da irmã como sinais de uma verdadeira sabedoria, como se o tempo, em algum momento, tivesse começado a passar mais rápido pra uma delas.
16 de março
Antes de me pedir uma carona, Geraldo Vandré me chamou pra um churrasco em sua casa. A comida era muito boa e todos os seus convidados foram bastante gentis, muito embora ninguém tenha me feito pergunta nenhuma. Geraldo Vandré e eu também não conversamos sobre o que quer que seja. Eu apenas bebi, como se fosse ano-novo. Lá pelas tantas, ele se trancou no quarto, deixando os convidados livres pra tirarem as suas próprias conclusões. Fiquei pensando no que a imprensa local diria se ainda existisse e, existindo, soubesse que Geraldo Vandré hoje mora na Rua Pioneiro José Alves Filho, 570, no Jardim Pinheiros II, em Maringá/PR. Fui embora antes que algum dos seus convidados, inclusive eu, puxasse o violão. Amanhã vou acordar de ressaca.
17 de março
Ressaca. Sobre escrever estupidezes: posso muito bem escrever uma aqui, nesta página, mas também posso optar por escrevê-la em outra página qualquer desta agenda, talvez uma que fique lá pro final, ou quem sabe um pouco antes. Entre a frase anterior e esta, que estou escrevendo agora mas que você vai ler só depois (e que está lendo agora, não está?), eu parei, fechei a agenda e a abri numa página lá do final, quem sabe do mês de outubro, onde escrevi desta vez não uma besteira, mas uma frase séria. Juro.
18 de março
Catarina é acometida por uma gripe forte. Sua irmã é a única pessoa que não tem medo de se contaminar pela doença, e que, por isso, não se incomoda com os espalhafatosos espirros, com o nariz incontinente de sua irmã. De resto, todo o mundo se afasta. As duas ficam sozinhas e dependem do auxílio uma da outra pra todos os afazeres. Com o tempo, Catarina acostuma-se à gripe, que não arrefece nunca, e passa a viver com ela muito bem, obrigada, enquanto sua irmã, por mais que tenha uma saúde de vedete, vive reclamando da falta de sorte de ter uma irmã sempre gripada, de espalhafatosos espirros, de nariz incontinente.
19 de março
No Senadinho, Geraldo Vandré pediu: dois pastéis de palmito; um marajá; um quibe; saladinha de repolho; molho de pimenta da casa; uma tubaína. O balcão àquela hora já tava quase vazio, à exceção de um e outro desocupado, que passavam o dia por ali mesmo, entre um café e outro, e, enquanto Geraldo Vandré mastigava o seu pastel, eu fiquei só esperando que alguém o reconhecesse. Um dos gaiatos, um sujeito comprido, nos entregou um papel e pediu voto pro seu candidato a prefeito. Geraldo Vandré se irritou com aquilo, se pôs de pé e começou a discutir com o homem, dizia as mesmas coisas que tínhamos acabado de ouvir na rádio, os mesmos comentários que antes tinham lhe aborrecido saíam agora da sua boca como se fossem ideias suas. O outro desocupado e eu não sabíamos o que fazer quando a discussão virou briga, quando o sujeito meteu a mão no peito do Geraldo Vandré e o atirou por sobre as banquetas altas num único sopapo. Quando ele se levantou, trazia um corte no supercílio, enquanto eu, sem ter o que fazer, ainda esperava que alguém ali o reconhecesse.
20 de março
Fico pensando em como esta agenda chegou até você. Bom, acho que não estamos mesmo em posição de sanar a dúvida. Então escrever a frase “Fico pensando em como esta agenda chegou até você.” não é uma indireta, como seria dizê-la em voz alta, e sim uma perda de tempo. Mas tudo bem, eu acabei de acordar, não há nenhum compromisso anotado. Me sento pra escrever uma estupidez. Pode ser uma indireta ou uma perda de tempo, tanto faz. Ouço o apito da chaleira, a água do café fervendo. Quem escreve um diário sempre conversa com alguém que não está lá.
21 de março
Chega um convite pra um baile de máscaras, onde haverá, diz o convite, um impostor. Catarina e sua irmã ficam ansiosas pela noite do baile, não pela expectativa de haver dança, tampouco de haver bebida, porque o convite não menciona dança ou bebida, apenas um impostor. A impaciência das irmãs não vem da vontade de que uma das duas termine por desmascarar o impostor, como se poderia considerar, mas vem antes da chance, que só agora se apresenta, de que uma das duas afinal se passe pela outra – isso desde que nenhuma das duas seja, no final das contas, o impostor.
