A manada

Andrea, gravo este vídeo para te informar o que aconteceu. Espero que o exercício de memória te faça entender o estado atual em que se encontra o sítio da sua família e, de quebra, me ajude a processar os acontecimentos dos últimos dias.

Bom, ao que interessa. Hoje faz três semanas que estou morando aqui. Não foi fácil chegar, mesmo com a moto de trilha que emprestei de um amigo. Tive a ideia quando vi na rede sua pergunta: “Alguém sabe lidar com ataques de javaporcos?” Eu nem sabia o que era isso. Aí fui pesquisar e descobri que essa espécie híbrida de porco doméstico com javali foi criada por algum cientista maluco que queria ficar rico. Bom, no fim deu ruim, os bichos fugiram do controle e hoje infestam boa parte do continente. Arrasam plantações e atacam os animais no pasto. Uma praga de proporções tão gigantescas que o governo brasileiro liberou o abate.

Aí, resolvi que seria uma boa ideia passar minhas férias atirando nos bichos. Além de divertido, era autorizado legalmente! Em troca, você me deixaria passar uma temporada no sítio de sua infância. Eu sabia que o lugar era longe do mundo e estava detonado havia muitos anos. Você disse que nenhum caseiro aguentava porque tudo que plantavam era destruído pela vara faminta. Será que se diz vara como de porcos, ou alcateia como de javalis? Talvez bando ou manada…

Bom, você estava certa sobre o isolamento. Quando você vinha para cá quando criança, devia ser bem diferente. A estrada de ferro funcionava, a vila da estação fervia nos fins de semana. O clima era ameno, o café e o milho rendiam um bom lucro para os fazendeiros como o seu pai. Não mais. O dinheiro do agronegócio migrou para outros lugares, onde as colheitadeiras sem piloto não precisam encarar os barrancos que existem por aqui.

Mas fujo do assunto. Preciso falar dos javaporcos. Bom, cruzei com eles logo na primeira noite, quando saí com a carabina 12 a tiracolo. O grupo – vou chamar de manada, pronto – estava numa clareira a uns trinta metros da linha das árvores. Eu via seus perfis arredondados claramente sob a lua cheia. Estavam de costas para mim, mas me pressentiram pelo cheiro. Dizem que eles têm ótima audição e faro superior a cães farejadores. Atirei duas vezes, mas não consegui atingir nenhum antes que sumissem na mata do outro lado.

O primeiro que matei foi na noite seguinte. Saí logo que escureceu vestido com uma camiseta escura, mais discreta e menos fedorenta que a camisa amarela que eu usava no dia anterior. Posicionado contra o vento, encontrei um grupo perto do rio. Arranhavam o chão com as patas até desencavar o que pareciam ser cenouras e batatas. Mesmo de longe, eu conseguia ver os grandes caninos recurvados que crescem para fora do focinho.

Ajoelhei, fiz a mira e derrubei um dos grandes. Depois, usei minha picareta de acampar para fazer um buraco e arrastar o bicho lá para dentro. A operação se repetiu nas noites seguintes. Eu não usava armadilhas ou iscas. Bastava escolher uma direção, de preferência margeando um riacho ou banhado e ficar atento. Com a prática, conseguia atingir três ou quatro animais por tocaia. Era um trabalho duro, principalmente na hora de enterrar as carcaças.

Eu dormia de dia e caçava à noite. Só vi uma pessoa na primeira semana: o seu Jerônimo, de quem você deve se lembrar. Ele é um dos poucos nativos que permanecem trabalhando como caseiro na região. Ofereci carona, porque sei que a chácara onde mora fica bem longe, lá no pé da montanha. Recusou com um gesto vago e seguiu pela estradinha carregando uma trouxa na cabeça.

Reencontrei seu Jerônimo no sábado, quando fui à vila comprar mantimentos e reabastecer o celular. Ele estava na birosca com outros matutos. Paguei uma rodada de cachaça e perguntei quem ali caçava javaporco. A princípio, não queriam falar, mas a pinga acabou animando o pessoal. Um dos mais jovens, que tinha a pela vermelha e os cabelos lisos como de um indígena, contou que a chegada dos híbridos foi recebida com festa. “Todo domingo o povo fazia churrasco na praça”, disse com os olhos brilhando. Eles matavam os animais com velhas espingardas, porém os mais valentes usavam um tipo de zarabatana com ponta de metal. “O Zé Múcio era um desses. Gostava de jogar a zagaia e terminar o serviço com aquela faca de descascá peixe lá dele”, acrescentou um outro, de rosto enrugado como uma espiga.

Com a língua mais solta, informaram que os churrascos foram interrompidos quando alguns ficaram doentes. “O Cadinho foi um que caiu babando na rua”, contou o dono da birosca, sujeito afável e risonho. “Teve quem começou a bater na mulher, outros emagreceram até o osso. O Onófre acordou um dia com o lado direito entrevado.” Eram sintomas da raiva, eu sabia, mas não vi motivo para contar a eles. Depois de um tempo, deixaram de matar os animais. Se não era para comer a carne, de que valia aquela mortandade?, argumentaram, do alto de alguma sabedoria secular.

Perguntei como eles lidavam com o aumento da população dos javaporcos. Os homens se limitaram a olhar uns para os outros. Até que o velho Jerônimo, que permanecia mudo, levantou um fiapo de voz: “Com eles, é mió negociá”. Em seguida, me explicou com poucas palavras que o javaporco tinha herdado a força e valentia do javali e a esperteza do porco caseiro. “Alembra do falecido Neco da Rute?”, perguntou para os demais, que assentiram com a cabeça. “Pois ele não tinha aquela porquinha tão esperta que inté dormia na cama com ele mais a Rute? Intão. Porco casero é só malícia.” Então se lembraram de histórias de javaporcos que sabiam evitar armadilhas. “Eles aprende”, comentou o velho Jerônimo.

Cada um dos presentes tinha um jeito de negociar, como eles dizem, com os animais. Tem aquele que deixa um punhado de ovos galados do lado externo da cerca. Outro oferece ratos e tatus mortos. Um terceiro disse que reúne sobras de legumes. Garantiam que os javalis ficavam uma semana ou mais sem derrubar o arame para invadir a propriedade. “Só o seu Jerônimo não dá comida, né, seu Jerônimo?”, falou o jovem cujo rosto avermelhado parecia agora pegar fogo com o excesso de álcool. “Ele só joga umas miçangas pros bichos, né, seu Jerônimo?”. Mesmo tendo ouvido seu nome três vezes, o velho cafuso não levantou a vista do copo vazio.

Voltei para o sítio remoendo aquelas informações. A contaminação por ingerir aquele tipo de carne tinha lógica, mas a barganha me parecia uma dessas superstições que ainda sobrevivem nos grotões.

Quando saí da estradinha, vi que a porteira estava no chão. Havia pegadas com os esporões bem visíveis e rastros de focinhos na terra úmida. Não havia dúvida do tipo de animal que tinha derrubado o varal e a tina de lavar roupa. Notei a falta de um pé de meia e da minha camisa preferida, aquela mesma de quadrados amarelos, herança dos meus tempos de roqueiro grunge. Consertei o portão como pude e, antes de anoitecer, depositei do lado de fora uma cesta com ovos e maçãs.

As duas semanas seguintes transcorreram sem novidade. Eu dormia de dia e caçava à noite. Nos sábados, bebia cachaça com meus novos amigos e voltava pilotando devagar para evitar um acidente. Se eu caísse e quebrasse a perna naquele fim de mundo, talvez acabasse comido pelos javaporcos. Ah! Esqueci de dizer que todo domingo eu preparava um farnel com ovos e frutas e deixava na entrada. Na segunda-feira, recolhia a cesta vazia.

Tudo seguia nessa rotina até ontem de madrugada. Eu estava me preparando para dormir quando escutei o ruído de um galho quebrando. Pelo basculante do banheiro, vi alguma coisa se mover na luz baça. Dei a volta na casa, apanhando a escopeta no caminho. Abri a porta e gritei da direção da sombra de uma árvore. Ninguém respondeu. Você sabe que o sítio é invisível por quem passa na estrada – e ultimamente ninguém mais passa naquela estrada, muito menos àquela hora morta. Saí no pátio e avisei que ia atirar. Consegui ver o vulto de um homem (era nitidamente um homem) grande e ágil que começou a correr ao longo da cerca até sumir no rumo do riacho. Achei mais seguro não iniciar uma perseguição.

Com o sol a pino, dirigi até o casebre do seu Jerônimo, o vizinho mais próximo. Tive de bater palmas um longo tempo até que ele se dispusesse a aparecer na soleira. Não me convidou a entrar, por isso comecei a gritar do portão mesmo: “Seu Jerônimo, quem é o homem grande que ronda por aqui de madrugada?”

Ele me lançou um olhar grave e não respondeu. Repeti a pergunta. Finalmente caminhou lentamente até mim: “Arguém que não dá pra negociá”. “Como assim?”, eu quis saber. “O porco tem casco e dente de chifre, mas sabe que num pode cum nóis humanidade. O Coisa-Ruim tem casco, chifre e pensa de outro jeito.” Olhou para mim com piedade, como se fosse a última vez. Seu rosto era coberto por uma casca marrom. Parecia uma velha árvore que, quase seca, ainda tem força suficiente para segurar o barranco em que nasceu. Estendeu a mão ossuda. Ao contato de sua palma vincada, percebi que continha um colar com bolinhas vermelhas e pretas.

Senti sua aprovação quando coloquei o colar em meu pescoço. Voltei ao sítio girando a manopla do acelerador para fazer barulho. A noite veio. Não havia lua. Da janela divisei o vulto no mesmo ponto sombrio sob a grande árvore. Saí com a carabina e o farolete. Calculei que o homem tinha mais de dois metros e duzentos quilos. Gritei que estava armado. Ordenei que saísse da escuridão e dissesse o que queria. A figura cresceu na minha direção. Apoiei a arma no ombro direito e larguei o farolete para usar a mão esquerda. Ele avançou. Atirei. Caiu para trás.

Sentei no chão tremendo e encharcado de suor. A custo, tateei até recuperar a lanterna. De pé, iluminei a cara da figura inerte, revelando os dentes caninos enormes revirados para cima, por fora do focinho. Pareciam um par de chifres que tivessem se deslocado. Baixei o foco, reconhecendo o padrão da minha camisa xadrez até o buraco no lugar do coração, onde o amarelo do tecido aos poucos se tingia de vermelho-escuro.

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