Feijoada

(Leticia Eboli)

Armandinho, cara, tô tentando segurar a onda aqui, mas o negócio deu ruim, irmão. Porra, desde que tu foi, o troço tá feio no Play Kids. Até aí faz parte né, uns perrengues pra quem tá começando numa parada nova que, pô, tu já fazia há dez anos, mas agora tô bolado. Não dá mais pra segurar as pontas sozinho. Tem alguém brabo querendo sabotar a parada. Tô pensando se falo com o Ronaldo, aquele nosso chapa PM de Araruama, mas preciso ver contigo quanto de grana a gente tira do caixa pra ele fazer um por fora, se vazar tudo o que rolou aqui vai acabar de vez com nosso negócio. 

Preciso também que tu me mande um papo reto. Se você tá metido em alguma parada, tem que me falar, irmão. 

Corta – novo áudio 

Mal aê. Enviei o áudio aqui sem querer mas se tu tá na velocidade 2, aproveita agora pra tirar. Aliás, só tô mandando aqui porque tu não me atende. Tu tem que me atender. (Micro segundo de silêncio, Sérgio respira fundo)

Rapá, segunda de manhã tava eu mais Wanessa e Selminha fazendo a arrumação na casa. Tu sabe bem, aquela geral de segunda-feira, depois de graças a Deus um final de semana de casa lotada com criança, fritura, álcool da hora de abrir a de fechar. No domingo então, São Pedro tinha dado uma mãozinha com uma chuva braba no meio das férias escolares, tivemos quatro aniversários na casa. O boliche lotado, fliperama bombando, até aquela máquina das pelúcias tudo mofada não parou um segundo –  essa máquina aí tem um outra parada, muito dá bizarra…Mas já falo nisso. 

Bom, eu tava terminando a área do boliche na última pista, ali ao lado da máquina de refri, que tava uma porcalhada só cheio de poça de Fanta Laranja. A sola do tênis chegava a grudar no chão por causa desses adolescentes de merda que ficam botando a boca direto no refil da máquina, babando igual a bulldogue competindo quem bebe mais, um inferno. Ontem mesmo expulsei uns três. 

Mas voltando, a patroa tava lá dentro limpando com a Selminha a cozinha. Eu amarradão na disposição, escutando um pagodinho, limpando as últimas bolas de boliche. Quando fui enfiar meus dedos no buraco (risada nervosa) – pô, irmão, não me estranha não, aqui não rola fio terra. Não é o que tu tá pensando. Maluco, meu dedão e o dedo indicador não entravam no buraco da bola de jeito nenhum. Por nada no mundo. Virei a bola, dei umas porradas atrás pra ver se desentupia a parada.   

Caiu. Na verdade, caíram, vários grãos de feijão no chão. Já parecia coisa de macumba mas aí veio o pior. No meio do feijão tinha um dedo. Um indicador. Na verdade, uns ¾ de dedo. Com uma unha vermelha de mulher que gosta de castigar. Dava pra sentir a unha cravando nas minhas costas. Arrepiei todo. Muito familiar, bicho. 

Corta – novo áudio 

Aí que eu me fudi. Dei um grito. Que corno tem a ideia de colocar um dedo no lugar de um dedo?! Já tinha aqui controlado a situação de outros lances que te explico mas essa passou dos limites.

Gritei “Chegaaaa! Quem tá fazendo essa merda?! Aparece aí, teu covarde!”

Chegaram. Wanessa e Selminha correndo da cozinha. Aí você conhece mulher. Gritaram, choraram. Até que a Wanessa surtou numa crise braba de ciúmes olhando o dedo das minhas mãos. “Sérgio, isso é dedo de vagabunda! Olha essa unha de vagabunda!” A mulher ficou transtornada, começou a me bater. Pegou o celular e ligou pra polícia. Eu catei o celular dela. “Falei, tá, maluca? Vai acabar com o nosso negócio!” Mas pelo grito dela Araruama toda ficaria sabendo. 

Ela parecia ter se acalmado, foi lá fora. E…. ligou pra polícia. Vagabundo nunca trabalha mas naquele dia chegaram em cinco minutos. Foi por isso que tô pensando em falar com o Ronaldo pra dar aquela fortalecida, se não vai dar água. Nossa imagem, pô, o Play Kids é lugar de família, tranquilidade. Vamo ter que levantar uma grana pra calar a boca de tanta PM que apareceu. Vou precisar também ver o que faço com a patroa, o bagulho azedou. Tô aqui dormindo naquele hotel em cima do bar da Zilda, a Wan não quer nem olhar na minha cara. 

Corta – novo áudio. 

Bom, irmão, não queria te deixar bolado aí em Massa… Massachusetts, né? Tentei segurar as pontas. Tem alguém querendo se vingar de tu. De nós. Não sei. Preciso que tu me mande o papo reto, me conte se tá rolando alguma parada, por isso tô ligando mas tu não atende. Você saiu tão rápido daqui. Acho que tu deixou algum rabo preso aqui.

Falando em rabo. 

Três domingos atrás, casa também cheia, bombando. Veio um moleque desses gordinho, das pernas que roçam uma na outra, chorando que não tava conseguindo colocar as fichas na máquina para jogar. Porra, moleque de uns dez anos fazendo um escândalo. A mãe gritando que era aniversário do menino, isso e aquilo, que tinham comprado 50 pratas em ficha, das grandes. Tentei de todos os jeitos desengasgar a máquina, dei tanta porrada que aquelas pelúcia devem estar tudo travada, com os olhos já descolando da cabeça. 

Nada feito. Devolvi o dinheiro da madame e falei pro moleque escolher o troço que ele queria e dei pra não me atazanar. Fechamos a casa, peguei a chave de fenda, abri a máquina pra dar uma olhada no que estava rolando. Soltei os parafusos. Maluco, dei de cara com uma orelha no lugar da ficha. Uma orelha, orelha de mulher com três furos de brinco. Só pensava na hora naquele pintor que arrancou a orelha fora, mas a gente conhece a fuça dele sem orelha. Mas orelha sem cabeça eu nunca tinha visto, só de porco na feijuca da Tia Jana. 

Bagulho muito doido orelha sem dono. Depois que puxei a orelha veio um mar de um pó. Não era pó branco que tu deve tá pensando não, sigo limpo. Era mais grosso, tipo uma areia, depois pelo cheiro fiquei achando que era farofa Yoki. Coragem de provar não tive não. 

Fiquei todo embrulhado, mas consegui manter a calma. Talvez Deus estivesse me escutando, só podia ser Ele me guiando. Catei toda aquela sujeira, joguei tudo no lixo. A Wanessa, porra, diferente de Deus não me escutaria. A gente já tinha brigado no dia, ela ia achar que eu tinha matado a mãe daquele moleque mais cedo. Pra ela contei que algum desgraçado tinha enchido a máquina de Fandangos porque acho que só Fandangos fede mais que Yoki. 

Corta – novo áudio

Aí no domingo seguinte. Domingão também, dessa vez, tava um sol e calor de rachar, povo tudo na praia. Casa às moscas. Enzinho quis passar o dia aqui com a gente, a patroa foi pro salão e fiz a festa do moleque. Ele tava jogando pinball das Tartarugas Ninja e veio me chamar. O vidro todo molhado por dentro, embaçado com uns gomos de laranja dentro da máquina, que tava toda com um caldo dentro, caroço em cima das Tartarugas. Nojento. Fiquei com a espinha arrepiada, lembrei do domingo anterior. Dei um dinheiro pro meu moleque comprar sorvete. Tinha só eu no salão principal, sol a pino. Abri a máquina xingando brasileiro de tudo que é jeito, povo corno, sem educação, sorte de tu que se mandou. Já tinha tirado pra lá de dez gomos. Na curva lá de cima, onde a bolinha entra, perto daquele Mestre Splinter. Pimba. Um pedaço de fuça. Um nariz de defunto. Fucinho arrebitado de plástica cheio de algodão dentro. 

Ronaldo, tá com cheiro de merda isso tudo. Tu precisa aparecer, brother.  

Rapidinho. Tô escutando um fuzuê aqui. Puta merda, brother, deu ruim. Tu tem que aparecer.

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