por Américo Paim
Pacífico, véi, tá de boa? Rapaz, vou mandar tudo de áudio aqui, é mais fácil.
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Eu sei que já devia ter dado notícia. É que não deu tempo. Na moral, achei que ia ser molinho ficar na sua casa, mas me lasquei todo. Essa parada que não tem o que fazer e é só dar uma olhadinha funciona não. Sempre tem uma porra pra resolver e seu amigo aqui, que tu diz que só tem nariz grande e cabeça pequena, ajeitou tudo. Segunda foi vizinho reclamando de manga caindo na casa dele. Terça foi o sapateiro. Tu num pagou o peão, véi… Já ajeitei, esqueça. Quarta foi foda. Teve um curto-circuito na garagem. Queimou uma tomada e aquela sua caixa de som danou-se. Porra, tu num avisou que era 220v, cara! Fiz uma arrumação lá que era pra ser surpresa, só que aí deu ruim. É que na quinta a empresa da poda da mangueira chegou. Foi Saboeiro que recomendou, conhece o dono e as porra, mas os caras vacilaram, um galhão caiu no telhado da garagem e fudeu Maria-Preá. Já tem um pessoal fazendo o serviço. É dinheiro pouco, se avexe não. O problema foi o carro. Esculhambou o teto solar. Larguei na concessionária. Tu arruma na volta. Contei tudo isso só pra chegar na sexta-feira. Aí inchou, num vou mentir.
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Repare, a primeira notícia é vantagem para a sua saúde, por causa de umas mudanças na cozinha. Tu vai entender. Agora a luz do sol bate direto, não só pela janela do muro da ladeira. Aquela sensação boa de mais espaço, num sabe? Vitamina D na veia. Nem precisa mais daqueles comprimidos todos que achei no banheiro da suíte. Aliás, foi Catucha que achou. Contei não, né? Quase peguei a maravilhosa! Verdade! Aquelas curvas viradas no cão… E as pernas, a bocona? Doideira. Ela terminou com Reboco e tava meio sozinha, numa gastura que só vendo. Foi no Bar de Gostoso e ela me chamou, juro. Desculpe aê… Disse que tava virada no estopô com o sujeito e queria se divertir. Fui obrigado a tomar providência, né? Ela quis na minha casa, na sua, quer dizer. Vê só… A coisa tava ficando boa, o calor subiu todo e só aí me lembrei da camisinha, óia. Ela futucou tudo e encontrou uma quase vencida no armário embaixo da pia. Tava louca pelo magrelo aqui. Tu vai dizer que é mentira, mas é só inveja mermo, que eu sei.
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Tu também vai dizer que num precisava, mas na loucura da hora, ela me chamou pra fazer lá mermo. Eu entrei e ela tava em cima da pia, toda construída na autoridade. Quando tava tudo no quilo, crac. A porra da pia quebrou, véi! Desceu com armário e tudo e nem me senti tão culpado. É que a pobre torceu o pé. Levei ela pra cama e fui dar atenção. Sei que tu faria igual, Pacífico, num vou mentir. A pia era coisa menor, tu vai concordar. Depois eu ia olhar. Fui buscar um copo com água pra coitadinha, que tava assustada. Peguei logo foi uma jarra, aquela do desenho de flor. Sei que devia ter sido a de plástico, é que eu quis impressionar, sabe como é. A merda é que entrei e escorreguei. Eu vinha ligeiro e só de meia, confesso. Aí foi caco de vidro e água pra todo lado, mas ninguém se machucou. Resultado: fui buscar vassoura, rodo e pano pra limpar a bagunça. Nessa hora até que eu vacilei, tenho que admitir.
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A porta da cozinha que dá pra área de serviço tava sem funcionar. É que eu quebrei a chave na fechadura outro dia. Eu explico. Tinha tomado umas e enfiei a errada. Aí virei e partiu dentro. Coisa boba. Resolvo antes de tu chegar. Pois bem, encostei uma almofada pra porta frente não bater comigo fora e saí por ela mermo. Tudo porque eu tava peladaço, mas como já era noite escura, deu preguiça de colocar roupa. Corri pra área de serviço, catei tudo pra limpeza e voltei. Aí, dei de cara com ele me olhando na varanda. Pra mim, pra porta, pra mim, pra porta, aquela cena de duelo de faroeste, sabe? Fui idiota. Esqueci que ele tava solto. Fui pra mais perto dele, passando a conversa: “Bregueço, tu num entra na casa, a gente já combinou isso”. Ele nem ligou. Suspendeu as orelhonas. Isso era sinal de que ia correr. Já tinha reparado? Pois é. É assim que ele faz. Só deu tempo de entrar atrás dele, que ficou na sala correndo e derrubando a porra toda. Cachorro destrambelhado da desgraça. Não podia ser um poodle, uma miséria dessa? Precisava ser um dog alemão? Tava difícil de segurar o danado. Quebrou umas coisinhas, nada tão caro assim, fique de boa. Só acho que tu pode estressar com o vaso azul que estava com as cinzas de sua vó. Se espatifou. Depois eu recolhi tudo e coloquei no pote de sorvete que eu tinha lavado pra guardar resto de comida. É tudo nosso. Aí o cachorro despirocado foi pro corredor, latindo alto, em direção ao nosso, quer dizer, seu quarto. Foi nessa hora que aconteceu o primeiro momento tenso de verdade, na moral.
Quando Bregueço tava quase na porta, na mesma da hora que agarrei o doido, tu nem vai acreditar, Pacífico do céu: Catucha mandou bala! Chumbo de verdade, véi! Deu três tiros e nem sei como não me acertou! A sorte foi que eu tava no chão. Disse a ela pra se acalmar que pra poder se entender comigo, levei o maluquinho pro jardim e tava voltando pro quarto, só que percebi que uma das balas atingiu em cheio a TV de 32”. Rapaz, se fosse mirado não acertava daquele jeito. Incrível. Ficou até bonito, é sério. Outra bala morreu no sofá, aquele branco bonitão e a última pegou o lustre chique. Que azar, né? Mas fique tranquilaço: limpei tudo e guardei as balas.
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Ói, eu limpei a bagaceira do quarto e a gente conversou. Ela tinha uma arma e atirou em mim, véi! De primeira, não explicou muito. Apertei e ela entregou: tava armada com medo de Reboco. Ele não tinha aceitado bem o fim de relacionamento e podia fazer qualquer coisa se encontrasse ela com algum desavisado. Aí fiz igual ao Milton Leite: “opa, que beleza…”. Cortei o leriado e falei pra ela vazar, mas foi só aí que me lembrei: e se ela tinha dito a alguém que ia me ver? Parei de contar na sétima testemunha. Mulher da língua frouxa, véi. Europa, França e Bahia sabia que ela tava comigo. Ia discutir de novo, quando ouvi som de vidro quebrado. Era da sala. Fui lá pensando em Bregueço. Não era ele. Era Reboco.
Pacífico, fio, tu lembra do tempo do baba no Fronteirão? Agora, pense em Valter Volvo. O cabra era ainda maior, bem mais feio e muito mais forte. Eu só tinha visto de longe, na rua, uma vez. Problema puro. Mas o cabra tem que ser home, certo? Porra niúma. Essa cabecinha pequena aqui também pensa. Vazei de volta pro quarto e ele atrás. Ficamos arrodeando a cama. Aliás, sua ideia maluca de ter cama redonda gigante no meio do quarto foi o que me salvou. A gente rodando feito peru, Catucha só no grito, uma agonia. Quando ele deu uma vacilada, me piquei pra sala. Queria sair pela porta da rua e ainda dar bronca em Bregueço – que diabo de cão de guarda deixa passar um animal desse? Só que mudei de ideia e fui pra cozinha. Ele veio atrás de mim, mandando bala! Uma pegou bem na cristaleira, aquela que foi presente da senhora sua mãe, querida Dona Vandinha, que Deus a tenha no reino da glória e a outra foi no som e só furou uma das caixas. Tá beleza, de boa. Agora, meu velho, na hora que ia entrar na cozinha, o anjo da guarda atuou. Assunte: abri a porta, ia entrando e… bum!
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Olhe, Pacífico, sei que tu não vai entender assim rápido, nem acreditar. Lhe adianto que o sujeito tava bêbado, eu digo o motorista do caminhão. Daqueles de carregar galinha. Ele contou na delegacia que tava correndo um tantinho, perdeu o freio, o bichão ganhou um pique retado descendo a ladeira, quebrou o muro e quase acaba a cozinha toda. Derrubou uma parte grande da parede, é verdade, mas veja, o que é esse pequeno prejuízo se seu amigo cabecinha aqui escapou? Sei que concorda comigo. Fiquei com um arranhão aqui, um corte ali. O caminhoneiro, virado pra lua, teve quase nada. Não era o dia do miserável. Nem gravei o nome dele. O apelido era Godzilla. Tu creia: era conhecido de Reboco. E olhe, fiquei foi agradecido por isso. Tirou a raiva do bruto. O susto foi grande. Aí se acalmou tudo e eu, Reboco, Catucha e um bando de vizinho seu, ficou todo mundo catando as galinhas que caíram do caminhão. Achado não é roubado. Tudo perdida, ali sem rumo. O motorista nem reclamou, só fazia se benzer.
Quando o socorro chegou, Reboco veio conversar. Catucha calada, se tremendo toda, presa no braço do brucutu montanhoso. Vendo que o negócio tava meio tenso, achei por bem oferecer uma bebida. Como a geladeira arregaçou toda, busquei uma garrafa de uísque, daquela boa que tu esconde no armário do escritório. Tu me contou uma vez, lembra? Como era questão de acomodar a raiva do sanguinolento, sei que tu não vai se incomodar. Ele mandou trazer umas garrafas pra me deixar em paz, aí autorizei levar foi tudo logo. Foi assim que perdi a mulher, escapei de cachação e tiro, quase morri, mas tô aqui inteiraço, pronto pra outra.
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É isso. Eu sei que num vai ser por causa dessas bobagens que aconteceram que tu vai ficar chateado com seu amigo Licuri. Pode contar comigo sempre, viu? Tamo junto. É nóis!
