Para tão longo amor, tão curta a vida (1)

Quando Ivan deu de aniversário de casamento para Elena um pequeno caderno azul de capa dura, escrito “Diário” em fonte desenhada, ela achou fofo. Deu um beijo na bochecha do marido e disse que não tinha lá tantas coisas a dizer sobre o seu dia, mas que era lindo que ele achasse o contrário.

– Quem sabe não escrevo sobre as férias das crianças?

Naquele dia o casal comemorava mais um aniversário de casamento. A alegria de Elena era genuína. Ivan já a tinha presenteado com todo tipo de coisa, especialmente as grandiosas. Engravatado do mercado financeiro e diletante das artes, não lhe faltavam dinheiro e bom gosto para agradá-la: viagens, roupas de grife, móveis de mais um século, joias de muitos dígitos. Agora, o caderno azul era a medida certa para um relacionamento que já dispensava grandes feitos, sinal de um amor altruísta e constante.

– O que vai querer pra jantar?

– Num dia normal eu apelaria para o peixe branco. Mas hoje tenho a recepção do Marcus, lembra?

– Quem sabe eu também não anoto umas receitas no diário? Um prato por dia, talvez?

Ivan sorriu, condescendente. Deu um beijo na testa de Elena e virou para o espelho da sala, ajeitando o colarinho. Era um homem alto, de compleição atlética apesar de magro, e seu corpo parecia composto apenas de linhas retas ou curvas velozes, como uma autoestrada. Se fosse um carro, seus amigos diriam (e ele os citaria), seria um modelo aerodinâmico. Nesse caso, o bigode simétrico seria o para-choque cromado, personalizado, um agrado da concessionária, lustrado pelos dedos finos de Elena como uma escovinha.

– Certeza que não vai comigo? – Ivan perguntou, agarrando a cintura de Elena e trazendo-a para perto de si, os dois lado a lado no espelho. A cabeça da esposa batia abaixo do seu ombro; o vestido largo e florido embaralhava sua idade. Ela ajeitava o cabelo chanel para deixá-lo mais simétrico, na altura da curvatura do queixo.

– Você sabe… Fico sem saber o que olhar e acabo com sono. Vou deixar o peixe no forno e você come se voltar com fome.

Com Ivan trabalhando e os filhos na escola, o dia todo se abria – e se mostrava precisamente vazio. Elena se sentou à mesa da sala e abriu o diário, sobrevoando as páginas brancas com uma caneta dourada. Lá fora, a água azul-claro da piscina imitava o céu limpo e refletia os contornos fugidios do funcionário recolhendo as folhas boiando na superfície. Alguns pássaros bateram as asas e voaram acima dos pequenos arbustos quando a jardineira passou a regar as prímulas ladeando os canteiros.

Elena fechou o diário e guardou a caneta. Foi ao quarto se trocar. Saiu de lá com um exemplar começado de um romance de banca, um chapéu e óculos-escuros quadrados que cobriam boa parte do rosto. Cumprimentou com um aceno os funcionários enquanto se esticava na espreguiçadeira. Tinha para si todo o manto azul e acolchoado do céu e a luz morna do sol aquecendo a pele pálida. Abriu o livro diante dos olhos por alguns minutos. Em movimentos precisos e estudados, um bem-te-vi bebia a água na borda oposta. Elena fechou o livro num baque e o pássaro voou para longe.

***

Não era incomum dispararem contra o casal a frase cretina de que os opostos se atraem. Elena sorria, ou tentava, e Ivan sorria sem disfarçar, já que o polo em que se encontrava nessa oposição era muito mais confortável do que o dela. Ivan era aquele que brilhava nos jantares e recepções e festas de família com uma taça na mão e na língua uma série de palavras importantes. Do lado uma mulher que não se importava em apenas fazer parte daquele quadro burlesco vestida em tons pasteis. Eles riam, se olhavam, comiam e bebiam e iam para casa e Elena dormia. Ivan voltava para a festa e no café da manhã lhe contava de olhos vermelhos o que a embriaguez colocava nas bocas dos convidados. Ela gargalhava e lhe servia mais café com leite. Eram namorados desde a adolescência – com um breve hiato entre o início e o fim do intercâmbio de Ivan na Europa – e os momentos de turbulência eram seguidos sempre por um ímpeto recíproco de razoabilidade, como se as duas pessoas que tivessem discutido minutos antes fossem hologramas ou fantasmas invocados pelo acaso diabólico de uma noite abafada.

Na madrugada após a recepção, Elena acordou com o abrir da porta, como sempre fazia. Do quarto, viu passarem pelo corredor dois vultos até uma das suítes nos fundos da casa. Depois de alguns minutos a porta de Elena se abriu por completo e a figura elétrica de Ivan apareceu diante da cama. Olhava para Elena como se através dela.

– Estou acordada.

– Ah, me desculpe – disse Ivan, como saído de um transe. Contornou a cama e se sentou para tirar os sapatos, de costas para Elena. – Você sabe, essa porta é pesada e nessa hora os ventos da praia chegam aqui como se estivéssemos à beira dela. Tentei não fazer barulho.

– Tem alguém lá atrás?

– Ah, sim. Uma amiga do Marcus perdeu a carona para o centro. E da casa dele, você sabe, é difícil conseguir voltar numa hora dessas. Como estamos no meio do caminho, ofereci o resto da carona amanhã de manhã quando eu sair.

– Não sei.

– O quê?

– Não sei onde é a casa do Marcus, nunca fui lá. Qual o nome da sua amiga?

– Amiga do Marcus. Paloma. Você vai gostar dela – disse, tirando rapidamente o resto da roupa e entrando no banheiro.

Enquanto ouvia o barulho do chuveiro, Elena escorregou de volta no sono. Ivan saiu do banho, escovou os dentes e deixou o quarto de toalha. Voltou depois de um tempo e se deitou ao lado da esposa e adormeceu sem delongas.

Na manhã seguinte, duas vozes femininas e entusiasmadas atravessaram o corredor e despertaram seu corpo cansado. Vinham da cozinha. Da soleira da porta Ivan viu entre as mulheres a mesa posta croissants, pães doces e salgados, patês, café, suco, leite. Paloma usava óculos-escuros redondos de hastes brancas e fumava e dava breves goles no café enquanto Elena gesticulava talvez no fim de uma história que Ivan nunca tinha ouvido, algo sobre um vira-lata que pulou no mar quando ela atravessava um rio numa canoa. Paloma abria os lábios vermelhos e espessos e produzia uma risada lenta e sussurrada, e todo o seu corpo acompanhava essa sutileza, pousado na cadeira de forma tão graciosa que era como se levitasse junto com a fumaça do seu cigarro. Só notaram sua presença quando ele se aproximou da mesa. Elena se levantou e lhe deu um beijo no rosto.

– Perdi alguma coisa? – disse Ivan, bocejando e servindo-se de café.

– Perdeu tudo – respondeu Paloma, tirando os óculos-escuros e olhando direto nos olhos de Ivan, compartilhando as olheiras e os olhos cor de sangue. – Você não disse que sua mulher era tão divertida. Devia ter levado ela pra animar aquela coisa sem graça de ontem.

– Ivan não me acha engraçada – provocou Elena, olhando de esguelha para ele e simulando uma expressão dramática.

– Que besteira – ele rebateu, sorrindo para a esposa e acolhendo sua cabeça no ombro direito. Depois se virou para Paloma. – Está pronta?

– Ainda não. – E acendeu outro. – Que pressa. Sua mulher é uma anfitriã muito melhor.

Ambas gargalharam. Ivan deu um pequeno sorriso e se serviu de pão e queijo de cabra. Paloma pediu que Elena retomasse a história.

– O único que tinha experiência naquele rio pulou na água e conseguiu resgatá-lo. Depois o cachorro acabou virando mascote da turma, até onde eu sei. – Fez uma pausa e deu um gole no suco de laranja. – Engravidei, tranquei o direito e não tive mais notícia do pessoal. Quando desisti de vez foi um alívio. A vida da gente muda.

– Muda? – Paloma perguntou rapidamente, como se tivesse ouvido a frase antes que Elena a proferisse. Ivan não esboçou reação.

– Muda pra melhor. É claro que até o que é melhor a gente tenta não aceitar. Depois que Miguel entrou na escola, tentei voltar. Fiz pedagogia por mais dois anos, igual direito. Mas já estava com a cabeça em outro lugar.

– Onde? – de novo a pergunta premonitória de Paloma. Dessa vez Elena tinha mordido uma torrada e aproveitou para continuar mastigando e sorrindo e revirando de leve os olhos. Paloma continuou: – Eu acho que vou ter sempre a cabeça no mesmo lugar. Não me vejo fazendo outra coisa senão lidando com poesia. Os poetas eu dispenso.

– Você escreve poesia! Já li muito quando era nova, adorava, mas nem sempre entendia tudo. É uma coisa tão misteriosa… Você sabe melhor do que eu. – Olhou para Ivan, que seguia em silêncio e comendo mais do que o normal. – Não é como a vida. A vida é concreta.

– Acho que temos uma poeta aqui – brincou Paloma.

Elena corou e Paloma lhe devolveu um sorriso cordial e acendeu outro cigarro. Elena encheu a xícara da convidada e empurrou a tigela de frutas em sua direção, mas Paloma recusou educadamente. Fumou o resto do maço enquanto ouvia Elena e de vez em quando escorregava os olhos para Ivan, este com a cabeça enterrada no prato. No fim daquela conversa Paloma esqueceria os óculos-escuros ao lado da manteigueira francesa.  

***

Elena encontrou os óculos de Paloma meia hora depois de saírem, quando tirava a mesa do café. Podia ter ligado para Ivan, mas àquela altura ele talvez já tivesse deixado Paloma no caminho e até chegado no escritório. Pegou os óculos, abriu as hastes e virou para si, como se os colocasse em alguém à sua frente. Ela não se lembrava de Ivan ter levado qualquer pessoa para dormir na casa deles, amigo ou amiga. A imagem dos dois vultos entrando na suíte não tinha passado incólume. De fato, havia algo de estranho em Ivan naquela manhã. Mas Elena era inteligente o suficiente para saber que todo significado pode ser alcançado por certa disposição de peças em seus encaixes. Ivan estava de ressaca e tinha dormido pouco. A paranoia tornaria tudo tangível, exceto o que realmente devia ser levado em conta – os anos de casamento sem sobressaltos. Para ser sincera, ela concluía guardando os óculos na gaveta, sentia-se mal em sequer considerar a suspeita.

E tinha gostado de conversar com Paloma. Nem se lembrava da última vez que tinha falado sobre os tempos na faculdade. Havia uma vivacidade na sua voz ao contar de sua juventude para Paloma e agora que lembrava disso chegava a sorrir e a corar. Talvez daqui a pouco ela ligasse perguntando se tinha deixado os óculos na casa de Elena e ela pudesse de novo fazer passar todo aquele tempo na cabeça como um filme secreto. Pensando bem, não tinha deixado Paloma falar da sua vida na universidade, que devia ter sido muito mais interessante que a dela. Afinal, Paloma era poeta, e os poetas tinham uma vida muito mais agitada que donas de casa e desertoras da educação e da lei.

Paloma não ligou. No início da noite, a mesa do jantar já estava posta e havia vitela e batatas assadas e um vinho branco dentro de um balde de gelo esperando que Ivan o abrisse. Ele chegou sem estardalhaço.

– Receita nova. Foi o melhor prato que comemos quando estivemos a primeira vez em Buenos Aires. Você lembra?

– Claro. Foi depois de irmos ao museu de belas artes. Primeira vez que vi um Rodin em terras latinas. Definitivamente uma sensação singular. O busto de Balzac era como um chamado à guerra, quase uma coisa clandestina, subtrair o cânone e trazê-lo para nossas trincheiras…

– Antes de você acordar, Paloma falou do tempo que passou em Buenos Aires. Ela se percebeu poeta num jardim com o busto do Borges. Quando se deparou com ele, começou a chorar…

– Embora Borges não fosse um grande poeta.

– É como se eles tivessem se reconhecido, a alma do Borges e a alma da Paloma. Acho que os poetas têm dessas coisas.

– Ela não é bem poeta, é editora de poesia. Tem uma revista não muito conhecida.

Ivan acelerou as garfadas e logo o primeiro prato estava vazio. Viu Elena sorrindo, tomada por algum devaneio.

– Quando eu disse que você ia gostar dela, estava sendo diplomático. Vocês são bem diferentes, completamente.

– Achei que você não a conhecesse muito.

– Pelo que o Marcus disse. Nada contra ela. Mas ela é ligada ao pessoal da Cidade Baixa. Talvez por isso a revista não vá muito pra frente. Não se pode frequentar certos ambientes sem atrair para si certas inimizades. Você não se daria bem com ela.

– Não seja tão ciumento. Sua amiga pode ser minha amiga também. – Riu com sarcasmo, surpreendendo-o com aquele tom inédito.

– Ela é amiga do Marcus.

Comeram o resto da vitela em meio a frases de rotina. Ivan não quis sobremesa e foi dormir. Devia ter comido muito ou estar cansado da festa de ontem, porque da cozinha Elena conseguia ouvir sua respiração pesada. Quando terminava a última taça de vinho se viu inclinada a escrever no diário. E então a caneta se ergueu na sua mão e tudo ficou mais difícil. Era apenas sentar e escrever sobre o seu dia, ela dizia a si mesma, e no seu dia finalmente algo acontecera digno de nota – Paloma. Mas estava lá a página em branco, indomável. Já tinha dito tudo a Ivan e não sabia como dizer tudo de novo sem se repetir. E dizer para quem? Aquela conversa com o diário já nascia morta. Se não havia alguém disposto a ouvir, não havia por que abrir a boca. A única coisa que não tinha dito a Ivan era que a presença de Paloma continuava na casa, dentro da gaveta do armário. Não sabia por que não tocara no assunto, mas o fato de não mencionar os óculos transformava aquele objeto não dito num objeto secreto. E de tão secreto, nem o diário ficaria sabendo.

***

Dois dias depois o funcionário veio avisar a Elena que uma moça chamada Paloma estava no portão para buscar uns óculos. Tinha deixado talvez em cima da mesa da cozinha enquanto conversava com a dona da casa. Elena mandou convidá-la a entrar e pegou os óculos dentro da gaveta do armário. Não deixou de reparar na ansiedade com que a aguardava.

– Agora você já sabe que a minha cabeça é assim – disse Paloma desde as escadas da entrada, mexendo as mãos como se desenhassem arabescos no ar. Era como uma alucinação atravessando o saguão com o vestido leve e todo branco dentro dos fachos de luz amarela que se infiltrava pelas frestas da persiana. – Não vou estragar sua tarde.

– Não é problema nenhum. Estou fazendo um café. – E lhe entregou os óculos.

Sentaram-se em volta dos salgados e dos doces e das frutas. Paloma deu três goles na xícara de café no intervalo de cada macaron que comeu com deleite nos olhos. Elena a observava, perdida na pele de porcelana de Paloma, estudando as linhas de sua maçã cavada e do queixo esguio, o gesto certeiro do cigarro aceso. Tragava todo o universo naqueles cigarros. Uma dessas baforadas ela deu com o próprio ar da cozinha depois de um longo suspiro.

– É incrível isso tudo.

– Que cabeça minha, você já está aqui pela segunda vez e ainda não te mostrei a casa. Você tem tanto gosto, deve ter uma casa maravilhosa.

– É um quarto, na verdade. Um belo e estreito e mal iluminado quarto.

– Ah, você divide a casa com outra escritora?

– Não é má ideia. Mas sou estudante. Moro no alojamento da faculdade

Elena apenas assentiu e se serviu de mais café. Não tinha notado – ou tinha tentado ignorar – que Paloma era tão jovem. Não devia ser muitos anos mais velha que a filha.

– Você parece tão vivida – disse, mais para si do que para Paloma. A jovem percebeu e deu um sorriso discreto, de compaixão.

– Há mais na vida do que os anos, Elena.

A descoberta da idade de Paloma parecia ter posto um fim precoce à conversa. Um muro de gelo tinha se erguido sobre a mesa do café. Elena se sentia patética por ter compartilhado sua juventude com alguém cujos melhores anos estavam em curso ou por vir. Alguém que ainda faria tudo o que ela não fez. Paloma pousou em definitivo a xícara no pires e pegou os óculos pelas hastes.

– Experimenta – disse, entregando para Elena.

– Assim vou me sentir mais idiota.

– Experimenta. Acho que vão ficar ótimos em você.

Elena se levantou e levou os óculos para frente da penteadeira. Antes de colocá-lo, penteou o cabelo de modo a acentuar a divisão das partes no meio da cabeça, e em seguida o prendeu num coque bem acima da nuca. Colocou os óculos-escuros e fixou-se na sua figura refletida e sorriu um sorriso indisfarçável. Quando voltou para a mesa da cozinha, Paloma estava séria. Elena se sentou, tirou os óculos e abriu os olhos muito lentamente, como se voltasse ao mundo depois de um filme longo visto dentro das lentes. Paloma suspirou e cruzou os braços passando as mãos sobre os ombros.

– É impressionante – disse.

– Não gostou?

– Como você parece com ela.

– Com quem?

– Emily Dickinson. Você é igual a Emily Dickinson.

– Com os óculos ou sem?

Não importava; a expressão de entusiasmo que se desenhou no rosto de Paloma foi suficiente para Elena voltar a corar. Se havia um rosto a ser revelado, Paloma disse, talvez também exista uma poeta incubada.

– Ivan me deu um diário. Mas de escritora só devo ter a cara mesmo.

– Aposto que precisa de um empurrão. Um empurrão certo, de cair da escada – disse, arrancando risadas de Elena. – Mas falo sério. Você devia ir comigo na casa do George. Todo o pessoal da revista vai e outros tantos. Lá você vai se ver no espelho.

Elena riu de novo e não respondeu. Paloma apagou o cigarro no cinzeiro e pôs a bolsa no ombro direito, levantando-se da cadeira. Elena fez menção de lhe entregar os óculos.

– Agora são seus. Não tenho escolha, Emily.

Paloma desceu as escadas seguida pela barra esvoaçante do vestido. Depois de ouvir a porta bater, Elena voltou à frente do espelho e colocou os óculos no rosto, erguendo o braço esquerdo de forma afetada, fumando um cigarro imaginário. Terminada a atuação, guardou-o de volta na gaveta do armário da cozinha.

Ivan chegou em casa no fim da tarde e a primeira coisa que estranhou foi a mesa ainda com o café. A segunda foi o olhar perdido de Elena, sentada no sofá com o romance de banca no colo. Antes que o marido perguntasse, contou que Paloma esteve lá para tomar café com ela, pois na manhã que se conheceram não houve muito tempo para conversar. E que a nova amiga lhe disse que ela parece com a poeta Emily Dickinson. A expressão de surpresa no rosto de Ivan se transformou em algo indecifrável mas sem dúvida soturno.

– Não sei se parece – ele respondeu. – Acho que vamos pedir algo para jantar.

– Talvez eu devesse arriscar uns versos. No diário que você me deu. Quando eu era adolescente, vivia escrevendo poesias num caderno. Naquela noite comeram comida chinesa. Ivan terminou seu prato e o de Elena, que mal mexeu na comida enquanto bebericava uma taça de vinho tinto. O marido a abraçou e logo foi para a cama, pulando o banho. Da cozinha, ela sentiu a fumaça e o odor característico tomando os cômodos. Devia ter sido um dia longo de trabalho para Ivan. Elena adormeceu no sofá e acordou antes da aurora com o barulho do chuveiro. Levantou e foi para a cama enquanto Ivan escovava os dentes, e fechou os olhos e permaneceu assim antes que ele pudesse abrir a porta do banheiro. Quando saiu do quarto para a cozinha, viu na mesa do café um exemplar surrado com a assinatura de Ivan – Para tão longo amor, tão curta a vida.

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