
A novaiorquina Lauren Elkin mora em Paris, é escritora, crítica e tradutora, e colabora como New York Times Book Review, frieze e The Guardian. Este ensaio de 2016 saiu aqui no Brasil pela Fósforo e mistura autoficção com uma pesquisa histórica rigorosa, comprovando o que já suspeitávamos: como sugerem os escritos de Jean Rhys, George Sand, Virginia Woolf, Sophie Calle, Martha Gelhorn, Joan Didian e tantas outras, desde antes do clássico O Homem da Multidão, de Edgar Allan Poe, onde Baudelaire captou a figura do flâneur, as mulheres sempre estavam dando suas voltinhas por aí.
Tem duas referências a relacionar aqui. A releitura da flâneuse de Baudelaire por Vinicius de Moraes,
outras referências de ontem que fiquei devendo:
A MULHER QUE PASSA
Rio de Janeiro , 1938
Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!
No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que boia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.
…e o livro do Perec que ela não cita é Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense (GG Edições)















PROPOSTA
A proposta é que você ANDE, se coloque em ação.
Você vai escrever até uns 8 mil toques no máximo sobre o percurso que faz do lugar A para o lugar B para levar o objeto X para a pessoa Y.
Levar o objeto X para a pessoa Y é só um pretexto para seu texto, mas você deve relacionar este pretexto ao foco da sua crônica – que é sobre o que você vê do lado de fora e o que sente do lado de dentro.
NÃO use advérbios nem substantivos abstratos. RESTRINJA o uso de adjetivos. PREFIRA símiles, metáforas e comparações.
O percurso será extraído dos dois lugares da sua cidade (A e B) de que você mais gosta. Procure pensar em lugares não muito óbvios, lugares que você conheça bem, mas lugares que não seja muito perto um do outro (em SP, tipo Sesc Paulista e Livraria Cultura, por exemplo).
Normalmente, este exercício estimula o participante a praticar o passeio a pé. Ou de ônibus, de metrô, de bicicleta. Tente não andar de carro nem de táxi ou Uber, e helicóptero só em último caso.
Inspire-se em Lauren Elkin e faça como um flâneur ou uma flâneuse: zanze.
Na primeira pessoa, obviamente.
Mãos à obra.
