3 X 2 – pra mim

Se estou andando na rua, seja onde estiver, com quem estiver, pode ser dia começando ou noite de dar medo, compromisso com horário ou caminho da roça, tenho comigo um acordo: eu não desvio de homem. Quiser atropelar, atropele, mas vai cair junto.

Desvio não. De casa pra escola das meninas, por exemplo, dá pra cruzar entre cinco e sete homens. Saio quase sempre invicta do percurso. Invicta de colisões. Olhares incrédulos levo de monte, mas quem tem que desviar são eles. Desvio não. Só que quase não é sempre, né? De casa pro consultório é mais perto ainda, nem uma quadra, mesmo assim, quinta-feira perdi de 1X0. Mulheres que me leem sabem. Pedestres homens – quase todos, antes que salte um ah, mas nem todo homem – não arredam uma lajota de calçada do caminho que traçaram pra si. Pode observar. Somos nós, as mulheres, a estender tapete, ainda que pra isso seja preciso invadir a pista, pisar em um buraco, se amassar contra um muro.

Estendo não. O 3X2 é de antes de ontem. Era de manhã cedo, fazia um friozinho, domingo, a rua vazia, vazia. Fui buscar um pão na Fabrique; só subir a Angélica até a Sergipe e virar pra Itacolomi, oito quadras no máximo. O primeiro que ganhei foi ainda antes da Baronesa de Itu, quase no portão de casa. Meu vizinho do terceiro andar, nem sei se vale ponto, ele já me conhece. Contornou a árvore antes mesmo de chegar perto. Bom dia. Bom dia. O segundo foi um pouquinho mais pra frente. Moço com roupa de academia, cara de endorfinado, tênis de uns R$2 mil deslizando amortecido no meio da calçada, ocupava sem restrições seu espaço no mundo. Eu, mais perto da rua. Aí vem um outro pela direita e me ultrapassa. Aqui, dois detalhes importantes: 1. Na cena dois homens precisam passar pelo mesmo lugar, há um acordo interno que permite exceção, os dois desviam, se der, até cumprimentam-se com uma baixadinha de cabeça. 2. Na cena mulher e homem andam na mesma direção e velocidade, o sujeito macho vai te ultrapassar, é quase como uma questão de honra pra eles, sabe? Nesse caso, tenho comigo um outro combinado.

Deixo não. Nem que, no limite, precise ser atropelada por um carro, trombar num poste, soltar a mão de uma criança, não deixo. Lá vêm eles impondo velocidade, lá venho eu botando as pernas pra trabalhar. Não passa mesmo. Mas eram 7h ainda, e o não desviar se sobrepõe ao não deixar ultrapassar. Pois bem, o do meio vem pro meu lado e lá permanece, o outro vai mais pra a direita. Passam. Baixadinha de cabeça. O que fica me olha, vê que ocupamos a mesma reta, cada um numa direção, caminha na certeza de que abrirei espaço. Há tempo de sobra para ele voltar para o conforto do meio, eu sei e ele também sabe. Um passo, e outro, e mais um. Eu olho fixo pra frente, vai bater, vai bater, vai bater. Ele furando meu olho. A gente a 80, 60, 40, 20 cm um do outro. Batemos, peito aberto, que não desvio nem um milímetro. Ai, louca, doeu!

Em mim, doeu não. Ele, na altura dos seus quase 1,90m, aquele braço forte/mole – de bomba, que eu sei -, uns 40, me tirou de louca porque não fiz o que, na sua cabecinha suada, era o óbvio. Ficou lá, se limpando de mim, passando a mão na camiseta, como quem, a qualquer momento, vai chamar pela mãe. Atravesso a rua, o cara do posto horrorizado. Se brincar, correu pra ajudar. A classe é unida.

Aguento não. Três quadras inteiras pra frente, já tinha até esquecido do encontrão. Cruzo mais um no farol. Lá vem ele, tipinho de jaleco fora do hospital, Ray-ban da Chilli Beans na cabeça. Se fosse um jogo de futebol na televisão, rapidinho puxavam aquela animação 3D, câmera de cima, uma linha se desenha entre a gente, dois jogadores na exata mesma linha, eles se aproximam um do outro, o bonequinho do farol já piscando vermelho, eu e ele pisando duro, vai bater, vai bater, vai bater. Ele desvia. Cansado do plantão, será?

Tenho pena não, 3X0 pra mim. Sigo já mirando um grupinho de quatro no meio da quadra. Saí de casa tão querida, e a essa hora o desejo já é de boliche. Por mim, derrubava tudinho. Um ajoelha pra amarrar o cadarço, o menorzinho se afasta. Fico entre os dois maiores, banhos recém-tomados, aquela mistura de xampu de Cristiano Ronaldo e Rexona Men, se encostar empesteia pra sempre. Diminuo a velocidade, viro de ladinho, deus me livre, deixa passar, 3X1. Mas aí o do cadarço levanta. Ele assistiu à cena, aposto que gostou de me ver perder. A cara é de se essa rua fosse minha coisa nenhuma, é minha. Quero ver quem vem pegar. Pois eu vou. Ele com um pacotinho da Fabrique na mão. Se esse cara tiver comprado o último croissant de creme da padaria, é agora que eu desmantelo ele com pacote e tudo. Venha, pode vir. E ele vem. Tem espaço pros dois lados, mas ele vem na minha listrinha preta da calçada. Vem meio devagar, como quem quer aproveitar a cena quadro a quadro.

Tem pressa não. Reduzo junto. Pé ante pé, nós dois. Quase um The Lovers só que de quinta categoria, só que com um pacote de pão e uma ecobag do Mambo. As pontinhas do All Star e das Havaianas a menos de um palmo. Vai bater, vai bater, vai bater. A senhora me daria licença? É que não dou conta de pisar no branco. Tá bom, vai, 3×2.

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