Caminho

por Américo Paim

Desci do carro ouvindo a chiadeira de Piaçava. O cara era meu amigo, mas andava virado comigo por causa de uma grana que eu devia. Só me deu a carona porque Licinha tava junto. A mulher é uma santa, na moral. Um cara nó cego desse com uma gata assim? Quem entende saporra? Me largou na cabeça da ladeira do Taboão. Subi o Pelourinho todo. Sábado de manhã, um calor de camelo ia pedir água. Se Pia soubesse da minha missão, ia até pegar mais leve…

Passei pela Fundação Casa de Jorge Amado. Tive ali na Flipelô no ano que Mabel Velloso veio. Foi bom. Ainda nem li os livros que comprei, o último de João Ubaldo, “Albatroz Azul” … Levei pelo título. Tava quente, claro, e bem cheio. Só perdia pra Flica, no portal do inferno de Cachoeira, de passar mal.

Subi a Rua Alfredo de Brito driblando o povo na rua. Parecia a torcida do Bahia, de bermuda e camiseta, top e saia. Depois que pintaram as casas, quando passa uma turma de roupa colorida, mistura com as paredes e os enfeites nas portas das lojas, fica feito um Carybé, um Jorge, uma música de Caymmi, que tinha o sonho de criar uma melodia que “se perdesse no meio do povo…”. Oxe, e não fez? Parei um tiquinho em frente ao hotel em que cansei de assistir Gerônimo com a Banda Mont Serrat, toda terça à noite. Suingueira total. Foi onde eu conheci Serena. A gente se atracou ali mesmo, dançando suado. Tá no Maranhão agora. Nunca respondeu minhas mensagens. Ali era melhor que final feliz, com aquele sinal na bochecha e um molejo que “pelamordedeus”… Me cansei da subida, tô bem fora de forma. Parei e tomei uma água no Cantina da Lua, olhando o Terreiro, a Catedral à direita e o Cravinho do outro lado da praça. Tempo bom com a turma vindo pra cá ver a capoeira e tomar umas. Eu, Gersinho, Tolôco, Candeeiro, Pedrão, Neneco, Piaçava. Corri a mão no bolso pra conferir o pacote e segui para a Praça da Sé.

Rolando uma obra diante do antigo Cine Excelsior. Dizem que vai virar centro de convenções. Os caras no trampo debaixo de um calor do cão, devagar, rindo do leriado. A praça tá toda calçada. No tempo que era tudo asfalto, aqui ficava um ponto final de ônibus. Meu pai contava isso. Foi na Praça da Sé que ele ficou sabendo que Elvis tinha morrido. Ele nem gostava de rock, só que ficou besta com as pessoas chorando. Cheguei ao Belvedere, olhei de longe para a velha A Primavera, onde comprei minhas primeiras cordas de violão. A loja ficou bem menor, mas resistiu. Vinha sempre com Juli. Não entendia nada de música, agora era companheirona. Mais bonita que notícia boa e tinha riso frouxo. Foi embora pra França. Nem deve lembrar mais de mim. Busquei uma sombra na Cruz Caída, uns minutos de descanso, em frente ao Memorial das Baianas de Acarajé. Como nunca entrei ali? “Um dia preciso ir…”. Fiquei vendo o mar, tomando uma fresca, como diria minha mãe. De canto de olho, vi um sujeito esquisito. No reflexo, bati a mão e tava tudo lá. Tomei meu rumo de novo. Ali não dava pra vacilar com vagabundo…

Andei ligeiro até a Cubana do Elevador Lacerda, na Praça Municipal. Tomei um sorvete de manga e fiquei apreciando a beleza lá embaixo: Baía de Todos os Santos, Mercado Modelo, Forte São Marcelo, Itaparica lá longe. Agora não, mas teve um tempo que a sorveteria foi lugar tão bom quanto ser atropelado. Tinha recebido proposta de emprego em São Paulo e trouxe Milena pra conversar. Ela esperava que eu falasse em noivado, depois de três anos de namoro, e eu precisava mesmo era de um tempo. O papo terminou com ela jogando resto de milk-shake na minha cara. Sempre esquentadinha. O povo nas mesas riu, um ou outro veio ajudar. Eu lambi todo o chocolate, confesso. E fui pra São Paulo. A gente se viu anos depois. Balancei a cabeça, ela devolveu um sorriso mais falso que nota de trezentos reais.

Segui pela Rua Chile, em direção à Praça Castro Alves. Só me veio as histórias que minha mãe contava sobre a Mulher de Roxo, a doida que virou até filme. O nome era Florinda, mas alguns diziam que era Doralice. Andava descalça pela Rua Chile e outras. Vestida de roxo, a roupa lembrando hábito de freira. Às vezes de noiva, toda de branco, sempre com um crucifixo pesado no pescoço. Contavam que foi abandonada no altar e perdeu a razão. O povo tinha pena e medo dela. Até chegar à praça, vi muitos mendigos, nada folclóricos, à toa pelas decadentes calçadas, que um dia tinham sido endereço de compras de quem tinha mais dinheiro que minha quantidade de problemas.

A visão da Castro Alves até recuperou meu fôlego, mas resolvi atravessar até a Rua Ruy Barbosa, e dei um pulo no Sebo Brandão. Queria ver as prateleiras atoladas de livros, e cheirar aquela velharia toda. Antes de passar pelo antigo Cine Tamoio, parei diante do prédio onde trabalhava o cineasta Carlos Modesto, que escrevia sobre filmes e, como eu, adorava os clássicos. Foram tardes papeando sobre a sétima arte. Ele voltou para a sua Estância natal, em Sergipe. Desci a rua, passei pelo Hotel Fasano, pelo Cine Glauber Rocha e pela escadaria da Barroquinha. A velha igreja estava lá. Fui a um lançamento de livro ali e tomei um fora de uma ruiva que tinha cara de zagueiro quando faz gol contra. Eu só queria conversar, mas ela se retou, não entendeu. Esqueci o nome dela. Subi a Ladeira de São Bento e fui pela Avenida Sete, sentido Campo Grande.

Ultrapassei a entrada do Rua do Paraíso, que vem da Mouraria e onde ficava o finado Boteco do Beleza, de comida que dava medo, sanitário “one way”, mas cerveja nariz de foca. Depois, no Relógio de São Pedro, me assustei com o comércio entupido de gente como sempre, feito praça de guerra. Ali havia a Sorveteria Primavera, que tinha umas kombis abertas nas laterais, vendendo pela cidade. E a barbearia do Mestre Oene, no calçadão, que cortava também em domicílio e meu avô era freguês. O prédio da Fundação Politécnica ainda estava lá, do outro lado da rua. Sempre me pareceu um pequeno shopping center. Ainda Lembrei de uma briga nível MMA no Carnaval, voando mesa, cadeira, garrafa. Eu tava com uma mulher que se perdeu de mim na confusão. Nunca mais vi. Deve ter achado coisa melhor por ali mesmo.  

     

Acelerei o passo. A hora se aproximava. Vez por outra eu checava o bolso. Corria tudo bem. Na Praça da Piedade, mais recordações legais: beijo no Carnaval, camaleões na praça, artistas de rua e lambe-lambes. Restou pouco disso. Ali perto ficava o Baitakão, com sanduíches do tamanho de campo de futebol, local certo para fim de noite e infecções intestinais. O povo apostava para ver quem conseguia comer mais. Passei pelo antigo Colégio das Mercês, ponto de paquera com as meninas uniformizadas de branco e verde. Cheguei à antiga Casa D’Itália, clássico point da folia momesca, atravessei para a calçada do Palácio da Aclamação, em direção ao meu destino.

Atravessei o Portal e estava no Passeio Público. Na hora certa. O lugar sempre me encantou, apesar do abandono de hoje. Suas árvores feito prédios, jaqueiras, palmeiras. A vista para a Baía de Todos os Santos estava bem obstruída por construções irregulares. Fiquei em frente ao Teatro Vila Velha, onde marcamos, não por acaso. Foi onde deveria ter começado tudo. Perdemos tempo, eu pensava. Ela chegou. Seu cheiro e seu andar vieram antes. Estava de branco, sua pele negra era um brilho só. Eu nervoso, com medo de abrir a boca. Ela diante de mim foi como nocaute. Sem formalidades, peguei a caixa no meu bolso, abri e lhe mostrei. Ela sorriu. Entendeu tudo. Saímos à toa. Apenas andamos. Na minha cabeça um sopro de voz dizendo que havia uma chance. Do lado de fora, o vento varrendo as folhas nas árvores e no chão, como a abrir caminho.

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