É discutível dizer que um lugar fica perto porque se vai a pé até ele. Da mesma forma que quem tem boca vai a Roma (mesmo com as controvérsias do “vaia Roma”), quem tem pés chega a qualquer lugar. A diferença é o tempo que demora. De resto, mesmo levando meses ou anos e sendo necessário uma travessia por navio ou um estreito onde pisar no extremo da Terra, a gente pode, a pé, chegar a qualquer país de qualquer continente além oceano.
Aqui do meu apartamento no Sumaré, sem viajar muito nas distâncias do planeta, posso dizer que moro perto. Perto do Centro, da Paulista, de Pinheiros, Vila Madalena, Perdizes, Pompeia ,Lapa, lugares pra onde costumo caminhar em vez de usar o carro. É saudável e permite conhecer cada rua. Faço isso em dias de folga. Nos outros, prefiro um combinado com o transporte público.
Semana passada, fui três vezes ao Centro e de ônibus. Esqueci de dizer que as caminhadas que prefiro são as sem destino e sem compromisso. No caso destas três vezes, tinha umas questões burocráticas a resolver num cartório, lugar nada atrativo e sem graça. O prédio, na XV de Novembro era, pelo menos, destes antigos com uns 4 metros de pé direito e alguma beleza corrompida pelo piso vinílico, guichês e painéis luminosos. O lugar era só o meu destino e não teria ido três vezes com algum prazer se não soubesse que iria descer na Xavier de Toledo e caminhar pelas calçadas largas do Viaduto do Chá num trajeto de que gosto.
Na primeira vez, na quarta-feira, fui de manhã. Queria ter saído mais cedo para evitar o calor. Não deu. Cheguei perto das 10h30 e dei a sorte de pegar uma brisa fresca que parecia mandada da Praça do Patriarca. Um bom ventinho é quase tudo o que se precisa pra ganhar disposição. Com o ar mais fresco, cada ambulante do pedaço parecia um empreendedor bem sucedido. Nem sei por que esta sensação, que do jeito que veio voou e sumiu para os lados do Teatro Municipal. Sobrou a constatação de que o empreendedorismo informal funciona só no sentido Prédio da Prefeitura e que, do outro lado, a gente não encontra ninguém para ler o destino, vender alicates, mapas da cidade e isqueiros.
O caminho parecia bom. Mal sabia que na Rua São Bento ia encontrar homens e mulheres famélicos. Lembravam uma pintura de Pierre Bruegel, com a diferença que os personagens usavam sandália havaiana. Um deles estendido sobre as pedras portuguesas escolheu (ou foi escolhido) pelo meio da rua. Ninguém para acordá-lo antes da chegada de um carro forte. Segui meio chocada e dei de cara com a senhora de lenço na cabeça, rosto escavado por rugas que vendia panos de pratos sob um guarda-chuva de arco-íris. Dava uma foto, ou um outro quadro do pintor renascentista, mas não tive coragem. Determinei ali que a voltinha pelo centro terminava no cartório e o retorno era sem paradas. Não sabia ainda que o documento precisava de correções e teria que levá-lo de novo no dia seguinte.
Na quinta-feira, o dia seguinte, fui à tarde e, pelo mesmo caminho, nenhuma brisa . Só um bafo quente. Fiz o trajeto apressada com medo da chuva e das cenas. As vozes dos homens que chamam para as lojas pareciam misturadas e mal entendi o que ofereciam. Andar apressada me deixou entorpecida e quase cega. Tardes de verão nas ruas do centro não se comparam a passeios beira-mar. Cheguei mais rápido ao prédio na XV de Novembro, entreguei os papeis corrigidos, aguardei a conferência , paguei e saí correndo para a cidade quente que não me acolhia. Parei para olhar o guindaste com os homens de laranja que iam trocar lâmpadas. Olhar pra eles me permitiu ver parte do Banco Santander que ainda chamo de Banespa. Ali dá pra subir e mirar a cidade. Nenhuma vontade além da volta para casa pela calçada sem ambulantes no sentido teatro. Nenhum prazer. Devem ser as questões. As burocráticas e as pessoais tomando conta do que sempre apreciei. Atravessei a pista do viaduto e cheguei ao ponto do ônibus que me leva ao centro com o nome de Praça Ramos e volta com o nome de uma rua aqui no bairro. É uma espécie de circular e quase nunca está lotado. Que bom que veio rápido. Consegui escapar da chuva , queria também ter escapado destes medos que têm me consumido o prazer.
Na terceira ida, na sexta-feira, fiz o mesmo caminho , mas dessa vez a chuva começou ainda no ônibus. Tudo muda na paisagem. A gente se abriga sob alguma marquise para lutar com um guarda-chuva que abre mas não trava por conta de uma vareta que se solta só para cortar o dedo e a pele do braço. Sangue e água na mochila. Nenhum band aid e o fantasma de sujar a ata registrada do condomínio. Foi disso, em minha nova função como síndica que fui tratar. Taí uma das explicações da minha angústia. Devia mesmo ter aceitado a função? Agora já foi. Tá na chuva é pra se molhar. No lado dos empreendedores do Viaduto do Chá ninguém para consertar guarda-chuva, nem vender band aids , nem lavar mochilas. O dedo parou de sangrar. Cheguei ao Cartório e me lambuzei de álcool em gel antes de pegar o documento. Deu tudo certo. Não sujei o papel. Lá fora a chuva parou. Saí para rua sentindo um misto de alívio , responsabilidade e dever cumprido. Por uns minutos, até me esqueci das angústias que prescindem de papel e carimbos de cartório.
