O homem que vem em nossa direção para e ergue os braços. Interpretamos a mímica como um agradecimento pelo dia que faz, o sol forte, as raras nuvens, a brisa, as ondas que se sucedem mansas no espelho líquido sobre a areia em que caminhamos. Com o gesto, o homem não demonstra gratidão a algum deus específico. Sua religião, se é que ele a tem, é hedonista.
Passamos, Elize e eu, seis meses trocando cumprimentos polidos com aquele senhor, ao cruzarmos nossos caminhos diariamente no percurso entre as praias de Pitangueiras e Astúrias. Chegamos a batizá-lo de Nestor para facilitar a referência. Certa manhã de inverno, talvez porque houvesse poucos caminhantes, ele parou diante de nós. Depois de alguns comentários genéricos de parte a parte, continuamos nossos trajetos opostos.
Caminhar na praia é uma atividade aconselhada por médicos e nutricionistas para melhorar o condicionamento físico, controlar o estresse e adquirir vitamina D, entre outros benefícios. Desde que alugamos um apartamento em contrato longo, há mais de um ano, apenas uma vez nos sentamos em nossas cadeiras de alumínio diante do mar. Em vez disso, criamos a rotina de percorrer os sete quilômetros, ida e volta, das duas praias centrais da cidade do Guarujá, na Baixada Paulista.
É certo que nosso ritmo não é vigoroso, como recomendam os especialistas. A andadura vagarosa prescinde de hidratação, alongamento dos músculos da perna e até de usar calçado para se proteger de eventuais cacos de vidro. Menos perigoso, mas inevitável e ainda assim dolorido, é pisar nas conchas minúsculas de gastrópodes cujo formato de cone descobrimos ser ideal para fincar na sola do pé.
Quando jovem, eu não entendia por que havia pessoas que andavam sem necessidade. Não se deslocar para levar alguma coisa até alguém ou buscar uma encomenda, mas andar só por andar. Idem em relação a correr. Sair do ponto A e voltar para o mesmo lugar, seja em um parque ou pista, me parecia inútil, para dizer o mínimo. Até que, nos anos 1970, o professor Kenneth Cooper apareceu com seu teste e fez todos calçarem Congas e correr sem ser para fugir de cachorro.
“João Frutuoso, ao seu serviço”, dispara Nestor depois de abaixar os braços, o sorriso permanente faiscando no rosto bem barbeado. Sempre descalço e sem camisa, usa calções confortáveis e elegantes da Richards ou Brooksfield. Caminha balançando os braços em um ângulo aberto, o que faz com que suas mãos quase se encostem atrás das costas. O peito largo se projeta ao modo de um senhor de engenho inspecionando seus domínios. Não estende a mão ao se apresentar. Acrescenta, sem que perguntemos, que é engenheiro aposentado e foi apresentador de um programa de entrevistas na TV Comunitária. “Põe meu nome lá no YouTube para vocês verem. Ah! E também vai aparecer um comercial de implante capilar.” Argumento que ele conserva cabelo demais – branco e liso – para estrelar esse tipo de propaganda. “Por isso mesmo”, responde com uma gargalhada antes de seguir seu caminho à beira d´água.
Pisando em nossas próprias sombras projetadas à frente, seguimos pela faixa de areia bem abaixo da Casa de Pedra, cuja passagem era permitida naquele dia pela maré vazante. Outros personagens preenchem o cenário, atores até então sem fala no imenso teatro a céu aberto. A sessentona de chapéu de palha, biquíni e luvas, os dois senhorzinhos de calções esportivos e chapéus panamá, o morador de rua que corre a uma velocidade de atleta profissional, o casal e dois filhos – todos surfistas e loiros, a nipônica que trota com a cabeça pendida para a direita.
Refreamos o passo para não trombar com dois garotos que passaram a toda velocidade. Dá tempo de ouvir o moreno, que controla uma bola de plástico, gritar para o loiro que o persegue: “Não tenho medo nem da minha mãe, vou ter de argentino?” Lembro da época em que, para mim, praia só servia para jogar bola. Antes disso, foi a fase da pranchinha de isopor, que sucedeu o período dos castelos que moldávamos com areia escorrida.
Na memória, a água era mais limpa (será mesmo?, penso ao me lembrar da quantidade de riozinhos de esgoto que tinha de pular quando criança). Havia menos cachorros (confere, os poucos de então eram sem dono) e menos lixo (sim, mas também menos lixeiros, a sujeira ficava acumulada à espera que a preamar levasse tudo para o oceano). Certeza mesmo é que as mães do passado só usavam maiô inteiriço e nenhuma ostentava tatuagem.
Vejo à direita o paredão formado por guarda-sóis e cadeiras de armar. Coolers de todas as cores descansam na sombra, carregados de latas de cerveja e Coca de preço proibitivo na mão dos ambulantes. Nos carrinhos, só vale a pena mesmo comprar coco, de água doce e polpa espessa, resfriado quase no ponto de congelamento. Aqui e ali, caixas de som aguardam a passagem dos fiscais da prefeitura para voltar a berrar seus funks e sertanejos.
O Canto dos Barcos é o melhor lugar para um mergulho. Quase não há ondas nem surfistas, e a água chega mansa e tépida. Quando não há turbidez, é possível ver três ou quatro tartarugas-verdes descansando logo abaixo da linha da água, protegidas pela barreira de pedras que forma o Mirante da Astúrias.
Em um domingo de sol, seu João Frutuoso surge mais animado do que nunca: “Hoje completo setenta anos!” Depois de receber nossos cumprimentos, conta mais um pouco de sua trajetória. O apartamento no Guarujá, comprou em 1992. A mulher, dentista, nunca vem com ele, prefere ficar na casa de São Paulo. Já pôs prótese no joelho e no quadril. Tem gastrite. Na TV, entrevistava políticos, mas nunca se interessou em ser candidato ele próprio.
Quilômetros cumpridos, calçamos os chinelos trazidos na mochila para voltar ao apartamento. Passamos por uma grande banca vende de tudo, de boias de braço a sacos de gelo. Na minguada estante de revistas, vejo a chamada “10 razões para você começar a andar na praia. Hoje!” Longe de mim criticar os colegas jornalistas que escrevem matérias como essa; eles têm boletos para pagar. Em todo caso, penso que vários desses argumentos não valem para nós. Em um ano de caminhadas, não emagrecemos um grama, pois andar ao ar livre dá fome. Sem ter baixado minha taxa de colesterol, continuo tomando o comprimido de Crestor de cada dia. Não aumentamos nosso círculo social com exceção do João Frutuoso, ex-Nestor, com quem nunca encontramos longe da areia. Mesmo sem esses benefícios, continuamos andando, como recomenda o uísque.
