Tenho tido problemas com chaves. Um problema diretamente relacionado à falta de calçadas, vocês vão me entender. Tem uma parcela também de culpa do frio.
Fato é que as ausências – das chaves, das calçadas, do calor – se cruzam no meridiano de Greenwich, que não é essa Greenwich inglesa que você provavelmente pensou. É uma Greenwich, que se pronuncia Greenichhhh, cidade Connecticut, um estado mais republicano do que o mundo merece mesmo merecendo bem pouco, mas esse é outro problema.
Essa manhã, meu marido fracassou à caminho da academia do condomínio porque não encontrou o molho de chaves no local em que deveria estar. É um molho mais gordinho, com as chaves extras, da academia e do correio, que combinamos de sempre deixar preso nos ganchos da entrada de casa. Talvez ele só não quisesse fazer exercício porque procurou nos bolsos dos troncos e não das pernas, que era onde estava, em uma de suas calças.
Já temos duas cópias extras das chaves de casa, escaldados após em um dia de zero grau ele ter levado os exemplares disponíveis para andar de trem a umas 50 milhas de mim. Já colocamos bateria na chave reserva do carro depois de um dia ele ter levado a chave do carro com ele para as mesmas 50 milhas de mim. Achei um ingrato agradecimento a carona à estação. Segui dirigindo no estilo velocidade máxima até a escola da Nina, após o visor alertar “chaves não localizadas”. Concluí com sucesso o percurso e no resto do dia, me virei a pé, meu meio de transporte mais feliz, mesmo sem calçadas.
Hoje, depois de novamente fazer o percurso estacão-de-trem-escola estacionei o carro e caminhei até a academia do condomínio, de onde não passei da porta. Por ausência de chaves. Deus quis. Hoje não é dia de academia. Vou aproveitar a temperatura amena de 34F (tipo 1 celsius) e caminhar a pé.
Saí pela minha rua, a Weaver Street. Pensei em fazer de meu trajeto funcional, imaginando a farmácia como destino. Sempre me culpo quando não sou funcional. Coloquei os fones de ouvido, verifiquei qual era o episódio do The Daily de hoje. Gosto do podcast porque ele vai direto ao ponto e demora sempre algo em torno de meia hora. O tempo de me exercitar.
Penso no enxaguante bucal e alivium. Posso comprar com o cartão no celular. Vou até a CVS. Decido. Eles vão me descobrir, penso. A única pessoa que chega à CVS no meio do cruzamento do nada com lugar nenhum andando a pé. Parece suspeito. Desisto.
Eu que lute com a culpa, a protagonista do meu sonho essa noite. Crio no celular um lembrete para mim. Anotar sonho para a psicóloga. Resolvi gravá-lo em mensagem de voz, enquanto sigo caminhando.
“É… eu estava no Brasil, o Guilherme tinha saído com os amigos, eu sairia com os meus amigos mais tarde, ia começar a me arrumar, estava batendo papo com a minha mãe na cozinha da casa dela. Me lembrei que a Nina tinha saído sozinha para o clube do Flamengo e que dormiria lá. Me desesperei. Minha filha de sete anos sozinha no clube, onde dormiria numa atividade dessas de recreação. Fui até lá, tinha uma fila enorme que me levou a pensar que era de venda de ingressos pro Maracanã. Fui desesperada falar com o segurança. Ele disse que a fila era para entrar no clube. Ele viu meu nervosismo e me deixou entrar pela porta lateral. Corri até a sala onde minha filha estava. Ufa, ela ainda tava acordada. Precisava tirar ela dali, tinha certeza de que alguém a sequestraria. Senti um cheiro de mofo na sala. Me culpei, ela tinha saído de uma gripe. A moça que tava olhando as crianças me disse: “Ela é a mais nova do grupo né? As outras meninas têm uns 13/ 14 anos. Corri em direção à Nina decidida a tirá-la dali.”
White people problem.
Dei play no episódio do podcast “The Death of Tyre Nichols”. Era sobre o caso horroroso do jovem de 29 assassinado no Memphis. Começava logo com um áudio dilacerante da mãe dizendo que o filho não entraria nunca mais pela porta. Dei bom dia para a única pedestre que dividiu a falta de calçada comigo nesse trajeto. Uma moça negra que devia ter a idade da mãe do Tyre Nichols. Pensei na merda toda que é o ser humano.
Parei diante da árvore com o tronco harmoniosamente manchado, o desenho parecia com o de um mapa mundi. Passei as mãos sobre os EUA, desci até o Brasil. Quando meus dedos deviam estar na altura da Bahia pensei que metade dos desgraçados do meu instagram estavam agora por lá. Muitos ontem foram ao show do Gil e Caetano, hoje se dividem entre praias e ladeiras. A essa altura já devemcarregar no tornozelo a fitinha do Bonfim. Tenho perna grossa de origem portuguesa e fica horrível qualquer coisa amarrada no meu calcanhar de elefantíase.
A senhora olhou pra trás. Eu apalpando a árvore. Ouvindo aquela tristeza no podcast. Reproduziram mais de uma vez o áudio do Tyre Nichols sendo abordado por cinco homebs. Cinco contra um.
Resolvi desviar da rua principal, encontrei uma transversal que não parecia ser propriedade privada. “Dead End” dizia a placa, eu concordei com a cabeça. A coisa anda foda. Apertei o passo me lembrando que precisava fazer exercício. Fui até o final da rua com duas casas em construção. Não canso de achar graça nas obras daqui, uma mistura de lego com playmobil com blocos coloridos. Esse apreço estético em que nada pode parecer o que é de verdade. Tijolo deve ser coisa de submundo. São sempre obras limpas com cheiro de cloro e, pasmem, nunca vemos pedreiros, no máximo uns dois homens por obra. Ali não havia nenhum. Cruzo com a caminhonete da pet shop. Parece ser um bom negócio local nessa terra de TV Colosso.
Volto pra rua principal que ostenta no centro uma faixa dupla. Eles usam esse código para as ruas de grande movimento. Eles não sabem o que é grande movimento. Agora começo a entender um gringo na Avenida Brasil. Devido pegar a primeira à direita novamente. Não tô com humor de rua principal, mesmo com os carros gentilmente diminuindo de velocidade quando passam por mim.
Mais uma placa “No Outlet”. Odeio outlet. No único que fui na vida, consumi apenas a minha própria angústia em promoção. Antes do fim, nos dois lados casas brancas com aquele telhado acinzentado, muitas com bandeirinha dos EUA fincadas na porta, estranho a ausência de caveiras, perus e papai noéis, um alento na vida temática. Brinco de um desses “bem me quer, mal me quer” de adulto: “moraria aqui”, “não moraria aqui” , “essa só queria amizade com a dona”, “essa só pegaria o dono”. E assim a poeira de pensamentos desviava como podia do que tocava nos ouvidos. Até que ficou insustentável compartilhar os passos com os áudio de sofrimento. Pauso o podcast.
Uma casa marrom com códigos de abandono surge à direita. De sua janela lateral brilham olhos e fumaça. Fico com o medo, de quem desconhece os códigos locais, de parecer estar invadindo aquela rua. Aqui os muros como conhecia praticamente não existem. No lugar deles o direito ao individualismo. Talvez por isso não gostem de calçadas. Cruzes, corpo a corpo.
Não quis dar meia volta antes de passar pela casa e seu kit de carro lata velha (diria que era algo tipo um Passat) e de muitas sacolas plásticas e de papel se acumulando na porta. Provei que poderia ultrapassar a casa mas intimidada pelo aviso. “No trespassing – private property” retornei.
Evitei olhar pros lados. Senti o cheiro de cigarro quando perto da casa marrom. Quis muita coisa olhar de novo pra procurar os olhos.
Caminhei novamente até a rua principal. Cliquei num podcast que detesto mas que uma amiga mandou um dizendo que eu tinha que ouvir. “Cartas de um terapeuta – Por onde começar a recomeçar – parte 2”. Fico puta com aquele cara com a voz de padre fazendo uma apresentação enorme.
Me distraio nos galhos retorcidos de uma árvore que só por existir cria uma esquina em torno de seus mil troncos e galhos que se confundem no trançado em camadas. Outro dia aprendi que Weaver é tipo tecelão. Seria por conta das árvores trançadas? Tiro fotos desajeitadas com medo do dono da casa da árvore aparecer. Paro a porcaria do podcast sem nem chegar na parte que deve interessar a alguem. Eu não saberei por onde recomeçar.
Continuo pela Weaver. Acho graça e raiva dos postes construídos de troncos inteiros de árvore. São troncos ocos em perfeito estado, que no meio comportam, imagino que fiação elétrica. Concluo que é tentativa de disfarçar de natureza o que nós disfarçamos de progresso.
Meu celular anuncia que deve vir neve por aí. Acelero em direção a placa “Wrong Way”. Entro pela porta de saída de carros do condomínio, me sinto vitoriosa no papel de pedestre esquecedora de chaves. Acelerei o passo até em casa. No inverno a gente anda para não murchar por dentro e não explodir por fora.
