por Américo Paim
A viagem está até tranquila. Eu não. As orientações foram estranhas: “quase no quilômetro 30 na estrada para a capital, fique atenta para uma mulher preta, de vestido amarelo e lenço azul na cabeça. Desça ali”. O bilhete de mãe tinha coisas esquisitas. Só me apertou a mão e deixou o papel. E eu bem queria você aqui comigo agora, uma mão pra segurar. Enfim enxergo um ponto amarelo crescendo à beira da estrada. Aviso ao motorista. Desço e o vento quente me diz boa tarde. A mulher, que nunca vi na vida, me fala desdentada: “Joana, né?”. Não entendo e não há tempo para perguntas. De uma garrafa surrada serve um pouco de um líquido viscoso em um copo plástico. Não consigo negar, nem pedir explicação. Bebo de uma vez. É mais ralo do que aparenta. O gosto é bom e estranho. Com um gesto delicado e preciso feito dança, vira de leve o corpo e aponta na direção da mata, atrás dela, a uns cem metros de nós. Vejo bem longe um pedaço de pau, destoando da vegetação. Depois de uns bons passos, insegura, olho para trás. A mulher sumiu! Velho, nessa rapidez? Me dá um medinho, mas vou.
Chego à estaca de madeira, que tem um sol esculpido, pintado de vermelho. Fico meio zonza. Começo a ver formas coloridas e desconhecidas, por toda parte. Não sei bem para onde ir. Me sinto meio lesa, mas um sopro forte de ar, seguido de cantos estranhos que não são de passarinhos, mostram um caminho no meio do mato. O medo não me paralisa. Os sons e os desenhos continuam em festa à minha volta. Penso que alguém me guia, sou levada, pois nem sinto o chão direito. Vou por uns dez minutos pela terra batida, quase encoberta por árvores de todo tamanho, alternando a entrada da luz do sol. O vento fica frio quanto mais avanço. Sou friorenta, como sabe, só que isso não se explica. A cada metro arrepio, meu corpo sacode todo. Sinto que estou bem perto. “A vegetação vai rarear e vão aparecer umas pedras rosadas. Aí, estará quase lá”. Releio no papel que trago preso ao sutiã. Que alívio. Cheguei à entrada.
As duas árvores são únicas, não há dúvida: é a Passagem dos Umbuzeiros. Você iria adorar isso. Os caules altos, grossos e retorcidos, as folhas de um verde bem clarinho, quase amarelando. Nem parecem de verdade. Não toco por medo, você me conhece. Desde menina escutei mãe dizer que aqui só pisa quem é autorizado, que a trilha aparece apenas para quem tem a benção. Eu cresci e já achava mentira, invenção do povo. Até hoje. Respiro e atravesso o portal. Formas e sons foram embora, mas meu sangue remexe, um aperto no peito. Não demoro e chego à pequena aldeia ou pouco mais que isso. Ouço das poucas pessoas: “Joana, como cresceu”, “Joana, seja bem-vinda”. Como me conhecem? Quem são? Homens e mulheres de várias idades, gentis e sorridentes. Muitas com pele escura, como eu. Todas com olhos azuis, como eu e mainha. As casas simples, quase coladas umas nas outras. No centro, um grande círculo com pedras rosadas e uma pequena árvore, que não reconheço, cercada de grama. Atrás disso, uma casa branca, portas e janelas azuis. Diante dela, um homem velho, de mãos enormes e olhar enérgico. Esse eu conheço. A seu lado, um cachorro familiar.
Ele me convida a entrar. Entro e volto a tontear. Ele me ampara, eu acho. Sinto aroma de jasmim. Me fala com algum carinho: “sim, ela está aqui”. A lembrança de mãe ainda é tão forte. Lembra que lhe contei que ele foi lá em casa em todos os meus aniversários que aconteceram coisas ruins na cidade. Fora seu rosto e o cachorro, não tenho memórias dele. Sua voz é calma e segura. Relaxo, apesar de ainda perceber as coisas de maneira estranha à minha volta. Sinto mãos e pés formigando. Não me deixa falar. “A criança que vai ver tem um destino que poderá mudar a vida de muitos em Pedra Velha. Nada mais será igual”.
Estou curiosa. Ele fala que foi no meu aniversário de 30 anos que mãe lhe disse que a hora havia chegado. A criança nasceria em breve e a própria mãe dela a levaria até a Passagem. Mina contou que mandaria sua filha, ou seja, eu, quando fosse o momento. Pergunto: “Por que não ela mesma?”. A resposta me assusta: “o tempo da chegada da criança seria o fim do tempo de Mina”. De repente me recordo do que ela disse: “não há mais nada”. Falou, me deu seu último sorriso e dormiu o sono que não teve mais fim.
Ele encerra a conversa, sai da casa e eu o sigo. O cachorro fica deitado por lá. O velho caminha lento, as pessoas em volta o reverenciam. Saímos da aldeia por uma pequena trilha. Logo chegamos a uma casa menor que as demais, com paredes em vermelho claro. Sobre a porta simples, reconheço o mesmo desenho do toco de pau, lá na rodagem. O interior está vazio e há outra porta, entreaberta, no fim da pequena sala. Vem uma luz de lá. Volto a sentir falta de chão. Entramos e é uma sala pouco maior. Sem lâmpada, com janela de cortinas, só que está tudo bem claro. Um berço no meio da sala e um banco ao lado, onde estão um homem e uma mulher.
O sujeito tem pele clara, é jovem, mas de rosto vincado, sobrancelhas e lábios finos. Tem um olhar de fim de semana. Ela é bonita, confiante, a pele escura e cabelos vermelhos. Levantam-se quando entro. O velho me apresenta: José Paulo e Maria. Os pais da criança. Vou até o berço e fico impressionada. Com a visão e como meu corpo treme. Deitada, coberta por panos brancos, a criança me encara com os olhos do azul mais profundo que já vi na vida. A pele preta e os cabelos vermelhos como os da mãe, porém mais intensos, parecem balançar como folha de árvore batendo vento. Me sinto tão bem diante dela. Ensaio falar algo e a criança me estende a mão direita. Como isso é possível? Não resisto e ponho a minha embaixo dos seus dedos minúsculos. Paraliso. A textura, a maciez, a delicadeza. Eu conheço isso. São como as mãos de minha mãe! O cheiro do jasmim invade a sala outra vez. Escuto, de alguma forma, vindo de lugar que não sei: ”Há uma nova florada, Joana”. O velho me olha soberano: “Sabe o que fazer”.
