Formas de voltar pra casa

Um sonho que me assombra de modo recorrente é, com poucas variações, a fuga dos meus gatos, escapando por janelas ou portas abertas, pulando muros ou simplesmente correndo para longe quando me sonho, por algum motivo, em um terreno aberto tendo que levar a cabo a tarefa impossível de segurá-los. Não é um assombro difícil de rastrear: minha primeira gata de estimação pulou da varanda numa madrugada para resolver suas questões de desejo. Ela estava no cio e não sabíamos, eu e minha mãe, que a coisa era tão poderosa a ponto de levar um animal a pular do terceiro andar para se satisfazer. Nessa época eu era uma criança de dez anos. Na manhã seguinte, vaguei pelo condomínio e pelas redondezas de mangas compridas e calças de moletom, a roupa que vestia quando acabava de acordar e receber a notícia, a roupa que não troquei ao longo do dia, sempre com os olhos muito vermelhos por represar o choro.

Como em regra acontece nesses casos, não a encontrei. O remédio foi adotar uma nova gata, igual a perdida. Mas o trauma estava instalado, e eu nunca mais deixaria meus gatos subirem em parapeitos e muretas sem rede de proteção. Essa prevenção se intrometeu nos meus sonhos e os tornou quase sempre pesadelos quando se relacionam aos gatos e, como meu ex-analista costumava sugerir, provavelmente não se limita a eles, provavelmente se espraia ao restante dos afetos – ao meu pai que saiu do país quando eu tinha dois anos, a minha primeira namorada que exibiu sua traição (ela nega) ao aparecer numa festa junina enganchada com o monitor da faculdade cerca de duas horas depois de terminarmos pela sexagésima vez. Difícil acreditar que ela não vinha pulando aquela mureta há algum tempo.

Deixe os gatos irem, meu ex-analista dizia.

Qual o seu problema? Isso é exatamente o que eu não vou fazer.

Não tenho mais dinheiro para pagá-lo, de modo que as sessões estão paralisadas há um ano. No entanto sua influência é como uma infestação de cupins, cavando túneis nas minhas sinapses. O que me leva ao sábado passado.

A tarefa era levar um certo cigarro engraçado para um amigo nem tão engraçado assim, a alguns quilômetros da minha casa. Era uma tarefa inventada, sugerida por mim pra consumar um exercício de escrita – o presente exercício. Pensei que seria interessante fazer um trajeto parecido ao que eu fazia na adolescência, há vinte anos, quando morei pela primeira vez em Vila Velha. As chuvas dos últimos dias tinham parado e eu poderia encontrá-lo no condomínio da infância, e de lá seguiríamos para o parque da cidade, o Parque da Prainha, onde Vasco Fernandes Coutinho desembarcou pela primeira vez no Espírito Santo. E lá fumaríamos o tal cigarro engraçado, imaginando o navegador ultrapassando a arrebentação e pondo seus pés sifilíticos na areia, sendo alvejado pelas flechas de goitacases e talhado por machadinhas e morrendo ali mesmo, escalpelado, levando a Corte a desistir de colonizar Vila Velha, tornando a cidade até hoje o único território indígena do Brasil, o que nos levaria, eu e meu amigo, frutos de estupro e pilhagem, não à morte, mas à não existência retroativa.

Mas nem do meu prédio consegui sair. Estava lá ela, entre um vaso de planta e um muro atrás da portaria. O pelo marrom, as patas e as orelhas e o rabo escuros, os olhos estrábicos e muito azuis, que eu descobriria depois, pois estavam fechados. A boca estava aberta e, assim como o nariz, ensanguentada. Atrás dela, na parede, marcas de sangue seco, e na sua frente um pedaço de biscoito de sal, que alguém deve ter achado interessante deixar ali enquanto ela se recolhia de dor. Pessoas passavam pela portaria e a olhavam e em seguida continuavam a passar, pois era hora do almoço e o prédio tem um restaurante muito bom e barato logo na frente.

Deixei minha namorada (não a traidora) de escolta e voltei em casa para pegar a caixa de transporte. Obviamente a gata não ofereceu qualquer resistência para entrar na caixa, e a levamos na clínica veterinária mais próxima. No curto caminho meus olhos adolescentes voltavam à cor de sangue. A gata era absolutamente idêntica e a razão não tem qualquer jurisprudência aqui: não importa se todos os siameses são iguais, aquela era a gata que eu nunca mais havia encontrado, aquela era a gata dos meus sonhos e consequentemente todos os gatos do mundo.

Na clínica, ela foi levada para atendimento. E então uma longa espera. A porta de correr que separava a recepção dos consultórios divisava o Leandro adulto do garoto que seguia vagando pelo condomínio na virada do século e vinte anos depois a tinha achado e esperava do lado da maca tentando não chorar. Nunca tinha voltado a encontrá-lo e agora sabia que ele nunca deixara de procurá-la. Tínhamos assuntos pendentes. Melhor dizendo, ele tinha coisas a ouvir. Eu lhe diria que parasse de olhar os canteiros de flores e as valas por onde passa torcendo para encontrar apenas flores e esgoto. Porque se não parar, continuaria encontrando, todo ano, um animal para socorrer.

E se parar de fazê-lo, ele me perguntou em voz alta, lá de dentro do pronto-socorro, quem vai fazê-lo?

O Capitão América, estúpido.

É o Capitão América que segue encontrando bichos feridos ou largados e colocando na minha casa, ano a ano, para que eu possa me apaixonar por eles e trair minha conta bancária. É ele que os carrega pra minha casa e torce para que não tenham doenças e que possam conviver com os outros que um dia também estiveram perdidos em canteiros e valas na chuva ou dentro de escolas abandonadas e terrenos baldios, e que engordem como capivaras, e que acordem na madrugada correndo atrás de fantasmas e aterrissando nas minhas costas expostas às garras que não me deixam cortar. E que a fenda negra nos olhos não naufrague no magma amarelo antes do tempo. Você e o Capitão América, garoto, formam uma bela dupla.

Duas horas depois a veterinária abriu a porta. Tinha no rosto a inexpressão das paredes da clínica. O branco das mesas e das portas e o verde musgo das cadeiras acolchoadas tinham contaminado seu tom de pele e seus gestos econômicos e sua voz metálica. Ela falava com Maria algo sobre ultrassons e hemorragias enquanto entrávamos no consultório. Maria sacou um cartão. Me aproximei da maca onde o garoto cercava com os braços curtos engolidos pelas mangas da camisa os pontos de fuga da gata que mal conseguia manter os olhos abertos. Ele olhou para cima e deixou as gotas represadas no interior dos olhos caírem lentamente, precisamente, cada lágrima tendo que convencê-lo de sua necessidade. Fiquei lado a lado com aquela miniatura familiar e pousei minha mão no topo de sua cabeça como faziam aquelas máquinas de shopping, afundando as garras de metal em bichos de pelúcia. Olhamos por uns segundos a gata até nos certificarmos que ela era, de fato, todos os gatos do mundo. Ele enxugou o rosto com as mangas da camisa e fez um breve afago nela antes de sair pela porta.

O sangramento tinha sido estancado e não havia danos internos. Ela estava desidratada, com gastrite e perderia um dos caninos. Apesar de tudo, parecia calma e me encarava com as pupilas negras bruxuleando à deriva na íris azul. E me disse em alto e bom som: obrigado, Capitão América. Quando voltei à mesa da veterinária, ela assinava uma receita de duas páginas e muitos dígitos. Sua expressão tinha adquirido novas cores e seus gestos pareciam mais elaborados e enérgicos.

E agora mãezinha e paizinho vão ficar com ela?

Maria era mãezinha e eu era paizinho. Respondi que sim, mas que agora todos iríamos morar na rua por causa daquele papel que ela assinava com uma letra muito bonita, diferente da caligrafia dos médicos de gente. Ela riu e mostrou que tinha quase tantos dentes quanto dígitos antes da vírgula. Eu não estava brincando. Capitão América teria que penhorar seu escudo ou saquear a nau fantasma de Vasco Fernandes Coutinho, a essa altura comido pelos peixes abissais. Enquanto isso, a gata gozaria da estadia já paga por mãezinha e paizinho e pelo garoto que não existia mais.

Chegamos em casa e os gatos oficiais vieram nos aferir com seus focinhos molhados. Já tinham passado por isso algumas vezes e eles próprios já foram esse cheiro estrangeiro. Lembrei do intento inicial daquela tarde e pus a mão no bolso em busca do cigarro engraçado. Mas não havia nada lá.

Deixe um comentário