Por Susy Freitas
I: andamos porque é preciso, paramos pois inumanos, isso é
lutar, apenas temos que andar, sentir o desmame de cada pensamento nos poros e nos pés, essa é a nossa matéria, a substância que a cabeça não aguenta mais, o puro suco de Paris dos Trópicos, a saber:
- o subemprego,
- a hora extra,
- a marmita fit,
- o cartão Marisa,
- a ração a granel,
- o fim da Zona Franca,
- o IPVA,
- o TDAH,
- o Antártica Zero roubado da geladeira da firma
- Pega ladrão!,
- sonhar acordado com o próximo concurso da Semed,
- o DDD 92 que nos impede de ostentar um novo cargo na fintech mexicana,
- ou o DDD 92 estampado na nossa cara, na nossa fala, nos nossos “ésses” que desaparecem, nos “ei, mano, deixa eu te falá” que o Sudeste jura ser proprietário,
- lidar com nossos bons amigos, os velhos fantasmas, esses são fartos e largos fantasmas que mofam na porta da geladeira das nossas almas, cogumelos craquelados na porta da geladeira das nossas almas, sombras das portas da percepção que revelam o infinito depois do plantão de um feriado prolongado,
andar, largar bem longe as chaves do Palio,
II: eu disse andar
até a parada, passar a catraca, deixar as roupas no caminho e violar a turba esguia e compacta no Executivo, isso também é andar, um jeito de não pensar, ou como acha que a periferia navega? sobrevive?, é com o queixo ereto de quem busca o quente ar do aperto, do cu ao topo da cabeça desenhando uma linha reta, abrem-se os chakras, puxa a cordinha!, atravessar na faixa, pisar na terra antes da terra, a que prende nas palmilhas dos chinelos, andar, andar e abominar os estacionamentos, atravessar os portões quebrados do parque, rir das regras enferrujadas nas placas de orientação, proibido isso, permitido aquilo, andar, correr se preciso, apontar com pressa na cara de desprezo dos sauins de coleira, pular por cima dos balanços do parquinho, andar, pegar as trilhas interditadas, andar e do nada a areia, branca, feia, criando estrelas das sementes e resíduos de tudo que solta das árvores, wiccanos piram, desenham as fases da lua rente ao totem e brincam de magia, não cedem ao caos que nos puxa o andar, continuar, seguir para descer de nós mesmos através do bosque, um tipo próprio de suor que só na mata transpira, a hipnose da terra, é o que diriam ao podre servo Renfield, raspar de leve os dedos nas palmeiras como quem aguarda uma mordida, porque doce é o fruto, duro o espinho e frouxo o laço no tucumanzeiro que pode muito bem ser um
III: sigilo:
o sigilo que implora sentir tudo, andar, temos que sentir tudo, das texturas que submergem as sinapses ao escuro da mata cada vez menos bosque, menos polida, mata que escarra vida sobre o metal do corrimão da trilha se desfazando como cera, andar, porque o verde, mas também o marrom, impera, e a profusão de folhas e caules e talos e galhos em tudo diferentes entre si irrompem num vômito expressionista, andar, cada vez mais fundos nesse ventre, cada vez mais quentes, disformes, sobretudo disformes, andar, rasgados pelos cipós como cartas de ex-amantes, baleados pelos mosquitos, convocados pelo micélio, conclamados pelas águas podres do igarapé, salve a barriga do céu refletida nas garrafas pet!, salve seus filhos tingidos de branco pelo estupro de gerações a reverenciar o absurdo do mistério das veias, salve o silêncio das veias, salve a garganta a engasgar gritos sincréticos, salve Eris, salve Eeri, andar, a hipnose da terra de encontro à
IV: hipnose das águas,
nadar, somos nós os dejetos, espectadores do reality show primordial, nadar, e hoje a prova do líder é da madeira fazer peixes, e dos peixes os venenos, nosso veneno, o íntimo e o metropolitano, nadar, porque impuros, e imundos, sorver das águas insalubres um bocado do esquecimento, surfar nos dentes dos jacarés lustrosos de merda, a merda que nos une e abençoa, a do rico, a do pobre, a do mendigo, a do Chow chow e a do coelhinho, que doce o abraço do iogurte e resíduos mil, nadar, porque no curso das águas encontramos algum descanso, eu e você, meu amor, a própria decomposição.
