Rua vermelha (texto de Carol Schettini)
Em Brasília, não se anda a pé. Para você ter uma ideia, da minha casa à casa do meu irmão dá um quilômetro. Isso se não passarmos pelo beco. Conto nos dedos quantas vezes fui visitá-lo sem ser de carro.
Quando eu tinha uns oito, dez anos, morava na 102 sul. Naquela época, a criança tinha um corpo desgarrado de seus pais, podia ficar o dia todo na rua à toa e quando a mãe precisasse era só chegar na janela e gritar. Logo aparecia o menino perdido.
Minha amiga Daniela e eu passávamos as tardes embaixo do bloco, procurando joaninha nas folhagens ou passeando no comércio da quadra, a rua das farmácias. As farmácias homeopáticas lotadas de papeizinhos de propaganda de remédios nos encantavam mais que a vitrine cheia de diamantes da Tiffany. As propagandas se acumulavam em casa e sabíamos os componentes dos remédios de cor. Se você for ansioso, compre o Almeida Prado 35 e se estiver com prisão de ventre, o 46.
Quando veio a notícia da chegada das Lojas Americanas no Setor Comercial Sul foi tanto sucesso tal o homem chegar à Lua.
Dia sim e dia também, Daniela e eu íamos xeretar. A gente tinha um pouco mais de zero dinheiro, ler ingredientes de balas ou ficar zanzando pelas prateleiras lotadas de coisas coloridas era melhor do que o balcão da homeopatia.
Tinha um detalhe: nós podíamos ir sozinhas (dava um quilômetro mais ou menos) desde que a gente cortasse caminho pelo Hospital de Base. Era mais seguro atravessar o pronto-socorro lotado do que ir pela rua do lado de fora.
Nossos passeios iam muito bem até o dia em que houve um acidente grave e carros do corpo de bombeiros não paravam de chegar no pronto-socorro para desenvelopar todo tipo de gente ferida, como carne chegando no açougue com ossos expostos e peles pela metade. Não foi agradável ver ao vivo uma sangueira, nem na novela era assim. Os gritos eram agudos como se a dor transpassasse o limite do som, criando microfonias prontas a quebrar algum cristal. Foi o fim do amor pela novidade. Traidoras arrependidas, sem vergonha na cara, voltamos a futricar a rua das farmácias. Confesso, somos (em parte) culpadas por as Lojas Americanas está prestes a fechar suas portas.
Uns cinco anos antes da sangueira, eu morava na rua Duque de Caxias em Porto Alegre, cidade onde as pessoas caminham a pé.
O colégio em que eu estudava, ficava perto de casa e, um dia, usando pijamas por baixo do uniforme para cortar o frio, no caminho para escola reparo em um homem e o nariz do homem sangrava. Ele era branco e novo. Não muito novo. Talvez mais que adolescente menos que alguém com emprego fixo. Lembro de ficar assustada com o sangue escorrendo pelo rosto do homem. Não olha, minha mãe disse. O resto era silêncio.
Voltei a Porto Alegre, quatro décadas depois, e procurei minha lembrança mais forte da época, não o homem sangrando, mas uma estátua de cachorro. Tenho uma foto com uns seis anos de idade sentada em cima do monumento.
O cachorro continua engessado nos degraus de uma praça entre o teatro e a Catedral. Na visita, tiro uma foto ao lado do cachorro. A idade me impede de subir em estátuas. Mesmo que sejam baixas.
Para minha surpresa, a rua Duque de Caxias fica ali, logo ali. Continuo com a sessão instagramers e registro uma placa para provar para meus irmãos. Procuro o prédio onde morava, mas não tenho ideia de qual seja. Do prédio, não sei nem a fachada, muito menos a localização, guardo na memória não poder subir no elevador social porque estava acompanhada da empregada. A proibição foi uma afronta para mim. No prédio, havia uma vizinha sozinha, de idade, o tipo de pessoa sem sorte na vida. Isolada, não abria a porta, a cara e, com certeza, nem o bolso. Nossa casa, ao contrário, escancarada, barulhenta, um contraste com a solidão da senhora. Não deu outra, meu irmão e eu fomos à casa da vizinha e falamos para ela que nossos pais haviam saído e era para ficarmos o dia todo com ela, tipo hóspedes. A mulher estranhou, mas abriu a porta, não poderia deixar dois órfãos no corredor. Horas depois, minha mãe com nossas fotos em mãos, toca a campainha e nos encontra tomando chocolate quente e comendo biscoitos Maria na sala da desconhecida que até aquele dia não mostrava a casa para ninguém.
A rua Duque de Caxias cruza com a Avenida Otávio Borges e dali nasce um leito. Não é um leito de um rio ou de um hospital, mas um viaduto vestido de escadaria. Desço alguns degraus bastante largos, observando cartazes convidando para exposições e me vejo em um bar no meio da escada.
Quando fui a Hong Kong, um dos lugares que gostaria de conhecer era o Ma Mon Temple . O taxista me deixa na porta e aponta onde eu devo entrar. Entro onde ele havia indicado, vejo as estátuas, as oferendas, acendo incenso, quando sou avisada que estava na casa alheia. O templo mesmo era ao lado. Saindo de lá, encontro escadas que levam pessoas para cima e para baixo o dia inteiro. Escadas rolantes no meio da cidade.
Em Porto Alegre, a escada é de concreto e para atrapalhar a festa dos pivetes esperando por mim lá embaixo, mudo de ideia e subo de volta sentido Catedral.
Logo na porta da Igreja, esbarro numa senhora com um carrinho de compras onde carrega toda sua vida. Comida, caixas, roupas, bolsas e sonhos. Se eu virasse minimalista, e puxasse um carrinho pela cidade, vestiria meu vestido de paetês prateado, comprado para os meus cinquenta anos e, por motivo de morte de pessoa amada, não usado; encheria o carrinho com fotos e cartas e entulhos e sapatos baixos.
Diz a lenda, em toda Igreja desconhecida, ao entrar, pode fazer um pedido. Se tem muito pedido, aconselho visitar Minas Gerais ou Bahia. Se tem um pedido muito importante, vá a Roma. Peça duas vezes, uma em cada Igreja gêmea.
De volta a Brasília, no afã de encontrar a fotografia antiga do cachorro, resgato da casa do meu pai um aparelho de passar slides. A máquina em greve pela tecnologia só faz o rolo de fotos andar para trás. Não encontro a foto do cachorro, mas sim, uma foto do meu avô Paulo.
Tenho poucas fotos do meu avô Paulo. Do meu avô Nelson, tenho mais.
Antes de Porto Alegre, morávamos em Belo Horizonte e lembro da casa dos meus avós. Ficava nos fundos de outra casa, passávamos pela lateral e descíamos uma escada e depois seguíamos para a direita. Lá sempre tinha café e queijo para ser derretido e virar países amarelos no mar negro.
O dia da morte do meu avô é uma lembrança viva. Não por ter ido ao cemitério ou visto o caixão, nada disso. Ele estava morto. Eu queria ir para a casa dele. Insisti tanto que uma hora minha mãe pegou o telefone e disse para eu ligar para minha avó. E pronto.
Uma lição. Nem tudo que a gente deseja e consegue, vira felicidade.
Como disse no início, em Brasília, a gente não anda a pé. Precisando entregar um documento do trabalho para uma pessoa em uma cidade satélite, vou de carro. Estaciono na praça para subir andando a rua da invasão. Não tem números nos barracos. Não encontro a casa, nem a pessoa, nem informante, nem nada. Volto e dou de cara com um homem deitado de bruços no meio da praça. O dia estava cinza, então, ele não tomava sol. Um homem morto. Se ele sangrava, não sei.
