Assustada, disse não

– Como não vai? Tá doida?
– É que ontem…
– Sim, ontem. Com quem tu tava no telefone ontem?
– Foi o Dedé.

Calam-se os dois. Dura uns três segundos. Tempo suficiente pra Tom sentir aquele arrepio de conta negativa, de notícia de doença, de pré-assalto. A lágrima já vinha quase no fim do canal, quando Gabi quebra o silêncio. Ele chupa a gotinha de volta.

– O Dedé do Didi.
– Que é que tem o Dedé do Didi? – Tom pergunta na risada de alívio. – Tu conhece ele?
– Não, né? Eu vi no UOL, tá medonho. Tive tanto medo. Não consegui dormir nada a noite toda.
– Ah, Gabi, pelo amor de Deus. Tá medonho o que? Tu tá com medo do Dedé Santana?
– É que ele fez harmonização facial.
– E o que é que tem a ver a harmonização do cara com o carnaval do Rio? Tá tudo pago.
– E se eu encontrar ele no meio da Sapucaí?
– Que Sapucaí? E a gente lá vai pra Sapucaí, Gabi?
– E no bloco? Sei lá. Tá horrível, Tom, tá um monstro, muito feio, não dou conta.
– O cara é um velhinho, pelo amor de deus. Vai pra bloco nenhum. Deixa eu ver?

Tom, num golpe rápido, mas incompetente, tenta alcançar o celular. Gabi, descabelada, ainda com camisola de cambraia, ainda embolada nos gatos, embora estivessem a duas horas do voo, é mais ligeira. Agarra o iPhone novinho e salta da cama quase no grito.

– Não. Nunca mais olho pra aquela cara harmonizada.
– Minha irmã, deixe de coisa, vá. Tô chamando o táxi.
– Tom, não pede pra ir. Não dá.
– Congonhas, né?
– Eu teria que pelo menos tomar um banho, vai. Já são 10h30. E depois, não sei onde levar os arranjos de cabeça, não vão deixar embarcar. Meus looks não fazem o menor sentido sem arranjo de cabeça, aquele bando de mulher linda do Rio de Janeiro, e eu com esse cabelo lambido, grudando no suor do povo.
– Con-go-nhas. Pop ou táxi?
– E vão roubar meu telefone, tô na segunda prestação ainda. Fora que meu estômago tá péssimo, não vai ter cerveja sem glúten, vou estufar minha barriga, ficar enorme, uma grávida de 9 meses, e onde vou fazer xixi? Ou pego bactéria, ou seguro a vontade e volto com cistite.

E sai desfilando tudo que é argumento, já esquecida da tentativa de rejuvenescimento do elo fraco dos Trapalhões.

– E o Dedé?
– Que é que tem o Dedé?
– Tu não tava falando dele agorinha.
– Faz meses que não falo com o André, Tom. Juro por deus.
– Que que o André tem a ver com isso, Gabi?

Na cabeça de Tom, aquele clipe de Terezinha de Jesus. André, ex de Gabi, era o Mussum, o que não entregava nada. E ele, Didi, de terno azul claro, o que se instalou feito um posseiro. Deixa sair do pensamento para a voz um detalhe que lhe escapara até hoje.

– O Zacarias é o do bicho de pelúcia, mas Dedé não aparece em Terezinha de Jesus, né?
– Mas apareceu no UOL, Tom – ela retoma um milímetro de controle. – Eu não consigo, amor. Vai você.
– Bora fazer o seguinte: é carnaval, daqui a pouco a gente tá bêbado no meio da rua, bora beber até esquecer dessa conversa, até esquecer do Dedé? Mas bora beber que nem louco, pra esquecer grandão, pra sempre, de vez.

O telefone toca. Eles em pé, diante da cama. A mão direita de Gabi segura apertado o aparelho, tão apertado que faz as veias saltarem. Tom, de bermuda e camisa de flor, ingênuo e óbvio no que seria seu primeiro carnaval carioca, tenta alcançar a esquerda. Ela escapa. Os gatos, que andavam desconfiados da futura ausência dos dois, estão arrependidos por terem desejado o fracasso da viagem. Os lençóis se encolhem, tensos. As duas malas desencostam no corredor. Em cima da dela, a tiara com um olho gigante de lantejoula encara com distância a máscara que está em cima da dele. Ontem ainda, pareciam próximas. Gabi e Tom também se olham. Canais lacrimais já tão congestionados quanto as ruas do Rio. A linha cai. Com ela, todos os tambores do sábado silenciam. O telefone insiste.

– Atenda não, vá.

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