Como Valen e Tina brincam, se o destino dos filhotes Bento e Matheus foi traçado na maternidade, o delas vem de outras vidas. Além de unha & carne, foram por nove meses líquido & amniótico. Amigas de infância, engravidaram dos quase gêmeos em uma viagem com seus maridos para Punta, há três carnavais. Desde então, as famílias começaram a tradição de passar a data juntas. Veio a pandemia e esse ano, pela primeira vez, desfilariam em grande estilo as fantasias coordenadas.
Valen, a mãe do Bento, ama idealizar e produzir looks irreverentes. Abrindo o carnaval, na festa do Spantinha, filhote do bloco Spanta Neném, no Jockey de frente para a Lagoa, todos sairiam de rombo nas Lojas Americanas. Rick, embora um pouco receoso com a ideia, já que para alguns amigos do mercado financeiro se lascaram o escândalo, sabia que contrariar a esposa seria perda de tempo. Valen achava uma grande besteira. “Poxa, amor, é carnaval, fala sério”. E para agradar o marido prometeu uma surpresa na fantasia dele e de Zé.
Na manhã de sábado de carnaval, Ela e Tina exibiram o corpo bronzeado de beach tennis no cropped vermelho com a logo das Americanas, acessórios dourados e arcos com a frase “Me dá um dinheiro aí ”. Os maridos vestiam camisetas vermelhas com a logo das Americanas na frente e atrás carregavam a logo do PT com o subtítulo “Perda Total”, um singelo protesto dos ainda inconsolados com o “Brasil na rota comunista sustentando Cubas e Venezuelas – Até quando?” A duplinha mirim, exibida seus bodies igualmente com a marca das Americanas e no verso: “Diretoria”.
As duas famílias chegaram cedo para aproveitar ao máximo o dia antes do alerta de verão, dado twitter do prefeito Eduardo Paes. Após selfies e stories os adultos se encaminharam para a área Vip montada próximo ao palco onde subiria o Monobloco. Já Bento e Matheus, o Thetheu, seguiram sob os cuidados da dupla de irmãs cinquentonas, vestidas à carater, com calças e blusas brancas, na alegoria diariamente colonial.
As babás estacionaram os carrinhos na área de recreação, com parquinho, teatro de fantoche, pintura facial. Nada daquilo encheu os olhos do levado Thetheu, que ficou encantado pelas casinhas azuis de teto branco a alguns metros dali. Qualquer descuido da Marlene, Thetheu corria para lá. O menino dava uma volta completa na área e tentava entrar por uma daquelas portas até ser interceptado pela já exausta babá. Bento, para alegria da Mariléa, seguia alheio ao amigo, sentado no cercadinho, se revezando entre o bloco oficial Biscoito Globo e o secreto Confete com Areia.
Depois de muito insistir, Marlene finalmente conseguiu. “Senta, aqui, Thetheu, brinca ao lado de seu melhor amigo”. Bento ao escutar “melhor amigo” fez beiço de choro, chegando a cuspir areia. Pra ele “melhor amigo” era sinônimo de “quem enfia o lápis ao lado do olho” | “quem morde seu braço até sangrar” | “quem a sua mãe veste de Faria Limer como você” | “quem com 2 anos te faz não acreditar mais em Anjo da Guarda”.
Como por milagre, Matheus não roubou nada de suas mãos. O menino sorriu com os olhos azuis piscina e deu suas mãos com covinhas pra Bento o puxando gentilmente “vem, brincar!” De barriga cheia e incomodado pelo vento borrifando areia em seus olhos seguiu com o melhor amigo para a área das casinhas azuis com telhados brancos. Achou muito engraçado ver adultos fantasiados brincando de castelos, de onde entravam e saiam, formando filas como as da Disney. A música mais baixa do local também o agradava, mesmo com o cheiro engraçado de fralda Pampers lotada, que por um lado deixava o lugar mais familiar. Os dois seguiram correndo ao redor das casinhas. Mariléa e Marlene os tiravam dali e eles voltavam, o copo meio vazio é que fazia tempo que os dois não brincavam em harmonia assim.
Ao sentir o primeiro pingo de chuva do céu, Marlene se apressou em pegar pra ela e pra irmã os brindes da Pantene no quiosque promocional, Mariléa seguiria com os dois próxima aos carrinhos. Thetheu na ausência da babá e no descuido de Mariléa, que trocava áudios picantes com o boy lixo, catou Bento pelo body e correu de volta para a área dos castelinhos, dessa vez passando pelo portal mágico. O menino ficou encantado pelo interior aconchegante, escurinho e com o maior rolo de papel higiênico que já viu à sua disposição. Tratou de improvisar uma múmia para compor com a sua fantasia. Alho na linha “Falência Egípcia”, Paulo Barros nenhum botaria defeito. Thetheu saiu de fininho, batendo a porta e voltando na direção de Mariléa.
Marilene chegou correndo carregada de miniaturas de condicionadores “Pantene Repair & Protect”. “Benza Deus, que fila enorme, povo cheio de dinheiro tupo disputando miniatura. Bora procurar os patrões porque tá começando a chover, olha esse céu, Marilene”.
“Marilene, cadê o Bento?”.
“Picolé” balbuciou Theteu apontando na direção da barraquinha. As duas cataram o menino e saíram correndo. Marilene na frente, driblou a rainha Elizabeth, pisou na mão de um pequeno pirata, esbarrou no Papai Noel hipster, que conversava com o moço das Lojas Americanas, conhecido como o seu patrão. “Cadê o Bento, Mariléa?”
Rick correu de volta para a área VIP, cochichou no ouvido da esposa e logo todos estavam em alerta cada um para um lado, já debaixo de uma chuva torrencial. Eles se dividiram. Rick e Zé foram atrás do Celinho, o organizador da festa, que o recebeu calorosamente: “Porra, Rick, você sempre espírito de porco né, cara?” Apontando para a sua blusa. Na mesma hora caiu a ficha, o irmão do Celinho era um dos principais diretores do grupo B2W, a holding da varejista.
Valen e Tina esganiçadas berravam “Bento! Bento! aos quatro ventos, que se cruzavam ali, num quase tsunami levando canequinhas e espumas de Moscow Mule, cílios postiços, balões e o show. “Galera, vamos fazer uma pausa por motivos de segurança”, anunciou o vocalista do Monobloco fugindo do palco.
“Cuidado, o toldo voando!”
“Meu Deus, os banheiros químicos?! Olha lá!”
No horizonte, os castelinhos azuis de teto branco desabavam um a um indo em direção à Lagoa que cansada de ser um espelho d’água marrom com algas, se fantasiava de carneirinhos.
