Cinzas

QUARTA-FEIRA, 26 DE FEVEREIRO DE 2020

            Acabou o Carnaval e eu morri de brincar e trabalhar. Ser influenciadora e promoter é divertido, mas cansa.  Vou dar um tempo. Sair do Instagram, do Face, do Tik Tok, emergir do Reels. Isso é um vício. Deus me livre. Vou agora é promover um encontro só comigo. É uma decisão espiritual para a Quaresma. Vai ser bom. O que são quarenta dias?  Penso nos boletos que  voltam a cada trinta, junto mais dez e pronto. Passa tão rápido. Volto para as redes no domingo de Páscoa, crio um evento com transmissão ao vivo e todo mundo vai me ver ressuscitar. Tomei a decisão  porque recebi dois sinais.

            O primeiro foi no metrô. Eu estava usando pretinho. Tudo pretinho. Camiseta, calça e sapato social, mas o moço de terno deve ter visto alguma coisa diferente e me deu um papel. Ele estava me olhando, percebi. Quando levantou para descer, entregou o folheto, folder, flyer (não sei qual o nome religioso) e disse pra eu ler.  Acho que reprovou meu colar neon dando vida à camiseta básica. Também podem ter sido os cílios postiços, na verdade, alongamento. Os cílios me deram uns olhos grandes que ele deve ter achado do mal. Eu mesma considero do mal. A esteticista errou. Não posso saber o que ele pensava. O fato é que peguei o papel, li a palavra “salvação” na diagonal,  dobrei, guardei na bolsa e não achei mais. A palavra, o sumiço do folheto e a cara feia do moço me fizeram refletir.

            O segundo aconteceu num bloco. De manhã fiz um vídeo pra arrasar na maquiagem , me dei uma folga e saí pra farra.   Peguei o metrô com medo de encontrar de novo o moço do folheto-folder-flyer, sei lá, o moço com o papel de Deus. Estava frio e fui vestida de vaca. Um macacão fechado, largo, estampado com manchas pretas e marrons.  Não sei se fiquei feliz, mas ninguém, ninguém mesmo, sequer me olhou.

         Foi quando cheguei ao bloco, que ele apareceu detrás do carro de som e veio ao meu encontro. Um metro e oitenta e oito, cabelos longos e barba. Estava de branco, uma túnica até os pés e sandálias de couro.  Sobre a túnica, um manto vermelho atravessado. Senti, ao mesmo tempo,  um calor, um arrepio e um tanto de fé que não consigo medir. Foi Jesus ou quem sabe Jezuis, o primeiro homem que me olhou naquele dia. Com muito amor ao próximo, desprovido de preconceitos, nem ligou pra fantasia de vaca. Brincamos nos blocos e fora do blocos até o corpo desistir. Muito correto, o santo homem usava camisinha. Amém! O corpo dele ainda deve ter aguentado, mas o meu não. Quando acordei na maca da ambulância, o Jesus quem sabe Jezuis tinha sumido.

            Foi com este segundo aviso que decidi parar um tempo. Vou dormir pelo menos 8 horas e acordar a tempo de ver as manhãs em vez da câmera do computador. Deixar de lado a maquiagem, as unhas de gel, os cílios alongados e os séruns. Dedicar meus quarenta dias ao Jesus famoso porque o da fantasia nem deixou o Zap. Descansar e procurar novo emprego. Uma coisa mais sossegadinha, com horário e carteira assinada. Já passei dos vinte. Na verdade, trinta e dois e o mês não tá fechando. Meus séruns não vendem tão bem como o das outras influencers.

       Vai der certo, a Franciane vai voltar às redes devagar e com outro nome.  Franciluz quem sabe. A versão 2020 da Franciane. Estão falando de um vírus  que vai prender a gente em casa. Será?  Sei não. Deve ser fake, mas pode virar conteúdo. Sei é que estou aqui pensando nuns vídeos novos. Um vício essa vida de influencer. Deus me ajude neste retiro. Só mais quarenta dias.

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