No Beco da Galileia

De onde estão, a visão é estreita. Tudo o que se vê passa pela moldura do beco: um naco azul do céu, fachadas desgastadas e coloridas de prédios antigos, muretas com desenhos oblíquos cercando varandas. Na rua à frente deles, milhares de pernas andam, pulam e flutuam sobre as pedras portuguesas carregando torsos pintados e trêmulos e rostos mais ou menos difusos. O suor evapora e os segue em fiapos de nuvens acima das cabeças e das máscaras. O bloco passa – com movimentos progressivos e outros nem tanto, mas passa. Pedro veste batina branca com trinta e três botões, crucifixo pendurado no pescoço por um longo cordão de ouro, cíngulo amarrado na cintura, mitra com detalhes dourados na cabeça, sapatos vermelhos nos pés e, na mão direita, a férula erguida diante das ovelhas desgarradas. Madalena usa uma túnica branca até os pés e um véu azul claro envolvendo a cabeça. Ao redor deles, todo tipo de entulho – pedaços de telha e móveis, sapatos roídos, latas de cerveja e garrafas de destilado, guimbas de cigarro, camisinhas usadas. Ouve-se o som da fanfarra ainda longe. Pedro está de pé e gesticula rápido olhando para o bloco. Depois puxa as mangas da batina, desabotoa o último botão e suspira, como se chegasse do trabalho. Madalena se apoia na parede do beco e ergue a barra da túnica até o joelho. É o fim da manhã, sábado de Carnaval.

Pedro: Tem certeza que é aqui?

Madalena: Não tem dois lugares que se chamam Beco da Galileia.

Pedro: Ele disse que a gente ia ver o letreiro com o nome do beco. Não dá pra ver só daqui.

Madalena: Estamos debaixo dele. Aqui é onde dá pra ver melhor. E outra, não tô vendo nenhum outro beco por aqui.

Pedro: Não dá pra ver um beco de outro beco. Tem que sair dele. (Um trio de jovens com os peitos pintados de prata e salpicados de purpurina vermelha passa abraçado e sorrindo para eles. Riem alto quando Pedro tira a mitra para cumprimentá-las.) Olha isso. Aí, sim, gostamos. O sorriso é o visível da alma, Madá. Madá… Cadê esse Gordô, Madá?

Madalena: Calma, a gente chegou cedo demais. Ele prometeu que não passa do pôr-do-sol.

Pedro: Porra! Mas não é nem meio-dia.

Madalena: E quem ficou enchendo o saco pra sair logo? E quem não pode almoçar mais tarde sem a pressão cair? Você tá velho. Não sai da rotina nem no Carnaval.

Mais foliões passam diante do beco e reparam nos dois. Mulheres riem para Pedro, ou riem dele. Ele enxuga o suor da testa e sorri de volta. Trota sem sair do lugar como se aquilo fosse uma dança.

Pedro: Bom, as moças ali discordam de você… O sorriso, Madá…

Madalena: …É o visível do escárnio.

Pedro: Você tem inveja. O sacerdócio conserva o espírito e o espírito conserva o corpo. Não pareço a idade que tenho.

Madalena: Suando desse jeito, logo vai parecer.

Ele tira novamente a mitra e passa a se abanar com ela.

Madalena: Aliás, você trouxe?

Pedro: Não tenha dúvida.

Madalena: Com você é só o que eu tenho…

Pedro: Acha que eu sou besta? Olha aqui. (Ele enfia a mão livre dentro da batina e puxa um baseado. Acende.) Não dá pra beber vinho nesse calor, Madá…

Madalena: Boçal, eu tô falando da rescisão. Apaga isso! Logo vai ter gente aqui enchendo a paciência, maconheiro é igual formiga.

Pedro: (Tosse.) Depois eu que sou o velho. (Apaga o cigarro e guarda atrás da orelha. Apoia o cajado no meio das pernas e vasculha o interior da batina, de onde puxa uma folha dobrada e úmida.) Tá aí. Mais calma?

Madalena arranca o papel da sua mão num golpe rápido. Percebe que boa parte da folha está manchada.

Madalena: Parabéns. Seus hormônios juvenis molharam tudo. (Força os olhos na parte inferior da página.) Mas você tem sorte. A parte da assinatura do Gordô tá intacta, nem amassada ficou.

Pedro: Sorte, não. Isso se chama eficiência, Madá.

Pedro se recosta na parede e finca o cajado sobre um punhado de terra. Um rato sai correndo dali para o fundo do beco. Madalena bebe água e fecha os olhos, balançando a cabeça em negação.

Pedro: Manda uma mensagem pra ele aí, Madá.

Madalena: Só se for sinal de fumaça com o seu cigarrinho “aí”, Pedro. Gordô não gosta de celular.

Pedro: Então não tem jeito. Vou ter que me hidratar sem o bonitão. (Ele se levanta, decidido, e anda até a rua enquanto Madalena o observa com apreensão. Depois atravessa na direção do ambulante do outro lado da calçada. Entrega uma nota e recebe de volta uma lata de cerveja. Volta ao beco sorrindo.)

Madalena: Você sabe que não é permitido.

Pedro: Hoje tudo é permitido, Madá. Ou vai ser, depois do pôr-do-sol.

Madalena: Você não tem vergonha de beber com essa roupa?

Pedro: E quer que eu tire? Isso se chama força do hábito, Madá. (Dá uma risada forçada, bem espaçada).

Madalena fecha gravemente os olhos como se assim Pedro deixasse de existir. Ele bebe. A tarde avança e os raios de sol desaparecem. Ouvem sons de trovão bem longe.

Pedro: Agora vai ser a Babilônia, escreve aí.

Madalena: Mais pra Sodoma e Gomorra. Se chover até a tinta e a purpurina vão cair. E aí não vai sobrar pedra…

Pedro: Disso você entende.

Madalena: Como é que é?

Pedro: Qual é, Madá. Agora vai posar de Maria?

Madalena: Não existe passado pra quem se arrepende. E outra, eu era muito jovem.

Pedro: Ah, o nome disso é passado? Achei que fosse fudelan…

Madalena: E é melhor ter a vergonha antes da graça. Melhor sair do caminho jovem do que velho. Velho, caquético e reprimido.

Pedro: (Ergue o cajado e o apoia na pélvis.) Pega aqui na minha férula, querida.

Madalena: Muito engraçado. Condiz com a idade da sua alma.

Pedro: Fala sério, Madá… Se você é tão virtuosa, por que quer a rescisão, hein?

Madalena: Por ele.

Pedro: Hein? Pelo Gordô?

Madalena: É como aquela música… Como se ele fosse o primeiro.

A fanfarra se aproxima, embaçando os sons ao redor. Precisam falar mais alto.

Madalena: Antes dele, não me lembro de nada. Nasci no dia em que aqueles homens me rodeavam com saliva escorrendo das bocas. E ele chegou, sentado naquela mula, erguendo a mão na minha direção: “Vem, mulher.” Desde então é tudo o que eu sou.

Pedro: Essa é boa. Será que cola com essa aí? (Aponta para uma mulher do outro lado da rua, vomitando. Vai até o ambulante e compra duas cervejas. Entrega uma para a mulher e move os lábios. Ela agradece com um aceno e sai cambaleando na direção do bloco. Ele volta ao beco, cabisbaixo.) Não sei se ela me entendeu. Me falta uma mula velha.

Madalena: Talvez. (Suspira olhando para o céu fechado.) Me lembro dos nossos banhos no lago de Generasé. O dia nascia, o sol se abria no céu e a gente pegava a estrada, descendo atrás das colinas de Golã. A água de um azul pálido. Gordô me dizia que ia alugar uma cabana pra a gente passar a lua de mel. De repente a gente passa a lua de mel e o resto da vida. Seremos felizes.

Pedro larga a lata vazia no chão e a amassa com um pisão. Senta num tijolo. A fanfarra passa diante deles.

Madalena: Felizes, nós e o nosso fruto, que um dia vamos voltar a ver. Gordô há de querer.

Pedro: Fruto?

Madalena: Tá surdo?

Pedro: Você disse “fruto”?

Madalena: Sim, fruto.

Pedro: Ah, tá, o damasco, né? Naquele gramado perto da água. Era bom de comer depois da pesca, a boca seca. O sol me deixa com sede e fome. E o mar, com vontade de mijar. (Levanta-se e vai para o fundo do beco, atrás de um pedaço de telha, e urina. Volta enxugando as mãos na batina, já aberta até a metade.) Porra, Madá. Dá pra esperar mais não. Olha só! (Aponta para o céu quase sem luz.) O sol já se pôs. Daqui a pouco é quarta-feira de cinzas e a gente tá aqui nesse beco.

Madalena: Dentro dessa roupa é quarta-feira de cinzas pra sempre. Você sabe que não dá pra sair sem ele. Aliás, e se for quarta-feira mesmo? E se não for sábado? Ou se tudo for sábado ou quarta-feira?

Pedro: Tá bebendo água mesmo? Eu acho que a gente ia lembrar, né, se todo dia fosse o mesmo dia.

Madalena: Mas a memória é limitada. A gente não lembraria. Nem olhando pro céu.

Pedro: Nesse caso, é melhor beber. (Deixa a mitra e a férula no chão, atravessa a rua e compra outra cerveja. No caminho de volta, jovens bêbados o param e pedem uma benção, abaixando as cabeças e rindo. Pedro se anima, volta a trotar sem sair do lugar e a rodopiar sob o próprio eixo. Abre a cerveja, joga na mão e benze os garotos, em latim. Madalena esconde o rosto com as mãos. Anoitece.)

Pedro: Pronto. Fez-se a porra da noite.

Madalena tira o véu e o dobra de modo a formar um fino travesseiro. Recosta na parede do beco e descansa a cabeça. Tem um leve sorriso no rosto, talvez pensando nos banhos com Gordô. Quando abre os olhos, Pedro está sentado com a boca aberta, rodeado por latas de cerveja. Ainda há música nos arredores. O céu está fechado e troveja. Ela se levanta e chuta a perna de Pedro.

Madalena: Melhor levantar. Aí vem as cheias.

Pedro: (Com os olhos vermelhos e bocejando.) A gente devia ir. Ir sem ele mesmo.

Madalena: Tá doido? E deixar isso aqui? (Aponta para o fundo do beco, onde uma lona preta se estende sobre o que parece, agora, com o vento descobrindo a extremidade superior, uma enorme cruz de madeira.)

Pedro: Mas ele não vai conseguir levar mesmo, Madá! Imagina… O pessoal vai sair da frente? “Dá licença, galera, o Gordô tá passando com a cruz dele!” Capaz de tomar chibatada. Mais cedo vi uns romanos por aí dando espadada numas meninas. Elas tavam rindo, mas sei lá.

Madalena: Ele vai vir. Tenha fé.

Agora os barulhos vêm junto com tremores. Pedro e Madalena sobem em tijolos perto da cruz. O bloco continua a passar já sem música, a conta-gotas. Até que os desavisados percebem que os trovões não prenunciam chuva. Nem terremotos. Atrás deles – e isso é o que se pode supor, pois a visão do beco não deixa ver tudo – correm enxurradas de patinhas asquerosas. Os foliões se apressam, correm, trombam e tropeçam e caem nas pedras portuguesas. Alguns se atiram em marquises e tentam se pendurar nas muretas das varandas, mas caem lá de cima esmagando quem já está caído lá embaixo. Provavelmente há centenas de mortes, mas é impossível contar, uma vez que as manadas de ratos cobrem os corpos durante sua passagem. Nenhum deles entra no beco: talvez tenham horário a cumprir.

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