Oitavo mandamento (Carol Schettini)
A quarta escola traz por tema a morte, horrores da morte. Jandira franze o rosto num muxoxo seco torcendo a boca como se fosse uma garrafa de rosca. Como pode um carnavalesco perder tempo exibindo urubus cheios de glitter sobre um monte de manequins ou gente ou sabe-se lá o que sambando em cima de um platô.
— Tá achando feio, ô piranha?!
Patrick grita no ouvido de Jandira. Mais uma vez está atrás dela, encostado, encoxando. Ela empina a bunda diminuindo a falta de espaço entre eles e responde:
— Feio, feio.
— Lembrou seu irmão pra mim.
Jandira se vira mais rápido que uma moeda de cara ou coroa.
— Como é?
— Seu irmão.
— Como é?
— Seu irmão na campina na boca do urubu.
— Cesinha foi embora.
— Foi.
Patrick dá um sorriso de boca fechada, coloca as duas mãos em forma de armas para o céu, balança os braços e diz:
— Foi, foi. Subiu.
— Ele foi embora, Patrick.
— Foi.
— Foi embora do morro — ela insiste.
— Sei.
Patrick continua fazendo gestos com as mãos. Jandira apalma seu peito e pergunta:
— O que você sabe?
— Piranha, cê acha mesmo que seu irmão foi embora? Embora pra onde, piranha? Pro céu?
— Ele foi. Passou em casa. Pegou roupa. Beijou a mãe. Nem vi. Ele foi.
— Ele obedeceu Negueba.
— Como é? Como é?
Jandira bate com força no peito de Patrick. Ele segura sua mão e fala colado em seu ouvido.
— Piranha, ele gostava de vocês. Ele foi. Vocês tão aqui. Olha você aqui gostosa sambando na avenida.
Na primeira vez que César virou Cesinha ele devia ter uns doze anos. Na terra batida da favela, ele não era o menino da bolinha de gude. Ele era o menino do foguete. Ele era o leva e traz. Traz erva pra cá. Leva coisa pra lá. César virou Cesinha e colocaram ele pra vapo. O vapo sumiu com um beque, com alguns, sumiu com uma chiquita alta. Chamaram a mãe no alto do morro. Ela me levou junto. Não tinha dinheiro, não tinha droga, tinha eu. Eu era a moeda de troca. Trocou eu pela dívida do Cesinha. Eu conhecia Patrick. Conhecia Patrick de roupa. Conheci Patrick nu. Pra honrar a mãe, a filha – eu – se desonrou.
— O que Negueba fez? O que você fez com ele, Patrick? — Jandira grita no meio do barulho. Da sua boca saem confetes em formato de farpa. Seu tom de voz é alto. Por que não disse antes? A escola anterior baixou os ânimos. A escola da vez, ao contrário, anima os cansados, faz o morto bater pezinho no chão.
Patrick sambando, encostando nela diz:
— Foi. Só isso. Foi.
— Ele era uma criança!
— Criança, piranha? Cesinha era criança?
— Tinha nem dezesseis anos.
— Com ficha pior que muito di maior.
— Cesinha é meu irmão!
— Cesinha era um vacilão, piranha! Um va-ci-lão.
Jandira paralisa os músculos do rosto imaginando um grude de polvilho salpicando em sua pele. Seu cérebro segura a informação. Não quer lágrimas escorrendo por sua maquiagem à prova de falta d’água.
— Cê matou ele, Patrick?
Jandira soca seu peito, Patrick continua segurando seus punhos. Jandira encosta a cabeça no suor da pele de Patrick. Ela respira e repete.
— Matou, Patrick?
Ela olha para cima e encara o rosto de Patrick. Seu amigo, seu amor, seu amante. Patrick, seu dono. Patrick, o homem que comia a comida da sua mãe, batia na sua cara, levava a roupa para ela arrumar. O homem que colocava pulseira de ouro no seu braço, trocava seu telefone pelo último lançamento, dava corda no baile, levando-a para a área vip, destratava no camarote, fingindo não conhecê-la. Com o rosto transformado de horror, fazendo o glitter da sua pele criar vincos mal arados, Jandira grita:
— Meu irmão. Você matou Cesinha?
Patrick olha para o lado procurando por uma ajuda, sua companhia oficial, talvez.
— Não.
Jandira não acredita. O não saiu mais fácil que o foi-foi da boca de Patrick. Ela bate a testa no peito dele e desencosta o rosto e diz:
— Ele era comida de urubu?
Jandira conhece Patrick. Quando ele mente uma mentira mentirosa seu olho direito treme e ele o segura com dois dedos. Ou com o cano da arma. Ou com dois dedos em forma de arma. E fala. Fala sem espaço para o fôlego.
— Não matei. Não queria. Não teve jeito. Lembra eu ou tu? Vi, piranha, vi.
O coração de Jandira dá um truco no mesmo tempo da paradinha da bateria da escola de samba. Segundos. Volta batendo mais oco. Mais duro e mais forte.
— Viu morto? Viu matado? Viu o quê?
— Piranha, o vacilão já era. Cuida da tua vida.
— Viu o quê, filho da puta?
— Quer saber? Quer saber? Vi a bala sair da minha pistola e estourar a cabeça daquele vacilão. Foi. Foi eu. Foi ele.
Patrick larga os braços de Jandira que caem como mangueiras soltas em volta do seu corpo não de uma forma ritmada, mas em câmera lenta, contrastando com o vigor do samba. Ele sai sambando para o lado, deixando Jandira parada. O espaço a sua volta é ocupado por outros foliões enquanto Patrick encontra e aperta a cintura da sua loira que vem do outro lado carregando taças de champanhe.
Jandira esbarra em um em outro. A gravidade puxa seu corpo gelatinoso para baixo e ela senta na arquibancada dentro do camarote entre a bancada da frente e os sofás do fundo. Abaixa a cabeça colocando as duas mãos para balançar para frente e para trás.
Patrick trouxe a informação que nunca deveria chegar para ela. Num momento péssimo. No pior lugar: no meio da apoteose. Jandira preferia não saber de nada. Voltar para casa na ignorância seria uma nota dez naquele carnaval. Dez, nota dez. Melhor voltar para casa esperando Cesinha voltar sem ser Cesinha. Melhor esperar Cesinha voltar sendo César. Melhor esperar do que ter a certeza.
Os aniversários de César eram bons. A mãe fazia bolo de chocolate com recheio de brigadeiro. Colocava balões e velas e toalha de plástico. Os vizinhos iam e não faltavam presentes e abraços. Alguns dias eram bons. Bem bons. Não caía chuva nem subia polícia no morro, sacudindo um, passando a mão no outro. Patrick tinha duas covinhas nas quais eu nadava. Depois, um bigode. Uma barba. Tirava tudo e fechava a cara. Cigarro pendurado. Nunca vi ele tragar. Acho que o cigarro era distração. O tempo de olhar pra boca dava tempo dele sacar uma arma. No último aniversário de César, César não apareceu. Foi Cesinha. Foi ruim.
Jandira levanta da arquibancada e segue para o fundo do camarote, passando pelos sofás com passos apressados como pregos ficassem seus pés. Os degraus para a área vip no terceiro andar são vencidos de dois em dois. Jandira desaba numa poltrona isolada. Segura o celular e envia uma mensagem para sua mãe. “Oi, mãe”. Continua. Apaga. “Oi, mãe”. Envia. E agora? Se arrepende na hora do clique. Como continua? Não pode apagar, pena da mãe ligar de volta ou aparecer procurando por ela. O que escrever, então? Não tem como compartilhar aquela dor. Dor é coisa egoísta, não se compartilha. Repartir a dor trará o dobro de dor para Jandira. A dor de perder o irmão. A dor de ver a dor da mãe por perder seu filho. Jandira pensa na mãe. Quando Cesinha foi embora viu o rosto da sua mãe trincar um pouco de cada vez. Seus olhos passaram de negros cor de jabuticaba no pé para jabuticaba embaçada a dias na vasilha de plástico. Não ser ela a pessoa a dar de presente para sua mãe a maior dor. Imagina sua mãe não trincada, mas quebrada tal um vaso chinês sob a pata de um elefante.
Desde que Cesinha foi embora, a mãe vive o presente. Não olha pro passado, com medo de ter deixado passar alguma coisa tal classificado em jornal. A mãe trabalhava tanto não tinha tempo pra ver o filho progredir fora da escola. Mudou de religião, de barraco, de marido. A mãe não olha pro futuro com medo de César não estar esperando por ela lá. Não sonha mais em ver César de pastor com seus netinhos. Ela deixou a seca pra seca se instalar dentro dela. A mãe tem o presente. Seco sofrido árido. E o presente sou eu. Eu transbordo a vida pra ela.
Jandira balança não os braços, mas o corpo inteiro, sentada para frente e para trás, seguindo a cadência do refrão do samba. Esfrega as mãos nas pernas, nos braços, nos peitos, limpando uma sujeira que ali não está. Ao passar a mão no peito, sente a plaquinha da fantasia da acompanhante de Patrick. A fantasia que a loira deu para Jandira guardar no guarda-volumes. No minuto que sente o comprovante, levanta e desce as escadas para dar de cara com Patrick sambando agarrado na loira. No guarda-volumes da entrada, está guardado o vestido vermelho de paetês pregados um a um por Jandira. A loira não merece usar o vestido, ela não tem o ímpeto da pomba gira.
Jandira olha o casal se agarrando, segura a ficha entre os dedos. A loira não tem pecha de Maria Mulambo. Quem foi chamada de puta a noite inteira foi Jandira. Quem vai vestir de Aluviá sou eu. Jandira manda uma mensagem para a mãe: “Vê na tv nossa escola. Vou estar no carro dos Orixás de vestido vermelho”. Jandira traz à terra o oitavo mandamento.
