por Américo Paim
O barulhão que o caminhão do lixo fez movimentando as pequenas caçambas enfileiradas na calçada em frente ao Edf. Cosa Nostra fez as vezes de despertador para Marcelo, ou Taboca, como os amigos o chamavam. Ele acordou puro suor. A cachaça foi bruta no dia anterior. Ele não despertaria só por causa da luz do sol inclemente entrando pela janela aberta e sem cortinas do pequeno apartamento na Graça. Ele estava no chão. Saiu do quarto em algum momento da madrugada e não acertou voltar. Ficou por ali mesmo. Abriu os olhos e a primeira imagem que se definiu diante dele foi a de João, sentado na poltrona no canto da sala. Se olharam e Taboca falou.
– Porra, mermão, que hora é essa?
– Acorda pra cuspir…
– Cabaço, na moral, que calor da desgraça…
– Bora, véi, sai do chão.
– Que dia é hoje?
– Domingo. O carná continua. Vamo que é bom.
– Aonde…
– O que é? Vai ficar dormindo?
– Dê um tempo aí, meu bom. Tá foda…
– Carcou o dente bonito ontem, hein?
– Nem fale… Lembro de quase nada, papá…
– Oxe, como é isso?
– Tô lhe dizendo. Só sei que foi bom.
– Como sabe?
– Ué, tô vivo! Só tá doendo aqui e ali…
– É… acabou tudo bem.
– Oxe, quéquecêqué dizer?
João, o Cabaço, começou a reviver o sábado para o amigo. Por volta das duas da tarde estavam na concentração do bloco. Ele, de cara. Taboca já tinha batido umas duas no apê de Queijinho, ali perto, no Corredor da Vitória mesmo. Quando a banda começou a passar o som, os três saíram à toa. Sol forte, mas as árvores e o vento quebravam um pouco. Compraram latinhas no isopor da vendedora e avistaram cinco meninas bonitas do mesmo bloco. Elas não os viram. Taboca, atlético, cabelo bonito, bigode e cavanhaque, era o mais atirado. Se chegou no grupinho e os dois guardaram distância regulamentar, esperando o sinal de sempre. Ele coçou a perna direita. Caminho livre. Se aproximaram fingindo surpresa. Queijinho, nada alto, não tão físico quanto os amigos, com uma juba que lhe batia no ombro, falava fácil. Com Cabaço nunca era assim. Tinha o apelido cruel, cortesia de Taboca para o único da turma que ainda não havia estreado no mundo real, como eles gostavam de pirraçar. Acontece que ele era um cara bonito e muito inteligente. Tinha sorriso franco. Ficou ali e fez o possível para não atrapalhar. O bloco saiu para o Campo Grande. Duas meninas sumiram, Queijinho continuou a luta por uma delas. Saiu dali conversando. Taboca já foi abraçado com a outra. A terceira desistiu diante da inatividade do tímido Cabaço.
– Menina gostosa, lembrei.
– Oxe, cê nem chegou no TCA com ela, Taboca.
– Beijei muito até lá. Precisa mais?
– Não tô lhe reconhecendo…
– Foi só o aquecimento. Cê sabe quem eu queria.
– Só sei que no Forte de São Pedro cê pegou outra.
– E foi?
– Até Queijinho se deu bem. Eu só coloquei a boca nas latas.
– E peguei quem? Largue o doce aê…
– Celina, lá dos Maristas. A da natação.
– Foi mermo? Véi, num lembro nemfu.
– Eu sei. Ela lhe procurou depois, siri na lata.
– Cê disse o quê?
– Contornei que cê tinha ido vomitar em algum canto.
– Ah, que beleza, muito obrigado.
– Achou ruim? Salvei você e a pobre.
– Conta mais. E Berê?
Cabaço não respondeu. Falou dos momentos tensos quase em frente ao Bar do Tírson, na Rua Forte de São Pedro. Taboca já bem alegrinho, na pulação com outra menina dentro do bloco, esbarrou em um fortão, que não gostou. Quase o caldo entorna. Ele tomou um ou dois cachações, mas foi esperto e correu para perto de um grupo de policiais que passava junto às cordas. Os amigos do cara seguraram a onda e o assunto foi resolvido. Cabaço ficou foi aliviado. O sujeito era mais forte que todos eles reunidos e tinha um grupo maior. Eles seriam almoçados e seus ossos virariam palito de dentes para os caras. Taboca nem ligou para o relato, só lamentou perder a gata. Queijinho sugeriu que fossem comer. Cortaram caminho pelo Politeama e saíram na Rua Direita da Piedade, até o McDonald’s ali perto. Bateram um sanduba cada e foram para a Praça da Piedade, esperar o bloco passar.
– Hum, aí acho que rolou problema, num foi?
– Ah, lembrou?
– Não sei bem. Uma briga?
– Tá quente.
– Comigo?
– Tá frio.
– Você?
– Não, Queijinho.
– Que porra foi?
– Tentou beijar uma criatura.
– Ué, e daí?
– Ela não gostou e tome-lhe tapa. Ele insistiu, exagerou.
– Óia só… Mas é Carnaval.
– Não é bem assim. “Não” é não.
– Qualé… Se fosse eu…
– Ia apanhar.
– De mulher?
– Ela era carateca, fio.
– Vixe…
– Ele tomou foi porrada, viu?
– Não reagiu?
– Você é mais idiota do que parece.
– Ei, olha como fala, Cabacinho.
– Tirei vocês de lá antes dos meganhas e vazamos pra Rua da Forca.
– E foi? Aí a gente encontrou Berê?
Desconversando, Cabaço contou que nem chegaram na Carlos Gomes, pois caíram numa roda de samba improvisada, perto da Pastelaria Good Day, por causa de Taboca, claro, que jurou que a “morena deliciosa” que estava na roda sorriu diferente para ele. Sempre achava isso de todas. Ficaram o tempo para ele trocar uns amassos com a bela menina e se arrancaram de lá para o bloco, que já tinha alcançado a Piedade. Encontraram outros amigos, que pegaram o desfile depois. Mais latinhas. Tudo parecia bem. Até que, perto do Relógio de São Pedro, se perderam de Taboca. Procuraram por todo o bloco e nada. Preocupados porque o rapaz estava com várias na cabeça, saíram e fuçaram as barracas na praça, até que o encontraram, abraçado ao poste do relógio, fazendo declarações de amor para o vazio, com aquela cara de felicidade, olhinhos revirando. Cabaço se aproximou e sentiu cheiro de lança. Pegaram o amigo, colocaram num banquinho de madeira e meteram água pra dentro. Receita de uma tia de Queijinho. O fato é que ele foi melhorando. Tinha cheirado pouquinho, mas era da ruim. Uma meia hora depois, voltaram para o trio.
– Quem me deu a lança? Fala que eu pego o puto!
– É ruim… Depois da merda que fez…
– Oxe, quéquecêqué dizer?
– Cê beijou a irmã de Chico Animal.
– Puta que pariu, como é que tô vivo?
– Os amigos dele ficaram com pena. Só lhe deram lança estragada.
– Da melhor qualidade…
– Ainda reclama…
– Aí a gente chegou na Castro Alves, né?
– Sim. E advinha? Cê pisou na bola…
– De novo, meu santo? Ah, foda-se… Quero saber de Berê.
– Dá no mesmo. Foi com ela.
– Vixe… Então eu não peguei Berê?
Sem mais opções, Cabaço mandou a real. Ela tava na Castro Alves, na pipoca, com umas amigas. E chamaram os três. Taboca ainda estava mal, mas ficou bem pior quando, sem uma só palavra, Berê passou os braços em volta do pescoço de Cabaço e lhe tascou um beijaço que fez a estátua do poeta tremer. As meninas gritando, Queijinho de queixo caído. Abriram até uma roda. Entre surpreso e feliz, Cabaço abriu os olhos e a última coisa que viu foi o arco descrito pelo braço de Taboca que, apesar de nenhuma condição de enxergar nada à sua frente, lhe acertou um direto de direita invejável. A turma abafou, Berê retirou o agredido dali e o levou a um apartamento que elas alugaram, perto do Raso da Catarina. Lá ela cuidou dele e da boca cortada. Queijinho e outros amigos levaram Taboca ao bloco e o escoltaram por todo o trajeto de volta, apesar de seus protestos querendo voltar à Praça para “pegar aquele desgraçado”. Foi assim que ele chegou ao apartamento na Graça, para onde o amigo também veio, muito tempo depois. Onde agora conversavam.
– Filho da puta, pegou ela. Sabia que era minha.
– Sua porra niúma. Nunca lhe deu mole.
– Ó o cara, véi… Escrotidão da porra.
– A gente já tava se azarando. Ela gosta de mim.
– Traíra. Amizade fraca da miséria.
– Cê passa o rodo geral e tá aí miando por causa de uma?
– Ela é diferente.
– E eu num sei?
– E se diz amigo…
– Oxe, lhe protegi o dia todo.
– É o quê? Me abrace…
– Ué, num foi?
– Eu devia ter lhe dado uma broca mais certeira.
– Funcionou muito bem, acredite.
– Fiquei sem a mulher, ressaca da porra, apanhado. Nada pode piorar.
– Mais ou menos…
– Oxe, o quéquetuqué dizer, Cabaço?
– Vou precisar de um apelido novo.
