Tá de batom?

Sábado de carnaval. Manhã

Na calçada, ele segura o portão do prédio quando ela sai.

– O senhor, por favor, aperte o botão para falar com a portaria. É virtual.
– Eu moro aqui.
– Desculpe, mas não o conheço.

Ele dá um passo para trás. Ela passa. Ele espera o portão bater.

– Vai no bloco?
– Perdão?
– O chapéu. Retado.
– Ah, não… Era o que tinha à mão para tapar o sol… Só vou na… Boa sorte.
– Sorte? Pode ser.

Com um gesto cômico, ele pesca a tag no bolso, abre o portão e entra no prédio.

Sábado de carnaval. Tarde

+55 11 91908294
Boa tarde. Queria me desculpar pela grosseria de hoje de manhã. 14h30
+55 84 90057667
quem eh? 15h5
+55 11 91908294
Desculpe. Sou a Beatriz, do 62. Achei seu número no grupo do prédio: Felipe, do 34, não é? 15h51
+55 84 90057667
a rlx ta suave 15h55
+55 11 91908294
Bom, só escrevi para evitar mal-entendido. Até logo. 15h55
+55 84 90057667
num vai me desejar sorte de novo kkkkk 15h56
entao n vai no bloco? 16h01
+55 11 91908294
Você entendeu errado. Não brinco o carnaval. 16h01
+55 84 90057667
brincar? 16h01
kkkkkk 16h01
a so vai la 16h01
+55 11 91908294
Tenho de ir. Boa tarde. 16h01

Sábado de carnaval. Noite

– Sabia que você vinha.
– Felipe? Não te reconheci de peruca. Só passei para dar uma olhada. É perto do prédio…
– Toma uma cerveja? Tem no cooler.
– Não, só estou de passagem mesmo.
– Legal. Boa sorte aí!
– Quê? Não ouvi. O BARULHO ESTÁ ALTO!
– O BAGULHO TÁ DOIDO!

Segunda de carnaval. Noite

Felipe 34
ta de bobera 19h37
ta em casa 19h41
???  19h54

Domingo de carnaval. Tarde

Ao sair do elevador, ele a encontra no térreo. Aperta o sexto e mantém a porta aberta para ela subir.

– Isso está virando rotina.
– O quê, você fantasiado?
– Eu segurar a porta e você me podar.
– Desculpe, mas você não me conhece. Só somos vizinhos, o que não dá para evitar.
– Vizinhança pau da vida, essa.
– Peço desculpas de novo. Eu não sou grosseira sempre, acredite.
– Dia ruim?
– Dias. Trabalho, família, essas coisas.
– Trabalho de domingo? Oxe!
– Não hoje. Esses dias.
– Relaxa. Tem outro bloco. Agora é lá na praça.
– Você já conhece bem o bairro.
– E só cheguei faz um mês.
– Baiano?
– Potiguar. Vim pra facu.
– Sei. Bom, boa tarde… e sorte no seu bloquinho.
– Passa lá. Tem bebida de graça pra diretoria.
– Acho que não vai dar. Boa noite.

Domingo de carnaval. Noitinha

– Felipe?
– Eita! Não é que tu veio?
– Essa fantasia é… de bebê?
– Chorão. E essa sua máscara?
– Achei melhor. Sou a síndica, você sabe.
– E síndica não pula?
– Não na minha idade.
– No carnaval não tem essa de idade não.
– Sei. É fácil dizer isso para quem tem vinte anos.
– Dezenove.
– Ave Maria!
– Toma esta breja. Acabei de pegar.
– Tem vodca?

Domingo de carnaval. Noitão

Eles chegam ao prédio abraçados. Ainda na calçada, ela afasta a mão dele de sua cintura.

– Quéisso agora? Não tem nem porteiro.
– Tem câmera.
– Deve alguma coisa pra alguém?
– Pra muita gente. E o subsíndico é militar.
– E como a gente faz?
– Não tem a gente. Você é um bebê. Hoje tá até de fralda.
– Mas você não é tão velha assim.
– Tenho idade para ser sua…
– Tia! Uma tia totosa.
– Sei. Vamos dizer que hoje eu troco a fralda pra você…
– Jura? Troca mesmo?
– Deixa eu falar. É sério. Vai que eu faça isso hoje. No futuro, você quer trocar a minha fralda?
– Que mané futuro? Futuro é hoje.
– Chega, Felipe. Outra hora a gente conversa.

Segunda de carnaval. Noite
Felipe 34 22h36

22h51

23h10

Quarta de cinzas. Manhã
Bia
Felipe, tem bloco hoje? 07h00
Felipe 34
cabo 07h01
me acabei tb 07h01
voltando pra cs 07h01
Bia
Qual é sua fantasia hoje? 07h01
Felipe 34
puta to de crop e salto 07h15
Bia
Passa aqui? 07h15
Felipe 34
Aki onde? 07h15
Bia
No 62. Destranquei a porta 07h15
Felipe 34
e o sub? 07h22
e o futuro? 07h2
e a câmera? 07h2
Bia
Tá de batom? Manda um beijinho pra ela. 07h23


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