Agnus Dei

Agnus Dei (texto de Carol Schettini)

— Deu pra quem pra tá aqui, piranha?

Assim Patrick cumprimenta Jandira ao vê-la pendurada na bancada do segundo andar do camarote. Ela volta, passa as pernas para o lado de dentro, fica em pé, encoxada no meio das pernas dele. 

— Pra você é que não foi.

— Pra mim, se dá de graça.

Naquela manhã, quando voltei da praia, encontrei Patrick na frente do morro. Me puxou pra dentro do boteco, não deu tempo nem de me livrar da areia colada no meu bronzeador de urucum. Sal com pele com areia com sol.

— Tá com quem? — Jandira pergunta.

— Comigo. Comigo ninguém pode.

Patrick olha para o lado. Enfia a mão por baixo da blusa cortada de Jandira. Tão curta, um top minúsculo, só não cortou mais porque era obrigado aparecer o logo do camarote. 

— Sai. 

Ela o empurra. Ele verga a cabeça para trás e ri. Volta o corpo para cima dela, falando colado, seu cuspe pingando na bochecha de Jandira. 

— Bem que você queria. Tô com alguém aqui, garota.

Patrick está cada vez mais próximo de Jandira, quando ela acha que ele pode beijá-la, ele pega seu rosto e mostra uma mulher do outro lado do salão. Uma mulher na fila para pedir uma bebida. Num estojo de lápis de cor, Jandira (e Patrick) ficariam emparelhados entre o marrom e o preto. A mulher, a mulher da fila, seria a outra ponta, um lápis de cor branco. Um transparente, talvez? Jandira diz, piscando os olhos e colando os lábios: 

— Desde quando você anda com gringa?  

— Não é gringa.

— Do morro, nunca vi.

— Do baile. Dá status. Zona sul.

— Cê tá parecendo ator de malhação com ingresso pra matinê.

Jandira repara na mulher. A blusa cortada ombro a ombro, cobre os braços, a barriga. 

— Deve ter barriga mole. Estufada por trás de tanto pano.

Patrick olha para Jandira, puxa a corrente de pérolas falsas que enfeitam sua cintura, em cima do seu umbigo. Puxa com força. Voa bolinhas para todo lugar.

— Ei, vai me pagar. Foi caro essa parada!

— Piranha, no Saara, caro? Ha ha ha ha.

— Doeu, poxa!

Há um vergão vermelho no local onde estavam as pérolas. Um risco de fora a fora. Foi serrada por um mágico de araque. Patrick dá uma sacudidela na cabeça, levanta a mão e dá pequenos tapinhas na barriga, no peito, no queixo de Jandira.

— Doeu, piranha? Pena! Chama a segurança! Ai, ai, ai. 

Patrick empurra o pouco espaço que sobra entre os dois e sai de costas. Bate com os dedos no chapéu, uma reverência. Jandira cola os braços para trás, senta de costas, com as pernas ainda para dentro do salão. Escuta a abertura do show no andar de baixo. A primeira escola ainda vai demorar uns minutos para entrar. Seca uma lágrima, se aperta nas outras pessoas, roda para frente, com as pernas para fora, olha a avenida, a frisa. Lá embaixo, já abraçado com a gringa cor básica de parede, Patrick. Ele olha para cima. Chega a dar um tchauzinho para Jandira. Ela sente sair algo da sua boca. Se não for baba, é espuma, está com raiva. 

Jandira desce as escadas para tirar satisfação com Patrick e dá de cara com a Loira.

— Querida, entrega esse vestido ali no guarda-volumes pra mim enquanto eu pego uma champanhe. 

Jandira fica em pé segurando a peça vermelha como um garçom segura uma bandeja de prata cheia de taças de cristal. Jandira é transportada para outra vida, para outro século, para antes da abolição da escravatura. Vê a sinhá dando ordens na mucama. Por costume ou medo do açoite, a mucama sem jeito faz o que a patroa mandou. Jandira entrega o vestido e na hora que recebe em mão o comprovante guarda no seu peito e pega do bolso do short o papelzinho do dia anterior. Ninguém confere a data mesmo.

Vê Patrick falando alguma coisa no ouvido da Loira e saindo do camarote. Ela se aproxima.

— Seu número.

— Obrigada, querida. — A  loira dá um beijo no rosto de Jandira.

Jandira não sai do seu lado, fica parada sambando sem tirar os pés do chão. Os primeiros fogos indicam a entrada da primeira escola. Jandira se assusta.

— Preocupa não, boba, são fogos, não é tiro não. — A loira diz dando tapinhas no braço de Jandira. 

Tiro no morro é bombinha de São João. Festa junina todo dia. Quando era criança, era pior, muito pior. Uma vez, estávamos jogando cinco marias na frente do barraco e começou o barulho. Tava eu, Patrick e César. Entramos na sala e deitamos no chão de cimento. Cimento pintado de vermelho que é chique. Ou é chique ou esconde melhor manchas de sangue quando algo dá errado. Deitamos os três de barriga pra baixo fazendo uma estrela. Depois vi um professor de natação ensinando aquilo dentro d’água. A estrela. Um tiro furou o madeirite e colou no quadro da foto da vó. Meu corpo pulava. Patrick colocou a mão sobre as minhas costas e disse: “Iaiá, eu tô aqui. Eu tô aqui cuidando de você”. Iaiá. Patrick bandido só me chama de Iaiá escondido no escuro. 

— Bem que você podia ficar aqui fazendo companhia pra mim, meu namorado precisou dar uma saidinha — diz a senhora de engenho para a sua boçal.

— Seu namorado saiu pra quê?

— Um serviço rápido.

— Ele trabalha com quê?

— Vendas.

— Ele te deu isso?

Jandira aponta para a pulseira grossa dourada com números romanos. A loira sacode o braço e diz:

— Claro que não, querida, isso é Tiffany ‘s!

Jandira repara na produção da mulher transparente. Fora a pulseira romana, tem uma bolsa de grife cheia de bolas coloridas. Jandira sabe que a bolsa é original. A corrente tem couro marrom, não é feita de couro de porquinho rosa, aquele que nunca escurece. 

— Quer um chiclete?

Jandira pega, mas não come. Sua mãe não deixa comer coisas entregue por estranhos. 

— Tá calor, né? Deve ser a meia.

A loira diz e dá o veredito. Jandira se encanta com a meia-calça arrastão cor de pele de fio de seda. De tanto trabalhar com costura, Jandira sabe a diferença de uma meia feita por um bichinho natural. Ela até pensou em comprar uma arrastão preta na banca da feira, mas estava tão cara, dez reais por um pedaço esburacado de petróleo.

— Essa meia foi uma pechincha, pouco mais de cem, acredita?

Jandira pensa o que poderia fazer com cem, ou melhor com mais de cem. 

Queria tanto uma Barbie loira de roupa cor-de-rosa. Pedi pra Papai Noel, pra patroa da mãe, pra mãe, pro santo. A filha da vizinha tinha a Barbie e o Ken e o carro da Barbie e o avião da Barbie. Ela deixava eu brincar com ela. Eu levava minha boneca cara de adesivo. A minha boneca era sempre a pobre do mal. A Barbie dela morava na mansão e a minha morava embaixo do viaduto. E eu implorava pra brincar com ela só pra ver a Barbie. A mãe dizia que era pecado querer as coisas dos outros. Adolescente comprei uma Barbie pra mim. Uma Barbie loira de cor-de-rosa. Nunca tirei da caixa. 

— Vou te mostrar uma coisa que meu namorado me deu. Uma bobagem de lata. Guardo aqui no soutien porque ele gosta de olhar quando a gente tá,  você sabe. Claro que comprei um alfinete de ouro porque não dá pra.

Enquanto matraca, a Loira tira do decote uma medalhinha. Um Agnus Dei. 

A mãe adoeceu um tempo e a patroa não podia esperar. Mandou a mãe pra rua. A gente não tinha dinheiro. A mãe não pagou e o dono do barraco foi lá e levou nossa televisão e nosso tapete e só não levou o nosso cachorro porque era vira lata daqueles que dá aos montes, tipo rato. Ele disse isso na nossa cara. Uma afronta. César chorou agarrado no Preguiça. Patrick foi me ver e viu o desespero e disse que ia resolver. Perguntou pra mãe se ela tinha joia. A mãe mostrou a ele a medalhinha de Agnus Dei que ela ganhou não sei de quem não sei onde. A mãe nunca foi católica. Da umbanda passou pra crente. Patrick pegou a medalhinha e levou e no dia seguinte trouxe o papel dando a casa pra mãe. 

Jandira vira uma alegoria imóvel quando olha para a medalhinha na mão da Loira que guarda ao ver Patrick entrando no camarote. Jandira segue em direção a ele e diz:

— Presta atenção. Até a quarta escola a medalhinha vai ficar aqui ó.

Jandira ergue a mão aberta em frente ao rosto de Patrick e bate com o indicador no centro.

— Ouviu? Aqui!

— Piranha, tu pagou a dívida, tá ligado?!

— Aqui, Patrick, aqui. 

Jandira dá as costas em direção às escadas. Antes de subir, se vira, faz novamente o gesto da mão aberta para Patrick, fechando o punho e dando-lhe uma banana. 

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